sábado, 1 de outubro de 2011

A Ciência é Atéia?


Primeiro, temos que esclarecer que ateísmo genuíno não é meramente não crer em Deus, mas acreditar que Deus não existe. Alguém dizer que não acredita no ser humano é muito diferente de dizer que não acredita na existência do ser humano. Muitos simplesmente não se importam se Deus existe ou não, o que não os classifica como ateus. Além disso, ser ateu não é apenas não ser membro de nenhum grupo religioso e nem se identificar com nenhuma "religião", mas (conforme dito) acreditar que Deus não existe.
 
A ciência é extremamente importante. Mas não podemos ser dogmáticos, transformar a ciência moderna em uma religião secular e impô-la aos outros, o que seria cientificismo. Infelizmente, o equívoco do cientificismo está crescendo. Muitos pensam que a ciência é atéia e que pensar de modo científico obrigatoriamente inclui ser ateu. Porém, o ateísmo é uma opção filosófica/religiosa também subjetiva e sem comprovação científica.

Usando uma antiga metáfora, a ciência moderna estuda apenas o Relógio (o Universo e o ser humano); nossas convicções particulares sobre o Relojoeiro são uma escolha pessoal. A ciência moderna é incompatível com o misticismo, mas é perfeitamente compatível com uma religiosidade não-supersticiosa. Sim, existe religião não-mística. A religião judaico-cristã origialmente era anti-mística. E o antimisticismo da ciência moderna vem em parte das tentativas de restaurar o cristianismo original a partir do século XVI, a mesma época em que a ciência moderna começou a se desenvolver.

Isaac Newton é considerado por muitos como o último filósofo naturalista e o primeiro cientista moderno, pois uniu as antes concorrentes linhas filosóficas do empirismo e do racionalismo e apresentou o conceito de "leis naturais" matematicamente descritíveis. É importante notar que Newton deu origem à ciência moderna, não apesar, mas justamente porque acreditava em uma Inteligência Suprema, pois acreditava que esta criou o Universo como uma máquina que funciona de forma autônoma obedecendo a leis naturais que podem ser matematicamente decifradas pela mente humana.

Newton substituiu o paradigma medieval do Universo como "uma Grande Orquestra regida em todo acontecimento e em cada momento por um Grande Maestro" pelo paradigma do Universo como "um Grande Relógio que funciona sozinho sem necessidade de intervenções constantes". E o papel da ciência seria justamente descobrir como esse Grande Relógio funciona. A atividade científica de decifrar o Universo em nada contraria a crença de que ele foi produzido por um Grande Relojoeiro vivo e autoconsciente.

Para ter mentalidade científica, é obrigatório acreditar que o Universo é regido por leis naturais e, portanto, é inteligível, funciona com racionalidade, ainda que a maior parte do funcionamento da Natureza esteja além da nossa capacidade de compreensão, mas não contra a razão. Essa convicção é o alicerce da ciência moderna, sem ela a ciência perde seu eixo e caímos na filosofia pós-moderna, no relativismo e no niilismo.

Se um menino que está aprendendo as operações fundamentais folhear um livro de Matemática avançada, ele não entende nada, mas sabe que aquilo faz sentido, ainda que esteja além de sua compreensão atual. Não vai pensar que aqueles números e símbolos são ilógicos e mágicos, mas sim que possuem uma racionalidade que ele ainda não alcança. É um enigma, não um mistério. E é exatamente essa a mentalidade científica perante o Universo.

Os ateus e agnósticos raciocinam: "Se podemos acreditar que o Universo foi produzido por um Ser autoexistente (incriado), também podemos acreditar que o próprio Universo é autoexistente". Faz sentido. Mas teístas bem informados apresentam réplicas válidas, que ateístas e agnósticos replicam e asim por diante, em um debate que acaba indo além do escopo da ciência e desemboca na convicção desiderativa.

Ou seja, todos nós (incluindo os ateus) acreditamos no que queremos acreditar, no que preferimos que seja verdade. Mas Atenção: isso não quer dizer que não importa no que acreditamos, que tanto faz acreditar em X, Y ou Z, que não há consequências. Nem quer dizer que não existe verdade ou realidade objetiva. Quer dizer apenas o que foi dito.

Portanto, crer que o Universo foi causado por forças impessoais ou crer que o Universo foi projetado por um Alguém Eterno é uma opção filosófica de cada um. Em uma democracia, essas opções podem ser expostas, mas não impostas. Não é a ciência e sim o cientificismo que pressupõe o ateísmo ou o agnosticismo. O trabalho da ciência é descobrir como o Relógio funciona.


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