A Ilusão da Telepatia é a crença de que sabemos o se passa na cabeça alheia e que os outros também sabem ou deveriam saber o que se passa na nossa. Não se trata aqui da telepatia literal. Poucos acreditam na telepatia como percepção extrassensorial. E os que acreditam na telepatia literal a consideram um fenômeno raro. Entretanto, no cotidiano muitos cometem vez após vez esses erros em seus relacionamentos: falam e agem como se pudessem ter certeza absoluta do que os outros pensam e sentem. E que os outros sabem (ou deveriam saber) os pensamentos e sentimentos deles.
Essa ilusão possui algum elemento de verdade, que nada tem a ver com poderes místicos. O convívio faz com que percebamos padrões uns nos outros, o que nos permite presumir com razoável acerto os pensamentos e sentimentos das pessoas com quem convivemos e elas, os nossos
O que causa transtorno não é o fazer inferências, mas sermos dogmáticos, pensar que somos capazes de sempre fazer essas previsões de forma infalível. O problema não é fazer pressuposições, mas acreditar nelas cegamente. Além disso, tendemos a projetar nossos pensamentos e sentimentos nos outros. Se nós queremos muito algo, presumimos que todos querem também. Se nós somos vaidosos e suscetíveis, podemos imaginar que uma pessoa está pensando negativamente a nosso respeito, quando na realidade ela não está sequer se lembrando da nossa existência.
O fato é que não podemos acertar sempre. As pessoas são imprevisíveis. Podem mudar de ideia, mesmo que seja apenas em circunstâncias especiais. Também podemos não conhecer a pessoa tão bem quanto acreditamos. E sempre pode haver partes desconhecidas de uma pessoa. Mas nosso diálogo interno ignora esses fatos e faz um discurso atribuindo pensamentos e motivações às pessoas com quem nós interagimos. Não damos o benefício da dúvida, não pensamos em possíveis atenuantes, não imaginamos outras possibilidades para explicar as ações delas. Sabemos exatamente o que a outra pessoa está pensando e temos certeza absoluta disso.
Todos nós em alguma medida fazemos suposições a respeito dos pensamentos, desejos, objetivos, atitudes e necessidades dos outros, especialmente daqueles com quem nos relacionamos. E isso é bom, pois as inferências são atalhos mentais que poupam tempo. Se parássemos para investigar tudo, nossa vida travaria e ficaríamos esgotados.
Grande parte das nossas suposições é relativamente acertada. E das erradas, a maior parte é inofensiva. Faz parte da vida. Detectamos vários tipos de pistas, lhes atribuímos significados e as interpretamos, tirando conclusões com diversos graus de acerto. Agimos de acordo com essas inferências e em geral obtemos bons resultados. Mas essas suposições NÃO são a ilusão da telepatia que estamos tratando aqui. Conforme já dito, o problema não é fazer inferências, mas acreditar nelas cegamente.
Por mais informações que tenhamos e por melhor que ajuntemos as peças, nossa percepção é sempre parcial e enviesada. A interpretação que fazemos de algo pode até ser válida, mas é sempre uma dentre diversas possibilidades. Quanto mais pistas nós temos, maiores nossas chances de uma conclusão certa... se nosso raciocínio for logicamente válido e se a conclusão certa estiver dentro do nosso repertório de conhecimento.
Portanto, quanto melhor você conhece alguém, mais consciência pode ter de quais sinais dele significam o quê. E o mesmo vale sobre a pessoa em relação a você. Esta crença é válida e legítima.
O problema é quando acreditamos que podemos fazer essa leitura (1) a respeito de todo mundo, (2) perfeitamente e (3) o tempo todo.
Na realidade, nós podemos discernir os pensamentos (1) de algumas pessoas, (2) com alguma exatidão e (3) parte do tempo.
* * *
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Envie-nos seu comentário inteligente e educado: