Outro causador de comportamento agressivo contra
crianças é um modelo de agressividade que passa de geração para geração: o
tataravô era agressivo com o trisavô, que era agressivo com o bisavô, que era
agressivo com o avô, que era agressivo com o pai, que era agressivo com o
sujeito, que agora é agressivo com o próprio filho, que será agressivo com o
neto e assim por diante. Mais uma variável: quanto maior o número de crianças
na casa, maior o risco de violência doméstica contra elas.
É necessário impor limites e aplicar sanções, mas
sem violência. O castigo deve ser aplicado quando o filho age de forma errada,
mas sem maus-tratos físicos ou psicológicos. A punição deve ser proporcional à
falta e fazer a criança refletir sobre o erro. É essencial deixar claro que a
rejeição é daquele comportamento e não da criança. Deixar de cumprir uma
advertência de que certo comportamento seria punido ou punir muito depois pode
deixar a criança confusa, desnorteada.
Castigos física e/ou psicologicamente abusivos,
desproporcionais, que fazem a criança se sentir rejeitada como pessoa e
utilizada como “saco de pancada” para os pais desforrarem suas frustrações,
apenas ensinam a criança a se tornar um futuro adulto agressor. Na construção
do seu senso de identidade, ao vivenciar continuamente o papel de vítima, ela
tende a se identificar com o papel de vitimador e introjetá-lo. Ou repetir o papel de vítima.
No futuro, quando
tiver poder e oportunidade, poderá passar a vitimar pessoas mais fracas, embora
não necessariamente com o mesmo tipo de agressão. Aprendeu que é um direito e
dever do mais forte agredir o mais fraco para corrigi-lo. Aprendeu que, se
quando era o lado mais fraco ela foi agredida porque mereceu, então agora que
ela é o lado mais forte vai agredir acreditando que o outro merece ser
agredido.
Entretanto, nem todas as pessoas abusadas quando crianças tornam-se adultos abusadores. Entre outros fatores, depende de como a vitimação foi
vivenciada e de como essa vivência pôde ser elaborada mentalmente.
A violência doméstica também pode ser desencadeada
ou agravada pelo uso de drogas, incluindo o álcool. A falta de parentes
próximos que os apóiem, em especial nos períodos de dificuldades, pode fazer
com que os pais se sintam desamparados e ainda mais estressados, aumentando a
probabilidade de descontrole.
A prevenção da violência doméstica pode ser feita
prestando assistência à vítima, ao agressor ou agressora e às outras pessoas da
família. O ideal seria internar a suposta vítima para que ela e o suposto
agressor pudessem ser avaliados por uma equipe multidisciplinar: desta forma se
encerrariam as agressões ou se evitaria acusações injustas, conforme o caso.
É importante dar atendimento psicoterápico para a
pessoa que convive com o agressor e com a vítima. Muitas vezes ela sabe das
agressões, mas escolheu ficar do lado do agressor e em alguns casos ela própria
foi vítima no seu passado. Em geral o cúmplice passivo é a mãe, que sente a dor
da culpa e de reviver os próprios abusos, ficando anestesiada e deixando de
proteger a vítima. Essa pessoa precisa de orientação e fortalecimento para
poder proteger a criança.
Uma das estratégias do agressor ou agressora costuma
ser isolar socialmente a vítima e sabotar seu desenvolvimento psicológico.
Portanto, a vítima precisa ser reintegrada ao meio social (escola, clube, grupo
de amigos, etc.). Também precisa aprender a se defender e a interagir de forma
saudável com os outros.
O tratamento do agressor ou agressora depende de
uma série de fatores, como o tipo de agressão cometida e se ele ou ela admite o
erro e aceita ajuda. O objetivo da intervenção psicoterapêutica é reestruturar
o emocional e o modo de pensar e agir da pessoa, que talvez tenha grande
sofrimento e utilizasse os maus-tratos como válvula de escape para suas
angústias. Ela precisa de ajuda para mudar sua vida, seus relacionamentos e
lidar com os sentimentos de medo, vergonha e culpa.
Uma medida importante para interromper as
agressões é através do esclarecimento educacional, ensinar os pais ou
responsáveis a administrarem suas vidas e emoções, a se comunicarem de forma
adequada e a conhecerem as peculiaridades de cada etapa de desenvolvimento de
uma criança. Várias mães agridem filhos por que seu desconhecimento as faz
terem expectativas excessivas. Em certo caso uma menina teve sua genitália queimada
com um isqueiro porque urinou na roupa; no seu caso era normal, pois tinha
apenas dois anos de idade.
É necessário combater a negação e a banalização do
problema. Para prevenir a violência contra crianças (incluindo infanticídios) é
necessário promover esclarecimentos à população sobre os diversos tipos de abusos
e dar orientação e apoio aos grupos de risco, o que inclui lhes oferecer o
exemplo e a ajuda de pessoas que sejam modelos de bons cuidadores de crianças.
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