No decorrer dos anos tem mudado a atitude das pessoas em relação à psicoterapia,
assim como o perfil dos que recorrem a ela e os problemas apresentados.
Dificuldades profissionais cresceram em relevância. Aflições com
relacionamentos e família se diversificaram. Algumas questões são típicas do
tempo e do lugar em que vivemos, outras questões são universais e atemporais. Vejamos algumas das principais.
Vale a pena
investir no casamento? Hoje cada vez mais casais fazem acordos
pré-nupciais detalhados e é cada vez mais rara a comunhão total de bens. Além
disso, muitos casais se unem após namoros breves, boa parte deles apenas passa
a morar juntos sem se casar.
As pessoas encaram a separação como algo aceitável e normal, por isso se
arriscam mais. Então se casam prevenidas demais [no mau sentido], pouco dispostas a suportar
dificuldades e vivem como se fossem dois solteiros dividindo a mesma casa. Uma
das consequências é o medo da entrega emocional. Outra é enfrentar dilemas
antes desconhecidos, como ter ou não um filho em um contexto desses ou
corresponder ou não à oportunidade de sexo com outra pessoa. Conforme se passam
os anos, o casal cuida menos da relação e tem cada vez mais atividades em
separado.
Conforme a faixa etária sobre, a população de mulheres solteiras é cada
vez maior do que a de homens solteiros. Muitas mulheres na casa dos 20 anos
deixam para se casar depois porque têm outras prioridades, como a carreira.
Quando entram nos 30 anos começa a angústia, pois têm pouco tempo para terem um
filho e ainda não conheceram ninguém aceitável.
Para piorar, as mulheres tendem a querer um homem com status, condição
financeira e nível cultural acima dos delas, mas a minoria de homens solteiros
dessa faixa etária que satisfaz esses requisitos tende a preferir mulheres
mais jovens e dóceis. Então essas mulheres podem fazer concessões
desaconselháveis ou idealizar parceiros inadequados. Algumas sonham tanto com o
casamento que chegam a pesquisar vestidos de noiva mesmo não estando nem sequer
namorando.
Como resolver a
crise da masculinidade? Nos últimos tempos, enquanto as mulheres ficaram
seguras diante das mudanças socioculturais que ocorreram devido à orientação e
apoio que receberam e recebem, os homens são negligenciados e estão perdidos em busca da definição
do seu papel. Antes tudo era mais simples, pois todos sabiam o que se esperava
deles. Hoje há inúmeras exigências contraditórias e as necessidades de orientação
e apoio dos homens são sistematicamente negligenciadas.
A entrada feminina no mercado profissional é um assunto pessimamente resolvido
quanto às expectativas, direitos e deveres de todos os envolvidos. As mulheres
hoje representam 60% dos estudantes universitários de modo geral, o que tende a
anular a figura do marido e pai provedor. Diante disso, eles se perguntam: “Se
não sou o arrimo de família, quem eu sou?” O problema cresce quando o salário e
prestígio dela são mais elevados. As mulheres também se sentem confusas quanto
ao perfil do parceiro ideal. Tanto a mulher quanto o homem tendem a se sentir
desconfortáveis quando o status do marido é inferior.
Como lidar com
as angústias provocadas pela Internet? O fio de cabelo no paletó agora é
digital. Muitas pessoas sentem muito ciúme pela enorme facilidade de ter casos
que a Rede Mundial proporciona, caçando pistas virtuais de possíveis aventuras
ou relacionamentos extraconjugais. Fazem mil especulações sobre qualquer
informação e qualquer banalidade parece suspeita. Esse padrão gera sofrimento,
com o medo da perda e o dilema de perguntar ou não quem é aquela pessoa que
disse “oi” na rede social.
A web está potencializando este comportamento paranoico e reforçando a
ilusão de que é possível ter controle absoluto sobre a pessoa amada. Essa
atitude vai desgastando o relacionamento até o parceiro não suportar mais. O
inseguro não possui estabilidade emocional e se considera o centro do mundo.
Aceitar este jogo só piora a situação: quanto mais concessões o alvo da
vigilância fizer, mas exigência o outro fará.
Nas redes sociais, todos parecem felizes e cheios de amigos sinceros.
Mas por trás dessa fachada se encontra muito medo da impopularidade, muita
mágoa por rejeição e muito narcisismo. As pessoas escrevem algo e ficam tristes
se ninguém aprecia. Essa falsa mensuração do quanto é amado é fonte de muito tormento.
Antes essa angústia de rejeição em geral ocorria apenas em dias
especiais, quando havia alguma festa ou confraternização e o sujeito não era
convidado. Agora o nível de aprovação passou a ser testado diariamente. Além disso,
a Internet aumentou ainda mais a divisão da sociedade em grupos de interesse.
Todos nós temos a necessidade de pertencer e ser excluído é doloroso, mas essa
angústia foi amplificada. Formam-se grupos cada vez mais seletivos e
excludentes de quem não se encaixa.
Como lidar com
os filhos? Os filhos (de todas as idades) nunca foram tão protagonistas dos
conflitos vividos pelas pessoas. São cada vez mais comuns pais não saberem o
que mais fazer para eles os respeitarem. Os adultos perderam o hábito de serem
firmes porque não querem causar transtornos em seus filhos.
Porém, um dos papéis dos pais é impor regras e consequências consistentes
para que os filhos desenvolvam responsabilidade e se preparem para a vida. Isso
inclui permitir que passem algumas frustrações. O excesso de gratificações
imediatas promove a crenças de que têm o direito incondicional de possuir o que
desejam. Pessoas que não conseguem tudo de imediato podem desenvolver uma boa
capacidade de automotivação, ética, habilidade de relacionar-se e de
serenidade, entre outras qualidades.
No Brasil, 27% das pessoas entre 25 e 34 anos ainda moram com os pais.
Viver na casa da mãe não é ruim em si mesmo, mas se torna problemático quando o
filho continua a agir como criança. A mágica da comida que vai da geladeira
para o prato é atraente, mas há a angústia de estar perdido e sem autonomia.
Porém, muitos suportam essa situação porque querem começar a vida no padrão que
os pais levaram anos para alcançar. Então continuam deixando tudo como está.
Em
troca desse conforto, vivem de forma precária Tudo parece difícil demais e a
atitude deles se reflete em todas as áreas de sua vida, como a profissional.
Enfrentam falsos dilemas profissionais, como querer seguir determinada
carreira, mas não querer começar do começo aceitando trabalhos mais simples e
auxiliares. Outros se escondem em longas temporadas de estudo para concursos
públicos ou pós graduações sem fim.
Como lidar com o
sentimento de ser alvo da violência? O estilo de vida metropolitano, no qual
se pensa em criminalidade o tempo todo é gasolina na fogueira para quem já
possui tendência para um estado contínuo de ansiedade. Alguns estudiosos chegam
a falar de “stress pré-traumático”, experimentado por pessoas que não sofreram
um caso grave de violência, mas se desgastam por se sentirem ameaçadas. São
atingidas psicologicamente mesmo que o evento temido não ocorra e esta
insegurança vai contaminando outros aspectos da vida, inclusive o
relacionamento e a estabilidade no emprego. Foca a rotina em uma tentativa de
controle impossível, o que é um caminho certo para a infelicidade.
Trabalhar mais
ou largar tudo? Muitos vivem conectados com seu trabalho através de
celulares, notebooks e outros aparelhos, mesmo quando vão em um lugar que seria
para relaxar. Antes os relacionamentos amorosos e familiares eram os principais
temas levados aos psicoterapeutas. Hoje os clientes querem cada vez mais
debater estratégias de carreira: como lidar com o chefe, como sair-se bem em
uma apresentação e assim por diante.
Muitos querem TUDO. Querem progresso profissional, mas ao mesmo tempo reclamam da
falta de tempo, da carga extenuante e assim por diante. Todos querem “qualidade
de vida”, mas muitos estão confusos (ou dogmaticamente convictos) quanto ao que
isso realmente significa e como obtê-la. Também há aqueles que se casam com o
próprio trabalho, fazendo sua vida orbitar em torno dele e obtendo dele sua
principal fonte de satisfação e insatisfação. E o que sobra se perderem o
emprego?
Existe vida após
a aposentadoria? Alguns continuam trabalhando intensamente mesmo quando
já poderiam ou deveriam reduzir o passo. Parte deles pelo menos toma alguns
cuidados necessários. Não é o caso de parar totalmente com as atividades e
ficar na ociosidade física e mental. Mas é isso que eles temem, pois
não foram preparadas para diminuir o ritmo de forma saudável. Uma solução que
alguns encontram é dedicar-se a um hobby, ou a cursos, ou a atividades
filantrópicas, etc. Porém, mesmo nestas vias pesa a influência
cultural que enfatiza a pressa e a eterna juventude.
O TRANSTORNO DA
MODA
De tempos em tempos um termo usado por especialistas cai no uso popular
e muitas pessoas vão ao consultório dizendo ter este problema;
Transtorno do Pânico: frequentemente
confundido com medos e preocupações naturais da vida;
Bipolaridade: A alteração de
momentos de alegria e tristeza pode até ser problemática, mas não representa
necessariamente um transtorno psicopatológico;
Anorexia e
Déficit de Atenção: Muitos pais pensam que a falta de apetite do filho é um
distúrbio alimentar, ou que ser ele desligado é um problema neurológico.
Não significa que estes problemas não existam, mas sim que muitos pensam
erroneamente que os possuem. A maior parte dessas pessoas na realidade possui
outros problemas e pode ser beneficiada da psicoterapia.
Adaptado da revista Veja São Paulo 08/08/12
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