sábado, 1 de outubro de 2011

Psicologia: Ciência x Senso Comum

 
Todos nós, no nosso cotidiano, realizamos muitas tarefas (a maioria rotineiras) e temos muitos pensamentos, sucessivos e simultâneos, realizamos muitos comportamentos automáticos, sem pararmos para refletir e sem investigar a validade de nossas crenças e pressupostos.
  
Atravessamos a rua calculando intuitivamente a velocidade dos carros, preparamos alimentos sem conhecer os processos químicos e termodinâmicos envolvidos, utilizamos aparelhos eletrônicos sem saber como seus mecanismos funcionam, esperamos que objetos pesados rumem para o chão se forem soltos ou jogados, tomamos um chá que sempre ouvimos dizer que ajuda a tratar certo problema de saúde e assim por diante.

Sem esse conhecimento acumulado e aprendido informalmente (por experiência própria e/ou repassado por outras pessoas), se tudo tivesse que ser aprendido por estudo formal e executado conscientemente, se cada nova situação e ação tivesse que ser minuciosamente estudada antes de prosseguirmos, a nossa vida seria muito mais complexa, até mesmo inviável. Esse conhecimento acumulado é o senso comum.

O senso comum (ou "sabedoria popular") é uma teoria, uma visão do mundo, uma cosmovisão. Cada pessoa possui sua própria versão particular dessa visão do mundo, mas que tem pontos em comum com o que a maior parte das pessoas pensa. O senso comum possui elementos da ciência moderna, da filosofia, da religião, da arte, mas também da pseudociência e da superstição, tudo misturado, indistinto e supersimplificado.

Assim, a sabedoria popular mistura fatos comprovados com meias-verdades e lendas. Utiliza termos e conceitos oriundos das ciências (inclusive da Psicologia), mas de forma precária e mal-definida. As pessoas podem pensar que estão aprendendo e ensinando ciência, inclusive Psicologia, mas na realidade estão aprendendo e ensinando senso comum.

O ser humano sempre organizou seu conhecimento acumulado para poder utilizá-lo de forma prática e transmiti-lo às gerações seguintes. Os povos antigos realizaram grandes proezas intelectuais em projetos arquitetônicos, agrários, navais, militares, administrativos, etc., através de seus conhecimentos de aritmética, geometria, astronomia, mecânica e outros ramos do saber. Além desses conhecimentos técnicos, os povos antigos elaboraram complexos conjuntos de crenças e valores que teorizavam sobre a origem e significado do mundo e de seus componentes e sobre como deviam levar a vida. Essas teorias são o que chamamos de “filosofia” e de “religião”. Por fim, para expressar seus sentimentos, o ser humano sempre utilizou as diversas formas de “arte”.

A filosofia, a religião e a arte sempre acompanharam o ser humano. Porém, a ciência moderna só surgiu a partir do século XVI. Os povos antigos desenvolveram tecnologias (do grego “conhecimento das artes”, para eles o saber como fabricar um utensílio engenhoso era tão artístico quanto saber fazer uma escultura). E a "filosofia naturalista" especulava sobre o funcionamento da Natureza através de suas duas linhas concorrentes, o "empirismo" e o "racionalismo". Mas ainda não existia a ciência moderna como temos hoje, com todo o seu rigor metodológico. Antes havia apenas o que poderíamos chamar de uma "protociência".

A ciência moderna é um conjunto de conhecimentos sobre aspectos da realidade (objetos de estudo) expressos por uma linguagem exata e rigorosa e obtidos através de métodos sistemáticos específicos (o “método científico”). Esse rigor na metodologia para obter informações e na linguagem para expressá-las possibilita a outros pesquisadores entenderem exatamente o que um enunciador quis dizer quiser e utilizar as informações eficazmente. Também permite que se possa verificar a validade factual e lógica de uma tese reproduzindo as experiências e processos que levaram a ela. Desta forma os conhecimentos científicos podem ser produzidos, reproduzidos, verificados, confirmados ou ajustados ou refutados conforme o caso, transmitidos, utilizados e desenvolvidos com fidelidade em um processo contínuo de crescimento e aprimoramento: a partir dos acervos atuais são feitas novas pesquisas que ampliam, refinam, retificam ou mesmo modificam as teorias, que servem de guias para novas pesquisas. Assim a ciência avança produzindo novas tecnologias que permitem mais avanços científicos e assim por diante. E conforme indicado, outra característica da ciência é a busca da objetividade: suas conclusões devem ser verificáveis e isentas de interferência das emoções e preferências pessoais.

A busca da objetividade, a linguagem rigorosa, as metodologias sistemáticas, dúvida metódica, os resultados verificáveis e o processo contínuo de acumulação de informações e de autocorreção das teorias fazem com que o conhecimento científico se diferencie muito do conhecimento subjetivo e aleatório do senso comum ou sabedoria popular.

Mas uma ressalva importante é aprender a diferenciar a ciência dos cientistas. A ciência em si é maravilhosa e possui todos os atributos supracitados. Porém os cientistas são humanos normais, com todas as limitações que as pessoas em geral possuem. Portanto, temos que valorizar a ciência, mas não idealizar os cientistas como seres sobrehumanos.

Porém, dizer que a ciência é diferente do senso comum não quer dizer que a sabedoria popular seja intrinsecamente ruim e deva ser descartada (o que seria impossível de se fazer). O senso comum ou sabedoria popular torna-se prejudicial quando é impregnado pelo obscurantismo. Não podemos viver sem o senso comum e ele pode ser muito útil. O "X" da questão é que devemos aprender o que é ciência e como ela funciona justamente para colocar mais pensamento científico no nosso senso comum a fim de torná-lo o melhor possível. Assim nosso "senso comum" torna-se um genuíno "bom senso".


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