sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Maus-Tratos contra Crianças (1/4)



A violência doméstica contra crianças é um problema secreto de muitos lares e raramente é debatido pelas pessoas. Porém, entre 01/01/1999 e 23/04/2008 o Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (SIPIA) registrou centenas de milhares de denúncias de violência contra crianças feitas por mães, pais, padrastos, funcionários de organizações de assistência social, avôs e avós, tios, irmãos e madrastas, nesta ordem decrescente de quantidade.



Ou seja: os maiores agressores das crianças são justamente aqueles que deviam ser seus maiores defensores. E o lar, que deveria ser seu abrigo mais seguro, é o principal local de desrespeito aos seus direitos. Calcula-se que apenas 10% das agressões são denunciadas. A maioria das denúncias ocorre nas regiões mais pobres, não necessariamente porque os pobres agridam mais as crianças, mas porque entre eles existe um maior conhecimento do que acontece nas casas vizinhas e uma maior disposição de denunciar. Nas classes médias e altas as pessoas não ficam sabendo ou fingem não saber.

A maior parte das vítimas tem até cinco anos de idade. Existem perfis mais vulneráveis, como crianças com deficiências. Estas são agredidas em especial quando as famílias têm pouco suporte social, pois demandam mais cuidados e geram maiores frustrações.

Também são alvos especiais de maus tratos: (1) crianças não aceitas desde a gravidez, (2) crianças que possuem características físicas diferentes das dos pais, (3) crianças com capacidade intelectual distinta da dos pais, (4) crianças adotadas ou sob guarda por imposição, (5) crianças que nasceram prematuras e/ou ficaram hospitalizadas por grandes períodos, prejudicando o desenvolvimento do vínculo entre mãe e filho.

As crianças maltratadas também apresentam dificuldade para ganhar peso e podem ter transtornos de aprendizagem. Um estudo mostrou que crianças de cinco anos vítimas de maus-tratos sofreram atraso no desenvolvimento da capacidade de comunicação em comparação com crianças não-vítimas da mesma idade, apresentando linguagem menos complexa, menor conhecimento e menor vocabulário. Uma das causas desse atraso é o fato das mães conversarem menos com seus filhos.

Outra conseqüência típica de maus-tratos é a influência no comportamento da criança. A reação varia conforme diversos fatores como a personalidade da criança, o tipo de abuso e o apoio de parentes não-agressores. Algumas internalizam os sentimentos, tornam-se apáticas, assustadas, introspectivas, não se relacionam com os colegas. Outras externalizam os conflitos, repetindo o que acontece com elas, mas fazendo o papel de agressores. Por exemplo, se elas sofrem agressões físicas, podem agredir colegas, irmãos, pais e até o profissional de saúde.

No caso de abuso sexual, verifica-se uma exacerbação do comportamento erótico. Pode ocorrer masturbação compulsiva ou sexualidade precoce. Essas crianças não tiveram desenvolvimento sexual adequado nem aprenderam os limites de seu corpo, a mensagem que receberam foi que sua função é servir de objeto de prazer. A vítima sente uma dor que não reconhece e angustiada busca algo sem saber o que é.

O perfil do abusador também varia conforme o abuso. A maior parte dos casos de negligência e agressão psicológica é praticada pelas mães. Já os homens são a maioria dos autores das lesões físicas mais graves e dos abusos sexuais. Os meninos são maioria das vítimas de violência física grave e as meninas são maioria das vítimas de abuso sexual, mas tanto meninos quanto meninas podem ser vítimas de ambos os tipos de maus-tratos. A violência psicológica é mais difícil de ser identificada por não deixar marcas visíveis como a violência física.

Alguns agressores têm distúrbios de personalidade graves. São sádicos, insensíveis, narcisistas, manipuladores e imprevisíveis. Não sentem remorso pelas agressões que cometem e mentem com facilidade. Procuram agredir suas vítimas fora da vista de outras pessoas, o que mostra que NÃO são doentes mentais. Nem sempre agridem fisicamente, alguns sentem prazer em torturar psicologicamente os alvos mais vulneráveis. O agressor pode ser homem ou mulher. São comuns casos em que o marido maltrata a esposa e a mulher desforra-se maltratando os filhos.

Como todo comportamento, a agressividade é um composto de fatores (1) biológicos, (2) ambientais, (3) culturais e (4) do histórico da pessoa com (5) algum grau de deliberação. Cada caso é um caso: uma pessoa em geral pacífica cometer um ato agressivo isolado (físico e/ou verbal) no calor de um momento é uma situação, uma pessoa praticar atos agressivos de modo contínuo por um longo período é outra situação.

Alguns pais foram criados na filosofia do “é proibido proibir”, sem limites razoáveis, podendo fazer tudo o que quisessem. O resultado é que cresceram com uma atitude narcisista, egoísta, sem empatia nem tolerância às frustrações. São física e intelectualmente adultos, mas emocionalmente são infantis. São regidos pela busca do prazer e vivem em um mudo idealizado onde fazem apenas o que gostam e esperam que os outros façam tudo o que eles quiserem.

Essa atitude é reforçada pela cultura consumista em que vivemos, que gera uma falsa identidade sem crescimento psíquico. E quando essas crianças em corpos adultos se tornam pais, não possuem condições psicológicas e existenciais de criar seus filhos e lhes transmitir uma mentalidade adulta que eles próprios não possuem. São tão infantis quanto seus filhos e rivalizam com eles, utilizando sua força maior para impor sua vontade como valentões da escola.
  

* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: