quinta-feira, 15 de março de 2012

Mania de Perseguição (3/5): Onde Acontece


É possível levar para o lado pessoal qualquer palavra ou ação, mas certos relacionamentos parecem mais vulneráveis a esse equívoco.

Um deles é a relação com nossos familiares. Podemos acreditar que tudo o que nossos pais, ou irmãos, ou filhos dizem e fazem é só para nos atingir, o que pode levar a tensão desnecessária e até mesmo a abusos. Alguns pais não entendem que seus filhos estão simplesmente agindo como crianças ou jovens e passam a encará-los como inimigos.

Os equívocos da ilusão da telepatia e da mania de perseguição conjugam-se fortemente, em especial nos relacionamentos íntimos. Presumimos que toda irritação ou outro sentimento negativo da pessoa é por nossa causa. Então tudo o que ela faz ou fala (conosco ou com terceiros) é interpretado como um ataque à nós. Essas atitudes tornam o relacionamento doentio.

O local de trabalho é um campo fértil para a mania de perseguição. Podemos acreditar que um chefe, colega ou subordinado está em nosso encalço; então tudo o que ele diz e faz é interpretado como prova disso.

Porém, não precisamos ter um relacionamento com uma pessoa para nos sentirmos perseguidos por ela. Não precisamos nem sequer já ter visto a pessoa antes na vida ou saber previamente de sua existência. Um grande exemplo disso é o trânsito, onde muitas vezes interpretamos os erros de outros motoristas ou dos pedestres como propositais, feitos para nos irritar. Assim nós procuramos confrontos com idiotas em vez de evitá-los.

Também é comum as pessoas caírem na mania de perseguição ao sofrerem uma série de infortúnios. Ou quando pensamos que estamos sofrendo uma. O cérebro está sempre ligando informações para extrair sentido e orientar-se. Mas neste processo ele liga eventos isolados para montar um quebra-cabeça que nem sempre corresponde à realidade.

Muito sofrimento é causado por interpretações equivocadas ou distorcidas da realidade, que aumentam nossas aflições e nos fazem ver mais do que existe de fato. Sentimos dor quando enfrentamos situações que encaramos como adversidades isoladas. Mas isso é muito diferente da infelicidade que nos domina quando acreditamos que esses reveses formam um padrão que demonstra que somos cronicamente incapazes e/ou pessoas ruins.


* * *

2 comentários:

  1. Bom dia Dr.
    Desde quando conheci meu marido (a sete anos atras),* hoje sou casada a 1 ano e 5 meses*, venho passando por alguns traumas em relação a familia dele e ele.
    Meu marido é uma pessoa muito boa que chega a ser bobo; ele tem um comportamento vulnerável e estranho, onde todos os tratam sem respeitar ou entender suas individualidades; nisso eu posso me incluir também em alguns casos, pois todos nós achamos que ele não sabe fazer as melhores escolhas; já errou demais no passado, já teve problemas seriíssimos até financeiros, é pai de uma gravidez indesejada (sua filha tem 11 anos); onde não consegue se entender com a mãe desde o nascimento da menina, pois esta só quer se beneficiar; usa a filha o tempo todo como moeda de troca.
    È o tipo de pessoa, que fala pouco, se opinamos concorda, mas acaba fazendo o que quer inventando mentiras, que por fim descobrimos do nada, e temos que consertar p/ evitar coisas muito piores.
    Sua família, desde quando o conheci, observava que tratavam a ele e a mim, de maneira diferente das outras pessoas, e do outro filho inclusive, da outra nora; o envergonharam várias vezes na minha frente logo no comecinho, onde também me sentia mal; opinavam dizendo que ele deveria me deixar p/ ficar e dar a mais atenção a sua filha nos fds (que eram os dias que nós podíamos nos ver), sempre vinham com criticas, vinham falando do passado dele, que namorou duas ao mesmo tempo já e que foi pego, que nunca terminou uma relação bem; que nunca teve dinheiro ou ganhou bem, mas que o outro filho sim, é um orgulho; que tem mais amigos, e é mais querido por todos, etc...
    Nessas criticas todas, algumas muitas sobraram para mim também; e precisei me manifestar, no entanto fui chamada pelo pai dele de interesseira, mentirosa, maldosa; injustamente; o pai dele tem fama de falar as coisas sem pensar e fundamentar,(é um senhor muito critico, sem educação, e com lingua bem afiada) simplesmente se ofendeu, porque fui colocar esses 7 anos pra fora(educadamente), e disse que não agüentava mais as palavras maldosas deles, as faltas de educação, as criticas, as implicâncias comigo e com o filho dele; sendo que sempre trabalhei, sempre corri atrás dos meus sonhos, (sou formada, independente financeiramente, sempre ganhei bem; e sempre tentei fazer as escolhas olhando pro futuro).
    Resultada disso, ficamos sem nos falar por quase um ano; mas meu marido ainda ia lá vê-los. Particularmente sempre achei que essa família é louca e problemática, e que eles vivem num trauma familiar desnecessário, “acham a pior coisa do mundo o filho ser pai solteiro e não criar sua filha” Acham que a menina deveria viver com a gente, que deveríamos pedir sua guarda..etc.. A mãe dela pode não ser uma maravilha, mas é boa mãe. A 11 anos eles sofrem com isso e fazem as pessoas sofrerem.
    Eu nada tenho a ver com isso; e gostaria que tudo fosse diferente; aceito a paternidade dele, me dou bem com sua filha; mas mantemos certa distancia, por conta da mãe e da família difícil que ele tem.
    Depois deste episódio e depois do meu marido receber um oficial de justiça aqui em nossa casa a 5 meses atrás, onde a mãe de sua filha pede 50% de seus bens p/ uso e fruto da filha; sendo que ele tinha apenas um carro financiado e o móveis da casa; nossa relação esfriou e muito..é muita pressa em cima de mim, não sei mais o que fazer.
    Meu cunhado e sogros disseram que tenho que entender e aceitar tudo isso, que ninguém tem nada contra mim, e o caso do papel é em relação a filha dele, que não devo me envolver nisso, só aceitar, pois já sabia dela.
    Disseram ainda que tenho mania de perseguição.*** Lhe pergunto Dr, tenho essa doença? Olha a minha situação, o que posso responder neste caso para eles?
    Quando penso neles, me sentido muito angustiada, triste, revoltada, e pedi o divórcio.
    Agora me sinto mais leve.


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    1. Daya:

      Imagino o quanto essa situação deve ser frustrante para você.

      A "mania de comparação" dessa série não é uma "doença" e sim um erro sistemático na forma de pensar e agir. Não posso fazer diagnóstico pela internet, sugiro que procure um psicólogo para uma avaliação global. Cuidado com os rótulos: você é um ser humano passando por situações difíceis e que reage a elas da forma que aprendeu a reagir.

      Querer o divórcio é compreensível, mas pode ser uma fuga e não vai alterar a forma como você pensa e age. Quer fique sozinha, quer arranje um novo companheiro, terá que enfrentar novos desafios. Talvez seja melhor você e seu marido buscarem crescer juntos para um novo nível de maturidade.

      Não quero dizer que você está errada, apenas incentivo que se concentre naquilo que está dentro do seu poder de ação, que use esses desafios como oportunidade de crescimento e que procure ajuda qualificada.

      Busque psicoterapia para aprender a enfrentar seus desafios (atuais e futuros) e aumentar seu autoconhecimento. Um psicólogo vai analisar o seu caso em mais detalhes e lhe dar orientações personalizadas.

      * * *

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