terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ansiedade Excessiva (2/5): O Poder do Pensamento Equivocado

 
Muitos gostam de citar a Lei de Murphy: “Se houver a menor possibilidade de algo dar errado, dará”. Claro que problemas sempre podem ocorrer e alguns ocorrem de fato. A disfunção do ansioso obsessivo é que ele não se contenta com tomar medidas preventivas razoáveis. Em vez disso, ele fica angustiado até mesmo com possibilidades muito remotas de algo dar errado. Na percepção dele, o muito implausível é altamente provável. Como um roteirista de filmes de suspense, fica continuamente imaginando perigos ocultos e tragédias iminentes em sua vida e sofrendo antecipadamente.

Porém, a realidade estatística é que acontecimentos ruins ocorrem com menor frequência do que os ansiosos obsessivos e pessimistas crônicos imaginam. E quando de fato ocorrem, costumam ser muito menos graves e difíceis de lidar do que eles receavam. Portanto, para ser mais razoável, a Lei de Murphy deveria ser expressa assim:

“Se houver a menor possibilidade de algo dar errado, talvez dê errado mesmo – em um conjunto de determinadas condições e ainda assim as pessoas em geral são capazes de resolver o problema”
     
  
Essa versão pode não ter o mesmo impacto, mas é mais acurada e produtiva.
  
  
PREMISSAS EQUIVOCADAS

O pensamento hipotético quase sempre se baseia em premissas equivocadas que usamos como alicerce para construir uma torre de medo. É o caso do professor de biologia que beijou uma colega em uma festa e depois ficou superpreocupado, especulando se ela teria ficado grávida: a preocupação era absurda, pois foi apenas um beijo e ela fez histerectomia tempos antes. É incrível um professor de biologia ficar angustiado com esse medo. Mas os erros de pensamento ocorrem quando nosso senso crítico se desliga e esquecemos tudo o que sabemos. Ele vai recuperar o raciocínio e perceber com espanto a sua tolice. Mas só depois de um período de angústia.

É claro que nem todas as preocupações dos ansiosos crônicos são tão obviamente absurdas, eles também se preocupam com eventos de maior probabilidade de ocorrer de fato e estes eventos merecem alguma consideração. O problema é que os ansiosos crônicos não sabem diferenciar o que é fato conhecido do que é especulação, avaliar objetivamente as probabilidades, tomar as medidas possíveis e se acalmarem; em vez disso, entram em um turbilhão de emoções. Para uma premissa ser absurda, ela não precisa ser impossível, basta ser muito improvável.

Um homem se interessou em enviar um currículo para uma nova empresa da região, mas não o fez. Primeiro, ficou com medo de não ser convocado. Essa possibilidade é bem real, pois deve haver muitos candidatos. Porém, não enviar o currículo reduziu suas chances de contratação para zero. Segundo, ele ficou preocupado com a possibilidade de enviar o currículo para a outra empresa, seu gerente ficar sabendo e o demitir. Essa possibilidade não é absolutamente impossível, mas é extremamente improvável.
   
  
RACIOCÍNIO EQUIVOCADO

É importante reconhecer o quanto o pensamento especulativo é seletivo, pois nos preocupamos com apenas alguns dos inúmeros perigos hipotéticos que podemos imaginar. O exemplo clássico é o de pessoas que se recusam a viajar de avião porque ficam aterrorizadas com o medo de um desastre, mas viajam tranquilamente de carro, apesar das estatísticas mostrarem que o transporte aéreo é mais seguro do que o transporte rodoviário. Essas pessoas podem até saber disso, mas continuam preferindo a estrada.

Alguns se preocupam tanto com a possibilidade de ocorrer problemas se saírem de casa que desenvolvem agorafobia e ficam enclausurados dentro de sua própria residência, único local em que se sentem segurança (não importa se os lugares para onde poderiam ir são seguros, nem que em sua própria residência podem sofrer um acidente ou problema como uma intoxicação alimentar). Podem chegar ao ponto de necessitar de tratamento psiquiátrico para saírem dessa prisão autoimposta.

Existem pessoas que demonstram grande coragem em diversos ambientes desafiantes, mas travam em determinadas situações relativamente simples. É o caso do sujeito que trabalha como bombeiro e já arriscou a vida diversas vezes para salvar pessoas de incêndios, além de ter como hobby o paraquedismo, mas fica congelado de medo só de pensar em sua esposa ficar irritada com ele.
  
    
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