
Quais são as chaves da felicidade? Pensadores de todas as épocas e lugares vêm refletindo sobre esse assunto e as respostas variam de um extremo a outro. A primeira dificuldade é definir exatamente o que se quer dizer com “felicidade”. A Psicologia moderna, desde seus primórdios e na maioria de suas abordagens, se concentrou em compreender o negativo, o doentio, o sofrimento, o que é perfeitamente compreensível.
Porém, em tempos recentes uma parte da Psicologia vem se interessando em pesquisar mais o bem-estar subjetivo: o que é a felicidade e que características e circunstâncias contribuem para que as pessoas sejam felizes? As ferramentas para se pesquisar e medir a felicidade ainda estão sendo aprimoradas, mas já temos conclusões interessantes.
Felicidade NÃO é algo que acontece para as pessoas, mas algo que as pessoas fazem acontecer. Claro que o ambiente e o que acontece conosco contam muito, mas não são tudo. Nossa percepção e cognição são fatores fundamentais. Assim, uma das tarefas dos psicólogos é (1) prevenir as pessoas contra gastarem grande parte de suas vidas buscando alcançar objetivos utópicos que elas acreditam serem meios de alcançar a felicidade, mas que só levarão à decepção e a outros efeitos deletérios e (2) ajudá-las a encontrar alternativas que realmente as conduzirão a uma vida satisfatória.
Felicidade NÃO significa viver em êxtase ininterrupto. Nosso organismo e nossa mente não suportariam o arrebatamento contínuo, assim como nenhuma máquina suportaria funcionar à potência máxima 24H/dia x 7 dias/semana sem apresentar problemas em seu funcionamento. Até mesmo máquinas sem vida precisam de pausas para manutenção. Pessoas obcecadas com diversão levam vidas frívolas, sem sentido e não são realmente felizes. Pessoas genuinamente felizes não fazem do entretenimento a razão de sua existência. Todos nós temos altos e baixos, sentimentos positivos e negativos. Mais importante é a média geral e a salubridade desses sentimentos.
Felicidade NÃO significa nunca ter problemas, só usufruir sentimentos positivos, conseguir tudo o que quer. Todos nós temos nossos desafios, frustrações e oscilações de humor. Estes e outros conceitos são ilusórios, impossíveis. A felicidade genuína é um fenômeno sutil, que não costuma ocorrer quando a buscamos diretamente, mas que acontece (em geral sem percebermos) quando fazemos algo, quando estamos com alguém, quando “somos”. Por isso aquela frase “eu era feliz e não sabia”.
Portanto, um discernimento fundamental é compreender a diferença entre felicidade e prazer. E (possuindo esse discernimento) uma competência essencial é a autodisciplina de adiar ou mesmo renunciar a determinados prazeres imediatos em prol de objetivos futuros que nos tornarão felizes no longo prazo. Às vezes, aceitar hoje uma dor relativamente pequena é o caminho para evitar dores muito maiores amanhã. Não quer dizer que os prazeres sejam ruins, errados ou desnecessários, quer dizer que devem ser usufruídos com equilíbrio e bom senso.
O ambiente em que vivemos influencia nossa felicidade geral, de formas positivas e/ou negativas. Mas, sem negar o poder do ambiente, a satisfação na vida é derradeiramente uma responsabilidade do próprio indivíduo. Para sermos felizes, mais do que um determinado conjunto de circunstâncias, precisamos de um determinado conjunto de atitudes. A primeira delas é o equilíbrio e o bom senso em tudo, inclusive na nossa busca da felicidade. Sim, é paradoxal, mas para sermos felizes temos que ser comedidos na busca da felicidade e não fazer dela o objetivo da nossa vida.
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