A violência doméstica contra crianças é um
problema secreto de muitos lares e raramente é debatido pelas pessoas. Porém, entre
01/01/1999 e 23/04/2008 o Sistema de Informação para a Infância e Adolescência
(SIPIA) registrou centenas de milhares de denúncias de violência contra
crianças feitas por mães, pais, padrastos, funcionários de organizações de
assistência social, avôs e avós, tios, irmãos e madrastas, nesta ordem decrescente
de quantidade.
Ou seja: os maiores agressores das crianças são
justamente aqueles que deviam ser seus maiores defensores. E o lar, que deveria
ser seu abrigo mais seguro, é o principal local de desrespeito aos seus
direitos. Calcula-se que apenas 10% das agressões são denunciadas. A maioria
das denúncias ocorre nas regiões mais pobres, não necessariamente porque os
pobres agridam mais as crianças, mas porque entre eles existe um maior
conhecimento do que acontece nas casas vizinhas e uma maior disposição de denunciar.
Nas classes médias e altas as pessoas não ficam sabendo ou fingem não saber.
A maior parte das vítimas tem até cinco anos de
idade. Existem perfis mais vulneráveis, como crianças com deficiências. Estas
são agredidas em especial quando as famílias têm pouco suporte social, pois
demandam mais cuidados e geram maiores frustrações.
Também são alvos especiais de maus tratos: (1)
crianças não aceitas desde a gravidez, (2) crianças que possuem características
físicas diferentes das dos pais, (3) crianças com capacidade intelectual
distinta da dos pais, (4) crianças adotadas ou sob guarda por imposição, (5)
crianças que nasceram prematuras e/ou ficaram hospitalizadas por grandes
períodos, prejudicando o desenvolvimento do vínculo entre mãe e filho.
As crianças maltratadas também apresentam
dificuldade para ganhar peso e podem ter transtornos de aprendizagem. Um estudo
mostrou que crianças de cinco anos vítimas de maus-tratos sofreram atraso no
desenvolvimento da capacidade de comunicação em comparação com crianças não-vítimas
da mesma idade, apresentando linguagem menos complexa, menor conhecimento e
menor vocabulário. Uma das causas desse atraso é o fato das mães conversarem
menos com seus filhos.
Outra conseqüência típica de maus-tratos é a
influência no comportamento da criança. A reação varia conforme diversos fatores
como a personalidade da criança, o tipo de abuso e o apoio de parentes
não-agressores. Algumas internalizam os sentimentos, tornam-se
apáticas, assustadas, introspectivas, não se relacionam com os colegas. Outras
externalizam os conflitos, repetindo o que acontece com elas, mas fazendo o papel
de agressores. Por exemplo, se elas sofrem agressões físicas, podem agredir colegas,
irmãos, pais e até o profissional de saúde.
No caso de abuso sexual, verifica-se uma
exacerbação do comportamento erótico. Pode ocorrer masturbação compulsiva ou
sexualidade precoce. Essas crianças não tiveram desenvolvimento sexual adequado
nem aprenderam os limites de seu corpo, a mensagem que receberam foi que sua
função é servir de objeto de prazer. A vítima sente uma dor que não reconhece e
angustiada busca algo sem saber o que é.
O perfil do abusador também varia conforme o
abuso. A maior parte dos casos de negligência e agressão psicológica é
praticada pelas mães. Já os homens são a maioria dos autores das lesões físicas
mais graves e dos abusos sexuais. Os meninos são maioria das vítimas de
violência física grave e as meninas são maioria das vítimas de abuso sexual,
mas tanto meninos quanto meninas podem ser vítimas de ambos os tipos de
maus-tratos. A violência psicológica é mais difícil de ser identificada por não
deixar marcas visíveis como a violência física.
Alguns agressores têm distúrbios de personalidade
graves. São sádicos, insensíveis, narcisistas, manipuladores e imprevisíveis.
Não sentem remorso pelas agressões que cometem e mentem com facilidade. Procuram
agredir suas vítimas fora da vista de outras pessoas, o que mostra que NÃO são
doentes mentais. Nem sempre agridem fisicamente, alguns sentem prazer em
torturar psicologicamente os alvos mais vulneráveis. O agressor pode ser homem
ou mulher. São comuns casos em que o marido maltrata a esposa e a mulher
desforra-se maltratando os filhos.
Como todo comportamento, a agressividade é um
composto de fatores (1) biológicos, (2) ambientais, (3) culturais e (4) do histórico
da pessoa com (5) algum grau de deliberação. Cada caso é um caso: uma pessoa em
geral pacífica cometer um ato agressivo isolado (físico e/ou verbal) no calor de
um momento é uma situação, uma pessoa praticar atos agressivos de modo contínuo
por um longo período é outra situação.
Alguns pais foram criados na filosofia do “é
proibido proibir”, sem limites razoáveis, podendo fazer tudo o que quisessem. O
resultado é que cresceram com uma atitude narcisista, egoísta, sem empatia nem
tolerância às frustrações. São física e intelectualmente adultos, mas
emocionalmente são infantis. São regidos pela busca do prazer e vivem em um
mudo idealizado onde fazem apenas o que gostam e esperam que os outros façam
tudo o que eles quiserem.
Essa atitude é reforçada pela cultura consumista em
que vivemos, que gera uma falsa identidade sem crescimento psíquico. E quando
essas crianças em corpos adultos se tornam pais, não possuem condições
psicológicas e existenciais de criar seus filhos e lhes transmitir uma mentalidade
adulta que eles próprios não possuem. São tão infantis quanto seus filhos e
rivalizam com eles, utilizando sua força maior para impor sua vontade como
valentões da escola.
* * *

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Envie-nos seu comentário inteligente e educado: