terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Luc Ferry: Ingredientes Filosóficos da Felicidade


Os antigos filósofos gregos refletiam sobre a “vida boa”, a vida com serenidade, que é diferente do conceito popular de “felicidade”. Para eles haviam três critérios para a “vida boa”: vencer o medo, viver o presente e compreender a morte.

O primeiro critério é a vitória sobre o medo. Quando temos medo, nos tornamos tolos e maldosos, pois sentimos um medo desproporcional de banalidades (como ratos e insetos) e nos ficamos egoístas, só pensamos em nós mesmos. Então, para atingirmos a “vida boa”, devemos primeiro vencer o medo, pois é isso que nos permite pensar livremente e sermos sábios, não pensar apenas em nós mesmos e nos abrirmos para os outros e amá-los.

A felicidade não existe. Temos momentos de alegria, mas não há um estado permanente de satisfação. Separações, morte de pessoas queridas, doenças e acidentes são inevitáveis. Por isso a busca pela felicidade plena não faz sentido. O que podemos almejar é a serenidade, algo completamente diferente. Só se atinge a serenidade vencendo o medo. É o medo que nos torna egoístas e nos paralisa, que nos impede de sorrir e de pensar de forma inteligente, com liberdade. Os filósofos gregos costumavam dizer que o sábio é aquele que consegue vencer o medo.

Existem basicamente três grandes medos. 

  • O primeiro é a timidez. Ele aparece, por exemplo, quando somos apresentados a alguém muito importante, ou quando precisamos falar em público. É a pressão da sociedade. 
  • O segundo medo são as fobias. Medo do escuro, de insetos, de animais, de ficar preso num elevador, etc. 
  • O terceiro é o medo da morte. Tememos mais a morte de pessoas que amamos do que a nossa própria. Não me refiro apenas à morte biológica, mas a tudo o que é irreversível. Para uma criança, pode ser o divórcio dos pais, já que nunca mais os verá juntos. O "nunca mais", a irreversibilidade da vida, nos dá a experiência da morte. 

A grande questão da serenidade, e não da felicidade, é como vencer esses medos. Toda a filosofia, desde Homero e Platão até Schopenhauer e Nietzsche está baseada na doutrina da serenidade.

O segundo critério é viver o presente. Os filósofos gregos perceberam dois perigos que pesam sobre nós e nos impedem de levar a “vida boa”: o passado e o futuro. São duas armadilhas, pois o passado NÃO é mais e o futuro ainda NÃO é, sendo assim negações. Mas mesmo assim passamos grande parte do tempo refletindo sobre eles, o que nos impede de habitar o presente, que é a única dimensão real do tempo.

Os filósofos gregos diziam que o sábio é aquele que consegue pensar menos no passado e ter menos esperança ilusória: “Quando eu fizer ou tiver X (me casar/separar/mudar de casa/trocar de emprego/etc.) eu vou ser feliz”. O passado já aconteceu. O futuro é uma ilusão.

O terceiro critério é compreender a morte. Os antigos gregos acreditavam que todo o Universo é semelhante a um organismo vivo e que esse mundo (cosmos) é perfeitamente harmonioso, belo, justo e bom. Acreditavam também que cada um de nós tem o seu lugar no Universo e que podemos encontrar um tipo de felicidade quando encontramos o nosso lugar.

O sábio é aquele que, tendo encontrado o seu lugar no Universo, compreende que ele próprio é um fragmento da eternidade e dos Cosmos e que neste sentido ele não morre. Os filósofos gregos acreditavam que a morte não representa nada para nós. A sabedoria é a reconciliação com o Cosmos. Para nós, essa reconciliação é com a Humanidade.

Assista o vídeo e leia a entrevista.


* * *

Um comentário:

  1. adorei o blog, há coisas super interessantes nele. Parabéns! A respeito dos primeiros filósofos, é verdade sobre os pensamentos descritos, infelizmente nossa forma de pensar e crenças, foram modificadas com o tempo, por omissão própria e por outros. Porem é sempre um que decide.

    ResponderExcluir

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: