quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Diferenças entre um Amigo e um Psicoterapeuta


Todos nós precisamos de amizades e um bom amigo pode nos ajudar muito a superar uma dificuldade. Então a pessoa que tem amigos com os quais pode desabafar tende a não ver necessidade de psicoterapia no seu próprio caso. O pressuposto é que psicoterapia é somente para quem não tem um relacionamento de confiança onde pode encontrar compreensão e apoio.

Mas fazer psicoterapia, embora tenha muitas semelhanças, é bem diferente de conversar com um amigo, por melhor que este amigo seja. Ter um relacionamento psicoterapêutico é diferente até mesmo de se ter um amigo achegado que é psicoterapeuta. Tanto é que psicoterapeutas não costumam ministrar terapia para amigos, parentes, colegas de trabalho ou escola e outros conhecidos justamente para preservar esses diferenciais.

Vamos observar quatro dessas diferenças-chave.


(1) FUNDAMENTO CIENTÍFICO E FILOSÓFICO

Um amigo típico baseia-se no senso comum, que é o conhecimento geral que as pessoas adquirem de diversas fontes no decorrer da vida e sem metodologia rigorosa. O senso comum possui verdades, mas também meias-verdades e lendas, tudo misturado e indistinto.

Um psicoterapeuta baseia-se em uma teoria científica, com conceitos e técnicas comprovados. Também estudou os ensinamentos de grandes pensadores da Humanidade. Portanto, embora não saiba tudo nem seja infalível e embora levante hipóteses para serem consideradas em conjunto com a pessoa, um bom psicoterapeuta sabe do que está falando quando apresenta seus comentários de uma forma que poucos amigos podem.


(2) ATITUDE EQUÂNIME

Um amigo é emocionalmente envolvido com você e provavelmente pensa de forma parecida com a sua. Provavelmente ele raciocina como você e chega às mesmas conclusões sobre um assunto, fica com raiva do que irritou você, triste com o que o entristeceu e assim por diante. E também é provável que ele se deixe levar por essas emoções. Deste modo, as palavras de um amigo podem reforçar o seu modo de pensar e agir, em vez de ajudar você a ver os assuntos por outras perspectivas mais eficazes.

Um bom psicoterapeuta se importa com você, mas mantém uma distância profissional necessária para lhe ajudar a mudar seu modo de pensar e agir nos pontos necessários. É um profissional da saúde, como um médico ou enfermeiro. É justamente para poder ajudar as pessoas que o médico precisa manter uma atitude equânime mesmo diante de uma emergência: se ele entrasse em choque ao ver alguém acidentado, não poderia ajudá-lo. O mesmo ocorre com um psicoterapeuta em relação a quem atende. Ele se importa, mas mantém a equanimidade necessária para ajudá-lo a adquirir outras perspectivas e novos modos de pensar e agir.


(3) FOCO TOTAL EM VOCÊ

Às vezes, quando você está se abrindo para um amigo, ele o interrompe e começa a falar das experiências e dos sentimentos dele. Ou então talvez ele não perceba que você está expondo pensamentos e sentimentos e muda completamente de assunto. É natural que isso ocorra nas nossas conversas cotidianas, mas pode ser frustrante quando acontece justo nos momentos em que mais queremos ser ouvidos.

Um bom psicoterapeuta vai falar pouco dele próprio, pois ele está ali para ouvir você falar de si mesmo e para interpretar e comentar o que você disse. Para quem nunca fez psicoterapia, essa unilateralidade parece estranha no começo, mas é exatamente isso: você sentar-se diante de um profissional qualificado para expor os seus pensamentos e sentimentos e estes serem processados pela linha psicológica que ele segue, o que lhe ajudará a adotar novas formas de pensar e agir. Embora seja amigável, não é uma conversa entre amigos, é uma relação psicoterapêutica.

Há boas razões para o psicoterapeuta ser moderado quanto ao que fala sobre si próprio. A primeira é a ética profissional: ele está exercendo o seu trabalho, que é ouvir o consulente falar de si mesmo.

Outra razão é que alguns consulentes podem tomar o psicoterapeuta como padrão para suas decisões pessoais ("Meu psicólogo fez X, vou fazer X também" ou "Meu psicólogo faz Y, porque eu não posso fazer?"). Ninguém é padrão para ninguém, não devemos fazer algo só porque certa pessoa faz ou fez. Cada um deve aprender a tomar suas próprias decisões. Mas alguns consulentes ainda não têm essa maturidade.

Por fim, alguns consulentes podem ficar constrangidos por saberem aspectos particulares do psicoterapeuta, como se ele tem filhos, opção religiosa, passatempos, problemas pessoais e assim por diante. Esperam que  o psicoterapeuta seja idêntico a eles em certos aspectos-chave e que ele leve uma vida perfeita, sem problemas nem frustrações. Então, caso saibam de fatos pessoais  dele, podem não se expressar abertamente ou até mesmo desistir da terapia. Esses aspectos em nada interferem no trabalho de um bom psicoterapeuta. E caso ele não se sinta apto para tratar certa pessoa, pode encaminhá-la para outro profissional. Porém, grande parte dos consulentes simplesmente não possui essa compreensão.

Portanto, para exercer devidamente seu trabalho e para evitar que você o imite ou fique constrangido, o psicoterapeuta manterá o foco em você.


(4) CONSELHOS, NÃO! ORIENTAÇÃO!

Um amigo pode aconselhar você a fazer o que ele próprio faria em uma situação parecida, o que muitas vezes não se aplica no seu caso. Por exemplo, se você é solteiro, talvez um amigo tente lhe convencer que casar-se é a chave da felicidade (e talvez até o incentive a se relacionar com certa pessoa). Enquanto isso, outro amigo pode lhe advertir contra a armadilha terrível que é o casamento. Como a maioria das pessoas, esses dois amigos tomam suas próprias experiências, sentimentos e desejos como padrão que todos devem seguir. Nos conselhos que lhes dão, eles não estão realmente falando de você, mas deles próprios.

Também pode acontecer de um amigo não conseguir compreender você pelo fato de, apesar de terem muitos pontos em comum, ambos serem muito diferentes em certos aspectos, como temperamento e formação familiar.

Um bom psicoterapeuta não vai lhe dar “conselhos” e sim orientação psicológica: vai utilizar os instrumentos da psicologia para ajudar você mesmo a reorganizar os seus pensamentos e tomar suas próprias decisões. E o conhecimento do Ser Humano, somado ao desejo sincero de compreender e ajudar, permite ao psicoterapeuta exercer empatia mesmo nos pontos em que vocês dois são muito diferentes.

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