sábado, 1 de outubro de 2011

Psicologia: Ciência x Misticismo


A Psicologia vem se desenvolvendo como ramo científico desde 1875, quando Wilhelm Wundt montou seu laboratório na Alemanha. Esse marco histórico (1) desligou a Psicologia de conceitos místicos [como a crença na existência de uma “alma” nos seres humanos que seria a sede da vida psíquica] e (2) a comprometeu com os princípios e métodos científicos. Também fortaleceu a visão do ser humano como ser autônomo, capaz de responsabilizar-se pelo seu próprio desenvolvimento e vida. Mas nem sempre os psicólogos mantiveram esse compromisso com a ciência moderna e com o poder de autonomia do ser humano. Muitos caíram na filosofia puramente especulativa ou no predeterminismo ambiental e/ou genético. E alguns reatam o desligamento com o misticismo.

É verdade que a Psicologia não consegue explicar tudo a respeito do ser humano. Ainda há muito a decifrar, dilemas para resolver. A realidade está em constante movimento, novas descobertas e teorias científicas modificam os paradigmas, as pessoas se adaptam aos novos tempos, produzindo novas perguntas para a Psicologia ou reformulando as antigas.

Além disso, visto que a Psicologia investiga como as crenças e valores se desenvolvem, ela pode demonstrar que determinadas crenças e valores são mais produtivas do que outras e/ou estão mais de acordo com as atuais evidências científicas. Mas em certos assuntos a Psicologia NÃO pode nos dizer no que devemos acreditar e o que devemos valorizar, pois se tratam de decisões pessoais pelas quais cada um é responsável. Neste aspecto os próprios psicólogos são heterogênicos: possuem em suas vidas particulares as mais diversas crenças e valores em termos religiosos e filosóficos.


DEMARCAR E RESPEITAR OS CAMPOS

Mas alguns psicoterapeutas podem cometer o erro de combinar as técnicas e teorias da Psicologia com conceitos e procedimentos místicos, anticientíficos, como astrologia, numerologia, quiromancia, tarô e outras práticas adivinhatórias. Claro que eles têm o direito democrático de pessoalmente acreditar nestes conceitos. Mas também possuem responsabilidades com a ética profissional. Uma opção poderia ser abrir um segundo consultório apenas para estas práticas e nem sequer deixar os clientes de seu consultório de psicoterapia ficar sabendo que eles acreditam nelas, muito menos praticá-las ali. Essas práticas são incompatíveis com a Psicologia, pois vão contra os métodos e princípios científicos e contra a visão da pessoa como ser autônomo (seja qual for o termo equivalente à “autonomia” que a abordagem específica utilize).

Não se trata de preconceito contra essas crenças e práticas. As pessoas desenvolveram muitos paradigmas sobre como explicar o mundo, resolver problemas e buscar a felicidade. As crenças particulares de outros podem nos parecer absurdas, mas as nossas crenças pessoais também parecem absurdas para eles. Assim, dentro dos parâmetros democráticos de liberdade responsável, deve haver tolerância e respeito mútuos às diferenças. Porém, é necessário demarcar os campos, determinando o que é e o que não é Psicologia e praticando e ensinando apenas esta no exercício da profissão, seja no consultório, na sala de aula, no treinamento empresarial ou onde for.

Esses saberes não estão no campo da Psicologia, mas podem se tornar seu objeto de estudo. É possível estudar cientificamente as práticas místicas e descobrir o que elas têm de eficiente de acordo com os critérios científicos para então aplicar esses fatores de forma consciente. Por exemplo, podemos aprender sobre como o poder da comunicação é capaz influir na percepção que o receptor tem de si mesmo, de suas circunstâncias e da vida e como essa alteração pode modificar seu comportamento e os resultados que obtém. Estudando comunicadores eficazes de todos os tipos, podemos descobrir o que torna a comunicação mais eficaz para utilizar esses ingredientes com ética. Mas esse procedimento é muito diferente do erro de misturar a psicoterapia com conceitos e práticas místicos, adivinhatórios, um erro passível de punição pelo Conselho Regional de Psicologia.

Por outro lado, assim como o psicólogo não deve misturar misticismo com psicologia, se ele for agnóstico ou ateu, ou segue alguma ideologia política, não deve utilizar seu trabalho com psicologia para promover essas crenças. Seria o mesmo erro com outro conteúdo. O que nos leva ao próximo tópico.


CONCLUSÃO

As pessoas têm o direito de oferecer e de buscar ajuda de fontes sem comprovação científica. Os cientistas não sabem tudo sobre a psique humana, a vida e o mundo. Por exemplo, embora os cientistas ainda não tenham decifrado o funcionamento da acupuntura, comprovando-a ou refutando-a, ela (1) aparentemente funciona e (2) não é baseada em conceitos anticientíficos e sim em preceitos da filosofia oriental que fazem sentido.

Porém, muitas crenças e práticas populares são claramente anticientíficas e prejudiciais em diversos sentidos. Mas ainda assim, segui-las dentro dos parâmetros democráticos é uma escolha pessoal. Entretanto, respeitar sinceramente o direito das pessoas de optar por essas crenças NÃO quer dizer que não podemos divulgar as crenças e práticas que consideramos apropriadas, (o que inclui explicar porque rejeitamos as crenças alternativas que outros preferem). Podemos discordar com respeito, até mesmo ativamente.

Os psicólogos devem democraticamente respeitar a autonomia das pessoas; mas como promotores da saúde mental, podem e devem ajudá-las a aprender a pensar com qualidade, de modo que elas mesmas aprimorem seus sistemas de crenças e valores de acordo com fatos e princípios.

Assim, por um lado não devemos misturar a Psicologia com práticas místicas, mas por outro lado nossa mente (assim como um pára-quedas) precisa abrir-se no momento certo e da forma certa. Precisamos equilibrar (1) a curiosidade, o deslumbramento pelos enigmas, o entusiasmo por descobrir, aprender e acreditar com (2) o ceticismo saudável, a dúvida metódica, o errar para o lado da segurança em questões importantes. Em nossa vida particular e profissional, precisamos aprender, utilizar e divulgar a mentalidade científica, mas sem confundir ciência com cientificismo.

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