sábado, 1 de dezembro de 2012

Pesquisas de Desenvolvimento

 
Uma questão fundamental para as teorias do desenvolvimento é: as mudanças no decorrer da vida são quantitativas ou qualitativas? Um garotinho de dois anos provavelmente não tem amigos individuais entre seus colegas de brincadeiras, mas um garoto de oito anos em geral tem diversos amigos. Essa mudança é quantitativa (aumentou o número de amigos) ou é qualitativa (mudou a forma de relacionar-se)?

Outra questão importante é se o desenvolvimento se dá por estágios ou sem estágios. Se o desenvolvimento ocorre apenas por adições (mudanças quantitativas), o conceito de “estágios” é desnecessário. Porém, se o desenvolvimento envolve a reorganização de antigas habilidades e/ou o surgimento de estratégias totalmente novas para o indivíduo (mudanças qualitativas), o conceito de “estágios” faz sentido. Tanto especialistas quanto estudiosos usam termos que aludem a etapas de desenvolvimento.
   
Entretanto, até que ponto o desenvolvimento por períodos de vida realmente progride por estágios? Com certeza podemos delimitar a vida em estratos etários. Mas a existência de etapas não requer necessariamente a existência de diferenças qualitativas entre elas. O modo de pensar e agir de um garoto de 10 anos é qualitativamente muito diverso do modo de um jovem de 20 anos. Mas a diferença qualitativa no modo de pensar de uma pessoa de 20 anos e outra de 40 anos não é tão grande assim.
    
Quais são os métodos utilizados pelos teóricos do desenvolvimento para procurar respostas para as questões que surgem e confirmar as hipóteses apresentadas? Por exemplo, digamos que uma equipe queira descobrir se a memória realmente se reduz com a idade. Eles teriam que tomar três decisões principais sobre sua pesquisa:
    
  • Projeto de Pesquisa: Devem comparar grupos de idades diferentes? Ou devem acompanhar um mesmo grupo por anos para analisar o que acontece com eles?
  • Metodologia de Pesquisa: Como vão definir e mensurar a “memória”?
  • Análise de Pesquisa: Como devem interpretar os dados coletados?
     
PROJETOS DE PESQUISA
    
A escolha do tipo de projeto é muito importante, em especial se a equipe está estudando a mudança ou continuidade que ocorre com o passar dos anos. No estudo de qualquer aspecto do desenvolvimento, três tipos principais de projetos de pesquisa são possíveis:
    
(1) Projetos por Seção Cruzada, em que grupos etários separados são, cada um, testados uma vez, simultaneamente. Por exemplo, um grupo de pessoas de 25 anos, outro de 35 anos e assim por diante até chegarmos ao último, de 85 anos. É um tipo de pesquisa comparativamente rápido. Porém, um dos cuidados é lembrar que esses grupos diferem não apenas em faixa etária, mas também em geração, o que tem muitas implicações. Além disso, esse tipo de pesquisa revela pouco sobre como o desenvolvimento se procede. E nada garante a consistência, que as pessoas de um grupo estudado foram ou serão como outro.
     
(2) Projetos Longitudinais, em que os mesmos indivíduos são testados várias vezes no decorrer do tempo. Esse tipo de estudo pode durar anos ou décadas e parece resolver os problemas dos projetos por seção cruzada. Porém, um problema é que ocorre desgaste seletivo do projeto. Alguns dos participantes estudados desistem ou não são mais localizados. E alguns morrem, em geral os menos saudáveis e de menor escolaridade, tornando a pesquisa tendenciosa. Outro problema é que os projetos longitudinais não contornam de fato o problema da geração, pois em parte a pesquisa é sobre o desenvolvimento daquele grupo específico de pessoas.
    
(3) Projetos Sequenciais, que oferecem combinações dos dois primeiros. Envolvem o estudo de mais de um subgrupo geracional através do tempo. Esses grupos, colocados em uma tabela, formam colunas horizontais (referentes às idades em um mesmo ano, como 25 ou 35 anos em 1990) e colunas verticais (referentes à época em que cada grupo nasceu, como 1955 ou 1965). A pesquisa longitudinal ou sequencial é necessária para o estudo de sequências de desenvolvimento ou da consistência através do tempo.
     
Para que hipóteses específicas sejam testadas, também são possíveis projetos experimentais em que os sujeitos são designados de forma aleatória a um grupo experimental para receber determinado tratamento e outros sujeitos são designados para um grupo de controle que não recebe o tratamento. O efeito causal no experimento (como um treino ou alimentação diferenciada para fortalecer a memória) é chamado de “variável independente” e o resultado esperado de “variável dependente” (neste caso, o aumento do escore de memória).
 
No entanto, há limitações éticas e lógicas quanto ao uso de projetos experimentais em estudos do desenvolvimento. Há uma série de experimentos chamados “quase-experimentos” para contornar essas limitações, como as comparações por seção cruzada.
    
   
MÉTODOS DE PESQUISA
    
Um aspecto fundamental do método de pesquisa de desenvolvimento humano é a escolha dos sujeitos, que pode causar um efeito importante sobre a capacidade de generalização dos resultados de qualquer um dos estudos. Essa escolha tem que ser representativa da população, mas não pode ser grande demais. Deve ter o consentimento das pessoas, respeitar o sigilo das informações obtidas e outros princípios de ética. Os dados podem ser obtidos em testes laboratoriais, no ambiente natural das pessoas ou em algum tipo de meio-termo.
   
     
ANÁLISE DE PESQUISA
     
Os dados obtidos podem ser analisados de duas formas principais. Uma estratégia é comparar os escores médios de grupos de diferentes faixas etárias em determinado assunto medido (ou os escores de subgrupos da mesma faixa etária).
    
Outra estratégia é olhar as relações entre duas variáveis separadas utilizando-se um cálculo estatístico chamado “correlação”. Trata-se de um número que varia de -1,00 até +1,00 e que descreve a força de uma relação entre duas variáveis. Uma correlação 0,00 indica não haver relação linear entre as variáveis. Por exemplo, não há correlação significativa entre o tamanho do pé e o escore do quociente intelectual. A correlação entre as duas variáveis é proporcionalmente mais forte quanto mais próxima for de 1,00. A correlação entre o tamanho do pé e o número do calçado é muito alta: quanto maiores os pés, em geral maiores são os calçados. E a correlação é inversamente proporcional quando é negativa. Por exemplo, a correlação entre quociente intelectual e desestruturação familiar, pobreza e analfabetismo é muito alta, mas negativa.
   
Entretanto, uma correlação pode ser mal-interpretada. Mesmo que haja correlação entre dois fatores (A e B), isso não significa necessariamente que A causou B, nem que B causou A. Talvez ambos tenham sido causados por um terceiro fator (C). Ou pode ser que A, B e C façam parte de um ciclo sistêmico de reforço mútuo. Por exemplo, existe uma correlação positiva entre o temperamento de uma criança e a quantidade de punições que ela recebe: crianças de temperamento mais “difícil” recebem mais punições. Mas será que o temperamento gera as punições ou será que as punições geram o temperamento? E a constituição genética da criança e dos pais? E os fatores ambientais em que a família vive? Em resumo, correlações podem indicar a existência de elos, mas não podem esclarecer sozinhas quais são as causas e consequências.
     
Pode parecer que informações sobre projetos de pesquisa têm valor apenas para pesquisadores profissionais. Mas na verdade há aplicações práticas para todos nós, mesmo os leigos. Imagine que você está lendo ou assistindo a publicidade de um produto para aumentar o escore de quociente intelectual de crianças. Nesta publicidade informa-se que uma pesquisa demonstrou que crianças de certa faixa etária que utilizaram o produto apresentaram escores de QI 25% acima da média nacional. As informações já apresentadas mostram porque esse resultado é irrelevante.
    
Diariamente recebemos publicidades e opiniões, muitas citando pesquisas para confirmar o que dizem. O conhecimento sobre como as pesquisas funcionam nos ajudam a diferenciar pesquisas válidas das inválidas e a verificar se a pesquisa citada realmente diz o que dizem que ela diz. Isso para não falar das pesquisas simplesmente inventadas (“Está cientificamente provado que...”). Saber sobre como as pesquisas válidas são feitas e interpretadas nos ajuda a termos um bom senso crítico.
  
   
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