sexta-feira, 15 de março de 2013

Questões Levadas aos Psicoterapeutas

No decorrer dos anos tem mudado a atitude das pessoas em relação à psicoterapia, assim como o perfil dos que recorrem a ela e os problemas apresentados. Dificuldades profissionais cresceram em relevância. Aflições com relacionamentos e família se diversificaram. Algumas questões são típicas do tempo e do lugar em que vivemos, outras questões são universais e atemporais. Vejamos algumas das principais.
 

Vale a pena investir no casamento? Hoje cada vez mais casais fazem acordos pré-nupciais detalhados e é cada vez mais rara a comunhão total de bens. Além disso, muitos casais se unem após namoros breves, boa parte deles apenas passa a morar juntos sem se casar.
 
As pessoas encaram a separação como algo aceitável e normal, por isso se arriscam mais. Então se casam prevenidas demais [no mau sentido], pouco dispostas a suportar dificuldades e vivem como se fossem dois solteiros dividindo a mesma casa. Uma das consequências é o medo da entrega emocional. Outra é enfrentar dilemas antes desconhecidos, como ter ou não um filho em um contexto desses ou corresponder ou não à oportunidade de sexo com outra pessoa. Conforme se passam os anos, o casal cuida menos da relação e tem cada vez mais atividades em separado.
 
Conforme a faixa etária sobre, a população de mulheres solteiras é cada vez maior do que a de homens solteiros. Muitas mulheres na casa dos 20 anos deixam para se casar depois porque têm outras prioridades, como a carreira. Quando entram nos 30 anos começa a angústia, pois têm pouco tempo para terem um filho e ainda não conheceram ninguém aceitável.
 
Para piorar, as mulheres tendem a querer um homem com status, condição financeira e nível cultural acima dos delas, mas a minoria de homens solteiros dessa faixa etária que satisfaz esses requisitos tende a preferir mulheres mais jovens e dóceis. Então essas mulheres podem fazer concessões desaconselháveis ou idealizar parceiros inadequados. Algumas sonham tanto com o casamento que chegam a pesquisar vestidos de noiva mesmo não estando nem sequer namorando.
 
Como resolver a crise da masculinidade? Nos últimos tempos, enquanto as mulheres ficaram seguras diante das mudanças socioculturais que ocorreram devido à orientação e apoio que receberam e recebem, os homens são negligenciados e estão perdidos em busca da definição do seu papel. Antes tudo era mais simples, pois todos sabiam o que se esperava deles. Hoje há inúmeras exigências contraditórias e as necessidades de orientação e apoio dos homens são sistematicamente negligenciadas.
 
A entrada feminina no mercado profissional é um assunto pessimamente resolvido quanto às expectativas, direitos e deveres de todos os envolvidos. As mulheres hoje representam 60% dos estudantes universitários de modo geral, o que tende a anular a figura do marido e pai provedor. Diante disso, eles se perguntam: “Se não sou o arrimo de família, quem eu sou?” O problema cresce quando o salário e prestígio dela são mais elevados. As mulheres também se sentem confusas quanto ao perfil do parceiro ideal. Tanto a mulher quanto o homem tendem a se sentir desconfortáveis quando o status do marido é inferior.
 
Como lidar com as angústias provocadas pela Internet? O fio de cabelo no paletó agora é digital. Muitas pessoas sentem muito ciúme pela enorme facilidade de ter casos que a Rede Mundial proporciona, caçando pistas virtuais de possíveis aventuras ou relacionamentos extraconjugais. Fazem mil especulações sobre qualquer informação e qualquer banalidade parece suspeita. Esse padrão gera sofrimento, com o medo da perda e o dilema de perguntar ou não quem é aquela pessoa que disse “oi” na rede social.
 
A web está potencializando este comportamento paranoico e reforçando a ilusão de que é possível ter controle absoluto sobre a pessoa amada. Essa atitude vai desgastando o relacionamento até o parceiro não suportar mais. O inseguro não possui estabilidade emocional e se considera o centro do mundo. Aceitar este jogo só piora a situação: quanto mais concessões o alvo da vigilância fizer, mas exigência o outro fará.
 
Nas redes sociais, todos parecem felizes e cheios de amigos sinceros. Mas por trás dessa fachada se encontra muito medo da impopularidade, muita mágoa por rejeição e muito narcisismo. As pessoas escrevem algo e ficam tristes se ninguém aprecia. Essa falsa mensuração do quanto é amado é fonte de muito tormento.
 
Antes essa angústia de rejeição em geral ocorria apenas em dias especiais, quando havia alguma festa ou confraternização e o sujeito não era convidado. Agora o nível de aprovação passou a ser testado diariamente. Além disso, a Internet aumentou ainda mais a divisão da sociedade em grupos de interesse. Todos nós temos a necessidade de pertencer e ser excluído é doloroso, mas essa angústia foi amplificada. Formam-se grupos cada vez mais seletivos e excludentes de quem não se encaixa.
 
Como lidar com os filhos? Os filhos (de todas as idades) nunca foram tão protagonistas dos conflitos vividos pelas pessoas. São cada vez mais comuns pais não saberem o que mais fazer para eles os respeitarem. Os adultos perderam o hábito de serem firmes porque não querem causar transtornos em seus filhos.
 
Porém, um dos papéis dos pais é impor regras e consequências consistentes para que os filhos desenvolvam responsabilidade e se preparem para a vida. Isso inclui permitir que passem algumas frustrações. O excesso de gratificações imediatas promove a crenças de que têm o direito incondicional de possuir o que desejam. Pessoas que não conseguem tudo de imediato podem desenvolver uma boa capacidade de automotivação, ética, habilidade de relacionar-se e de serenidade, entre outras qualidades.
 
No Brasil, 27% das pessoas entre 25 e 34 anos ainda moram com os pais. Viver na casa da mãe não é ruim em si mesmo, mas se torna problemático quando o filho continua a agir como criança. A mágica da comida que vai da geladeira para o prato é atraente, mas há a angústia de estar perdido e sem autonomia. Porém, muitos suportam essa situação porque querem começar a vida no padrão que os pais levaram anos para alcançar. Então continuam deixando tudo como está.
 
Em troca desse conforto, vivem de forma precária Tudo parece difícil demais e a atitude deles se reflete em todas as áreas de sua vida, como a profissional. Enfrentam falsos dilemas profissionais, como querer seguir determinada carreira, mas não querer começar do começo aceitando trabalhos mais simples e auxiliares. Outros se escondem em longas temporadas de estudo para concursos públicos ou pós graduações sem fim.
 
Como lidar com o sentimento de ser alvo da violência? O estilo de vida metropolitano, no qual se pensa em criminalidade o tempo todo é gasolina na fogueira para quem já possui tendência para um estado contínuo de ansiedade. Alguns estudiosos chegam a falar de “stress pré-traumático”, experimentado por pessoas que não sofreram um caso grave de violência, mas se desgastam por se sentirem ameaçadas. São atingidas psicologicamente mesmo que o evento temido não ocorra e esta insegurança vai contaminando outros aspectos da vida, inclusive o relacionamento e a estabilidade no emprego. Foca a rotina em uma tentativa de controle impossível, o que é um caminho certo para a infelicidade.
 
Trabalhar mais ou largar tudo? Muitos vivem conectados com seu trabalho através de celulares, notebooks e outros aparelhos, mesmo quando vão em um lugar que seria para relaxar. Antes os relacionamentos amorosos e familiares eram os principais temas levados aos psicoterapeutas. Hoje os clientes querem cada vez mais debater estratégias de carreira: como lidar com o chefe, como sair-se bem em uma apresentação e assim por diante.
 
Muitos querem TUDO. Querem progresso profissional, mas ao mesmo tempo reclamam da falta de tempo, da carga extenuante e assim por diante. Todos querem “qualidade de vida”, mas muitos estão confusos (ou dogmaticamente convictos) quanto ao que isso realmente significa e como obtê-la. Também há aqueles que se casam com o próprio trabalho, fazendo sua vida orbitar em torno dele e obtendo dele sua principal fonte de satisfação e insatisfação. E o que sobra se perderem o emprego?
 
Existe vida após a aposentadoria? Alguns continuam trabalhando intensamente mesmo quando já poderiam ou deveriam reduzir o passo. Parte deles pelo menos toma alguns cuidados necessários. Não é o caso de parar totalmente com as atividades e ficar na ociosidade física e mental. Mas é isso que eles temem, pois não foram preparadas para diminuir o ritmo de forma saudável. Uma solução que alguns encontram é dedicar-se a um hobby, ou a cursos, ou a atividades filantrópicas,  etc. Porém, mesmo nestas vias pesa a influência cultural que enfatiza a pressa e a eterna juventude.
 
 
O TRANSTORNO DA MODA
 
De tempos em tempos um termo usado por especialistas cai no uso popular e muitas pessoas vão ao consultório dizendo ter este problema;
 
Transtorno do Pânico: frequentemente confundido com medos e preocupações naturais da vida;
 
Bipolaridade: A alteração de momentos de alegria e tristeza pode até ser problemática, mas não representa necessariamente um transtorno psicopatológico;
 
Anorexia e Déficit de Atenção: Muitos pais pensam que a falta de apetite do filho é um distúrbio alimentar, ou que ser ele desligado é um problema neurológico.
 
Não significa que estes problemas não existam, mas sim que muitos pensam erroneamente que os possuem. A maior parte dessas pessoas na realidade possui outros problemas e pode ser beneficiada da psicoterapia.
 
 
Adaptado da revista Veja São Paulo 08/08/12
 
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