Vygotsky foi um pesquisador do desenvolvimento intelectual das crianças em função das interações sociais e condições de vida. Sua obra tornou-se conhecida muito depois de sua morte em 1934, com apenas 37 anos. O pensamento de Vygotsky tem três pilares básicos:
1- As funções psicológicas possuem suporte biológico, pois são produto da atividade cerebral e fisiológica;
2- O funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais do indivíduo com o mundo exterior, as quais se desenvolvem em um processo histórico;
3- A relação do ser humano com o mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos.
O desenvolvimento de qualquer pessoa depende primeiramente dos limites e possibilidades que todos nós compartilhamos como seres humanos. Sobre este alicerce, cada pessoa nasce e vive dentro de um contexto sócio-cultural e de uma época, além de com uma carga genética peculiar. Estes dois fatores também impõem limites e proporcionam possibilidades. E cada indivíduo possui sua própria história pessoal.
O ser humano nasce um ser biológico e se transforma em um ser social e histórico através de sua inserção no processo cultural. Essa transformação é um processo que faz com que a cultura seja parte essencial da constituição da natureza humana.
O cérebro é a base biológica do funcionamento psicológico. É um sistema aberto de grande plasticidade: sua estrutura e funcionamento são moldados ao longo da história individual. O ser humano possui capacidades mentais superiores como pensar em objetos ausentes e até inexistentes, imaginar eventos nunca ocorridos, planejar ações futuras e realizá-las.
A “mediação” é o processo de intervenção de um elemento intermediário em uma relação. Portanto, a relação entre os estímulos e as respostas do ser humano não é imediata como nos outros seres vivos (S=>R), mas mediada por esse elemento intermediário (S<=>X<=>R). Existem dois tipos de elementos mediadores. Os instrumentos são elementos mediadores externos ao indivíduo, voltados para fora dele e se encontram entre a atividade e o objeto de sua atividade. São objetos sociais e mediados entre o indivíduo e o mundo, ampliando as possibilidades de transformação do ambiente. Os signos são elementos mediadores internos ao indivíduo, orientados para dentro dele, ferramentas que auxiliam nos processos psicológicos. São elementos que representam ou expressam outros objetos, eventos ou situações. Os signos possibilitam a comunicação e o aprimoramento da interação social, pois são significados do grupo.
Durante o desenvolvimento do indivíduo ocorrem duas mudanças no uso de signos que são essenciais para o desenvolvimento dos processos mentais superiores: (1) o processo de internalização e (2) a utilização dos sistemas simbólicos. As funções superiores são as ações conscientes como atenção voluntária, memória deliberada, pensamento abstrato, comportamento intencional e outras. Essas funções são tipicamente humanas, o ser humano (e somente ele) já nasce com uma estrutura biológica que permite desenvolvê-las. Mas como e até que ponto elas serão desenvolvidas de fato dependerá de sua inserção social.
LINGUAGEM E PENSAMENTO
A linguagem é o sistema básico de todos os grupos humanos. O desenvolvimento da linguagem e suas relações com o pensamento são o eixo da obra de Vygotysk.
Segundo ele, a linguagem possui duas funções básicas: (1) intercâmbio social, pois a necessidade de comunicação com os outros impulsiona o desenvolvimento da linguagem e (2) o pensamento generalizante, que torna a linguagem um instrumento do pensamento que fornece os conceitos e as formas de organização da realidade que constituem o processo de mediação entre o indivíduo e o objeto do conhecimento.
O pensamento e a linguagem possuem origens diferentes, mas desenvolvem-se de forma interdependente e em certos momentos suas trajetórias se unem: o pensamento se torna verbal e a linguagem se torna racional. Essa associação entre pensamento e linguagem ocorre pela necessidade de comunicação entre os indivíduos nas suas atividades conjuntas.
O desenvolvimento do pensamento verbal é um processo gradual determinado pela experiência sócio cultural do indivíduo. O que aproxima o pensamento da linguagem é o significado, pois ele é compartilhado por todos os membros de uma cultura. Porém, as nuances de sentido atribuídas por cada pessoa demonstra as diferenças individuais.
Desta forma Vygotysk distingue dois componentes do significado da palavra: (1) o significado propriamente dito, atribuído e compartilhado por todos os que a utilizam e (2) o sentido, o significado particular que a palavra tem para o indivíduo de acordo com suas influências e vivências.
Durante o processo de aquisição da linguagem da criança os significados sofrem transformações: o sistema de relações e generalizações contidos em uma palavra mudam ao longo de seu desenvolvimento. Ao tomar posse da linguagem, a criança passa a ser capaz de utilizá-la como instrumento de comunicação e pensamento. De acordo com Vygotysk, é um processo que ocorre de fora para dentro.
APRENDIZAGEM
O desenvolvimento é inicialmente definido pela maturação do organismo, mas a aprendizagem impulsiona e maximiza esses processos internos de forma que não ocorreria sem a interação do indivíduo com o meio. O desenvolvimento pode ser prejudicado pela falta de condições propícias ao aprendizado. Assim, o amadurecimento (que ocorre de dentro para fora) e o aprendizado (que ocorre de fora para dentro) são dois processos interdependentes desde o início da vida de cada ser humano.
Assim, as pessoas que convivem com o indivíduo são muito importantes para o desenvolvimento deste. Ele elaborou o conceito de “zona de desenvolvimento potencial” (ou “proximal”, conforme a tradução. O desenvolvimento da pessoa atingirá algum ponto entre o nível real e potencial.
O “nível de desenvolvimento real” refere-se às etapas de desenvolvimento já alcançadas pela criança, sua capacidade de realizar tarefas sem auxílio especial. É o estágio atual. O “nível de desenvolvimento potencial” refere-se à capacidade de desempenhar tarefas com o auxílio de outros. Porém, antes de certos estágios de amadurecimento a criança é incapaz de desempenhar determinadas tarefas, nem mesmo com o auxílio de outros. Portanto, é necessário considerar não apenas as etapas já alcançadas pela criança, mas também as etapas posteriores que requererão a interferência construtiva de outros para que se processem plenamente. As interações sociais influem no desenvolvimento da criança.
Assim, pais, professores e outros adultos devem antever quais serão as próximas etapas de desenvolvimento da criança a fim de contribuir ativamente para possibilitar que este progresso ocorra de forma plena, equilibrada e saudável. O desenvolvimento deve ser visto de forma prospectiva. É um erro olhar apenas para o momento presente. Os adultos devem focar o caminho que a criança ainda tem para percorrer, facilitando e promovendo ativamente os próximos passos.
Os processos de aprendizagem que o ambiente proporciona movimentam os processos internos de desenvolvimento. O progresso do ser humano ocorre de fora para dentro através da internalização de processos intersubjetivos definidos culturalmente. Os membros mais antigos de um grupo social desempenham um papel fundamental na mediação (e depois na interação) entre o indivíduo novato e a cultura e na integração da cultura no modo de pensar dele. As ações da pessoa são interpretadas e avaliadas pelos outros membros do grupo, o que permite ao indivíduo assimilar as crenças e valores desta comunidade e aprender a interpretar suas próprias ações e a de terceiros de acordo com os parâmetros culturais deste grupo e assim se tornar plenamente parte dele.
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