quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Construindo nossa Subjetividade sobre nosso Alicerce Compartilhado


Conforme já colocado neste blog, o objeto da Psicologia é o ser humano em todas suas dimensões visíveis (comportamento) e invisíveis ou "encobertos" (pensamentos e sentimentos), em sua singularidade (cada um de nós é único) e em sua infra-estrutura básica compartilhada por todas as pessoas (todos somos parecidos, pois nós fazemos parte de uma só Humanidade).

A subjetividade é a síntese singular que cada indivíduo vai construindo conforme se desenvolve e vivencia suas experiências biológicas e sócio-culturais. É uma síntese que nos identifica como únicos e ao mesmo tempo nos iguala como membros da Humanidade, pois seus elementos básicos são compartilhados por todas as pessoas. É o mundo de ideias e emoções construído internamente pelo sujeito em suas interações com os ambientes, o modo de pensar e agir de cada um.

Por exemplo, certa pessoa pode ser descendente de italianos, japoneses, africanos ou outra etnia. Em seu tempo livre pode gostar de certas atividades (esporte, dança, leitura, etc.) e não apreciar outras. Por escolha ou por necessidade, pode fazer certo trabalho remunerado. Pode gostar de certos alimentos e não de outros, ter determinadas convicções religiosas, filosóficas, políticas e assim por diante, possuir determinadas crenças a respeito de si mesma, de seus familiares e amigos, das pessoas em geral, do trabalho, da religião, da filosofia, da ciência, da arte, da vida. Pode ser mais extrovertida (com muitos “amigos”, mas de qualidade duvidosa) ou pode ser mais introvertida (com menos amigos, porém melhores). Cada pessoa tem um conjunto de características físicas, talvez quisesse que algumas delas fossem diferentes, mas esteja satisfeito de modo geral.

Enquanto isso, outra pessoa pode ser bem diferente dela em muitos desses aspectos. Porém, todas as diferenças entre duas pessoas ou grupos são construídas sobre o alicerce compartilhado da nossa humanidade. Antes de sermos homens ou mulheres, etnia A ou B, faixa etária X ou Y, desta ou daquela origem sócio-econômica, termos convicções estas ou aquelas e assim por diante, antes de tudo somos igualmente seres humanos.

Entretanto, embora cada um comece do alicerce de sua própria herança genética única, a subjetividade não é 100% inata e sim construída gradualmente com os materiais de seu mundo sócio-cultural na medida em que o indivíduo é influenciado por seu meio e atua sobre ele, havendo assim uma influência mútua entre o mundo interior e exterior da pessoa. Esses dois mundos estão em constante interação e mudança, ao mesmo tempo em que mantêm certa estabilidade (homeostase ou homeodinâmica).

Conforme desenvolve autoconsciência, o indivíduo pode se recusar a ser moldado e transformado como uma peça em uma linha de montagem, pode dentro de certos limites escolher que direção sua vida terá dali em diante. Porém, fazer essa escolha pode custar caro em termos de luta para ser respeitado. Mas essa decisão, se for mantida, pode influir no seu futuro e no de outros. De fato, todas as nossas decisões são contingenciadas (limitadas) por diversos fatores e influem sobre nosso futuro.

Investigar a subjetividade é buscar compreender o processo de produção contínua de novos modos de pensar e agir. Além de não sermos idênticos uns aos outros, cada um de nós a cada momento é diferente do que era antes. Por outro lado, assim como temos semelhanças fundamentais uns com os outros, em cada um de nós também existe um núcleo que persiste no decorrer do tempo e das experiências, núcle este que forma nosso senso de identidade (idem + entidade = entidade que permanece idem).

Assim, uma pessoa pode estar pronta no sentido de estar suficientemente preparada para assumir certa responsabilidade, mas as pessoas nunca estão “prontas” no sentido de terminadas, pois elas estão sempre se modificando, o processo de construção e reconstrução é contínuo.

Geralmente não percebemos essa mudança porque ela costuma ser muito gradual, então nós demoramos em captar o quanto já mudamos. Mas basta comparar nossas próprias convicções, valores, gostos, preferências, metas e estilos de hoje com os de cinco ou dez anos para percebermos (1) várias pequenas diferenças e (2) algumas diferenças notáveis.

A Psicologia é tanto uma ciência humana quanto biológica. Diferencia-se das demais ciências humanas por buscar compreender o ser humano em sua totalidade, enquanto as demais focam apenas aspectos dele. Mas a forma de definir e abordar a subjetividade depende do paradigma de “ser humano” da abordagem psicológica, o que dificulta essa compreensão. Superar esse impasse levará a Psicologia a apresentar um quadro do ser humano como ser concreto e multideterminado, o que maximizará a nossa capacidade de compreender e aprimorar tanto nosso mundo interior quanto exterior.

* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: