quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Ilusão da Telepatia (3/6): Quando o Outro Pensa que Sabe o que Nós Pensamos e Sentimos


A ilusão da telepatia é uma via de mão dupla: a outra pessoa também pode deduzir errado o que estamos pensando e sentindo. Por que isso acontece? Talvez nós tenhamos nos comunicado de forma obscura. Talvez o ambiente (físico ou humano) tenha atrapalhado. Ou talvez ela estivesse distraída. Muitos fatores podem causar ruído na comunicação.

Além disso, como todo ser humano, o outro também pode sofrer da ilusão da telepatia. Talvez a pessoa enxergue pistas inexistentes e/ou interprete mal aquelas que você transmitiu. E ela pode insistir dogmaticamente na sua dedução errônea. É só inverter a lista do tópico anterior.

A pessoa pode pressupor que você pensa e sente o que ela própria pensaria e sentiria no seu lugar. O indivíduo que gostaria de arranjar um namoro (ou ter um caso) com alguém no trabalho, escola, vizinhança, etc. vê você conversando inocentemente com uma pessoa e tem certeza absoluta de que você está dando em cima dela.

Em outros casos, a pessoa lhe conhece há anos, mas não se dá conta de que você mudou e/ou de que você é um ser mais complexo do que ela imaginava. Por exemplo, quando ela lhe conheceu (e por muito tempo depois), você gostava de um alimento ou apreciava um tipo de música, mas essa preferência aos poucos foi mudando e hoje é completamente diferente.

Talvez a pessoa tenha pressuposições a seu respeito e interprete tudo o que você faz de modo a confirmar a tese dela. Se uma pessoa (que não é disposta a rever seus próprios conceitos) acredita que você só fala piadas e nunca conversa sério, TUDO que você disser será interpretado como piada. Se ela acredita que você é um religioso bitolado, vai concluir que TUDO o que você faz é por causa da sua religião, até mesmo tomar sorvete de creme ("Ah! A religião dele não permite sorvete de chocolate!").

Possivelmente a pessoa pode estar vendo e ouvindo aquilo que ela gostaria de ver e ouvir e não aquilo que está acontecendo fato. A pessoa solicita um favor que você já disse claramente que não poderá fazer, mas ela entende que seu “não” significa “sim” e fica esperando convicta. E depois ela se decepciona e o acusa de não cumprir sua palavra.


COMO CONTRIBUÍMOS PARA QUE NOS INTERPRETEM MAL

Porém, conforme já dito, é possível que o seu próprio comportamento tenha contribuído para que o interpretassem erroneamente.

Talvez você envie suas mensagens em códigos obscuros demais, que os interlocutores não conseguem decifrar. Sua forma de se expressar pode ser enigmática para estas pessoas específicas. Ou pode ser que você tenha receio de confrontar determinada questão de forma direta e opte por fazer muitos rodeios, transmitindo seus pensamentos e sentimentos de modo indireto, ambíguo, impreciso, obstuso.

Talvez você queira transmitir um pensamento ou sentimento, mas na realidade sente outro. Então suas palavras podem ser vagas e parecer comunicar uma ideia, mas sua voz talvez pareça expressar outra informação e a expressão facial e corporal ser um meio termo. Em alguns casos, isso é o que se chama “comportamento passivo-agressivo”.

Talvez você simplesmente escolha mal suas palavras. Por exemplo, uma mulher talvez pergunte ao marido SE ELE QUER ir a um restaurante (em vez de lhe dizer diretamente que ELA QUER ir lá com ele). A esposa espera que o marido perceba a mensagem subentendida. É lindo, romântico e pode funcionar, mas tem grande chance de ser mal-compreendida.

Assim, se você costuma comunicar-se de forma obscura ou dúbia (e até mesmo a ter comportamentos passivo-agressivos), então você próprio está induzindo os outros a interpretar mal suas palavras e ações. O cinema e os livros de romance promovem a ideia de que pessoas podem possuir uma compreensão mágica uma da outra, um tipo de conexão misteriosa. Mas na vida real é necessário aprender a ser assertivo.

Isso não significa que toda a responsabilidade pela eficácia da comunicação com outra pessoa seja sua. Nem que seja toda dela. Significa que você tem que se certificar de cuidar bem dos seus 50% dessa responsabilidade. Os dois lados da comunicação são co-responsáveis em desempenhar bem tanto o papel de transmissor quanto de receptor.

Por fim, a boa comunicação requer prestar atenção ao ambiente físico e humano, ao momento certo e ao estado físico e psicológico de ambos. Tentar conversar um assunto que requer atenção e calma com alguém em um ambiente onde há muito barulho, interrupções ou falta de privacidade, ou em um momento em que um ou ambos estão com muita pressa, ou muito cansados, ou emocionalmente perturbados, é receita para a comunicação deficiente. Procure escolher a hora e o momento mais adequados.

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