segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Educação Diferenciada para Alunos Pobres


Sintetizado do artigo de Gustavo Ioschpe na revista Veja de 13/07/2011

O colunista da revista Veja Gustavo Ioschpe lançou a sugestão de uma lei obrigando toda escola a ter uma placa bem visível na sua entrada principal com o seu IDEB. Todo cidadão tem o direito de saber da qualidade da escola que seu filho freqüenta, mas a maioria não sabe onde encontrar esse índice e nem sequer sabe que ele existe. É uma informação importante para as famílias e precisa ser divulgado. Além disso, essa divulgação quebraria a inércia da sociedade quanto às escolas, que ocorre por causa da ilusão de que elas são boas. A situação é pior do que imaginam, mas não existe indignação para mobilizar mudanças que superem as barreiras corporativistas.
 
A sugestão dele já produziu projetos de lei em municípios, estados e na câmara de deputados federal, além de ter recebido apoio de grandes jornais. Mas também provocou críticas que refletem os conceitos distorcidos que produzem ou pioram os problemas da Educação brasileira e são compartilhados por pessoas de todos os tipos. Três desses conceitos são:

(1) “Para o aluno pobre, o objetivo principal é estar na escola; se ele aprender, é um bônus”;
(2) “A finalidade da escola é e deve ser o bem-estar do professor”;
(3) “É impossível esperar que o aluno pobre e de família desestruturada aprenda o mesmo que o aluno de classe média e alta

Analisemos cada argumento.


(1) “Para o aluno pobre, o objetivo principal é estar na escola; se ele aprender, é um bônus”;

No primeiro conceito, o pressuposto é que o importante não é a qualidade do ensino da escola, mas o simples fato dela tirar as crianças e jovens pobres das ruas: ainda que eles aprendam pouco ou nada, pelo menos estariam recebendo a oportunidade de inclusão social. Entretanto, a verdadeira inclusão social se dará justamente pelo aprendizado dos conteúdos e competências necessários para uma vida produtiva em sociedade. Como grupo, indivíduos com maior e melhor instrução possuem rendas maiores e é somente por este meio que pessoas marginalizadas se integrarão à sociedade e romperão o ciclo de pobreza e exclusão social. É criminoso contrapor a “qualidade social” ao aprendizado e apresentá-lo como substituto deste: o aluno despreparado não terá condições de se tornar um profissional qualificado e triunfar no mundo real.

Muitos educadores pensam que seu papel é suprir as carências (de afeto, higiene, valores de vida, etc.) que os alunos sofrem. Argumentam que podem não conseguir alfabetizá-los ou ensinar-lhes as operações básicas da Matemática, mas “a Educação é muito mais do que isto”. É conveniente, pois este “muito mais do que isto” é imensurável e ninguém pode afirmar categoricamente que a escola está malogrando nessa missão alternativa.


(2) “A finalidade da escola é e deve ser o bem-estar do professor”;

É óbvio que isso não é dito assim, diretamente. No segundo conceito, a preocupação é (1) com as secretarias das escolas das escolas boas com muitos alunos de escolas ruins querendo transferência e (2) com o estigma que seria causado aos professores das escolas ruins. Os proponentes deste conceito, sempre que ouvem sobre projetos na área educacional, se preocupam prioritariamente com o impacto que essas medidas teriam sobre os profissionais. Parte deles quer a popularidade da imagem de “defensores dos professores”. Muito se fala da valorização do magistério e da recuperação da sua dignidade, adultos capazes que escolheram sua profissão. Mas pouco se fala da valorização dos alunos e da recuperação da sua dignidade, crianças e jovens em formação.

Por isso é necessário dizer o óbvio: o bom professor (assim como o diretor e demais funcionários) é um elemento fundamental na escola, mas ele é um meio para um fim e não um fim em si mesmo. O aluno não é um mero detalhe na escola, ele é a razão de ser da escola. Os professores existem por causa dos alunos e não os alunos existem por causa dos professores. Se o professor estiver satisfeito, mas o aluno não aprendeu, a escola falhou. O foco principal de nossos pensamentos deve ser o bem-estar dos alunos.

[Acréscimo do Blog: De acordo com as teorias administrativas mais esclarecidas, uma das principais formas de se dignificar profissionais de qualquer área é justamente (1) estabelecer elevados padrões, (2) oferecer treinamento e condições materiais e humanas para que eles possam alcançá-los e (3) exigir que o façam.]


(3) “É impossível esperar que o aluno pobre e de família desestruturada aprenda o mesmo que o aluno de classe média e alta”

No terceiro conceito usa-se a palavra mágica “contextualizar”. Onde a escola está localizada faz muita diferença nos resultados, então é “perigoso” divulgar os dados e fazer uma “comparação fria”. Para essas pessoas não se pode esperar que os pobres aprendam o mesmo que os ricos por causa da influência do meio sobre o aprendizado. Colocar uma placa com o IDEB em uma escola pobre daria uma falsa impressão da qualidade daquela instituição e do esforço de seus profissionais.

Essa visão é caudatária de um mal de grande parte dos brasileiros: acreditar que o esforço importa mais do que o resultado, que o empenho vale mais do que o desempenho. Valorizar o esforço empreendido apesar dos resultados abaixo das expectativas pode confortar pessoas que sofrem reveses em suas vidas particulares. Mas no planejamento e execução de metas na administração pública precisamos ser rigorosos: o empenho é irrelevante, o que importa é o resultado. Neste caso, o aprendizado do aluno. Tanto para o indivíduo quanto para o país. Quando o aluno despreparado sair da escola e for procurar emprego, o selecionador não pode e não vai contratar uma pessoa intelectualmente subdesenvolvida para um cargo que requer desenvoltura só porque ele é de origem pobre. E se exportarmos produtos mais caros e de menor qualidade do que dos concorrentes de outros países, o consumidor final não vai comprar o que nós produzimos só porque que o artigo foi manufaturado em um país com complexo de vítima.

É mais difícil fazer com que alunos provindos de contextos adversos aprendam tanto quanto os alunos em circunstâncias favoráveis. Mas precisamos encarar o problema e buscar soluções. O problema dessas escolas não é como seus resultados serão divulgados, o problema são os resultados. Se aceitarmos subterfúgios para camuflar a realidade, quem vai sofrer é o aluno e o país. A maioria dos educadores acredita que as principais causas do baixo aprendizado são o meio em que o aluno vive e o desinteresse dele em aprender. Porém, o exemplo da China mostra que é possível educação de alto nível em cenários de pobreza. No Brasil apenas 22% dos alunos de baixa renda apresentam alta performance, enquanto na China a média é de 75%. Nosso problema não é termos alunos pobres, mas sim nosso sistema educacional não saber como ensiná-los e estar mais preocupado em negar ou justificar essa deficiência do que em solucioná-la.

Precisamos sim de padrões de ensino diferenciados para os alunos pobres. Mas, ao contrário do que preconizam os paternalistas superprotetores, precisamos que as escolas dos pobres ensinem ainda mais do que as escolas dos ricos. É difícil? Sim, porém deve ser nossa meta, pois é o único modo de dar oportunidade para pessoas que já nasceram em circunstâncias tão deficitárias. E se o Brasil como um todo não melhorar seu nível educacional, jamais se tornará um país desenvolvido.

Esse é o non sequitur do argumento da “contextualização”: parte do pressuposto que precisamos nos tornar um país desenvolvido para podermos dar educação de qualidade a todos. Mas a verdade é que é o salto de qualidade que permitirá o desenvolvimento sustentado. O crescimento econômico provindo da alta das commodities é ilusório, em algum momento teremos que encarar a realidade de que um país não pode ser melhor, mais rico e mais bem preparado do que as pessoas que o compõem.

* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: