sexta-feira, 1 de março de 2013

Maus-Tratos contra Crianças (2/4)



Outro causador de comportamento agressivo contra crianças é um modelo de agressividade que passa de geração para geração: o tataravô era agressivo com o trisavô, que era agressivo com o bisavô, que era agressivo com o avô, que era agressivo com o pai, que era agressivo com o sujeito, que agora é agressivo com o próprio filho, que será agressivo com o neto e assim por diante. Mais uma variável: quanto maior o número de crianças na casa, maior o risco de violência doméstica contra elas.


É necessário impor limites e aplicar sanções, mas sem violência. O castigo deve ser aplicado quando o filho age de forma errada, mas sem maus-tratos físicos ou psicológicos. A punição deve ser proporcional à falta e fazer a criança refletir sobre o erro. É essencial deixar claro que a rejeição é daquele comportamento e não da criança. Deixar de cumprir uma advertência de que certo comportamento seria punido ou punir muito depois pode deixar a criança confusa, desnorteada.

Castigos física e/ou psicologicamente abusivos, desproporcionais, que fazem a criança se sentir rejeitada como pessoa e utilizada como “saco de pancada” para os pais desforrarem suas frustrações, apenas ensinam a criança a se tornar um futuro adulto agressor. Na construção do seu senso de identidade, ao vivenciar continuamente o papel de vítima, ela tende a se identificar com o papel de vitimador e introjetá-lo. Ou repetir o papel de vítima.

No futuro, quando tiver poder e oportunidade, poderá passar a vitimar pessoas mais fracas, embora não necessariamente com o mesmo tipo de agressão. Aprendeu que é um direito e dever do mais forte agredir o mais fraco para corrigi-lo. Aprendeu que, se quando era o lado mais fraco ela foi agredida porque mereceu, então agora que ela é o lado mais forte vai agredir acreditando que o outro merece ser agredido.

Entretanto, nem todas as pessoas abusadas quando crianças tornam-se adultos abusadores. Entre outros fatores, depende de como a vitimação foi vivenciada e de como essa vivência pôde ser elaborada mentalmente.

A violência doméstica também pode ser desencadeada ou agravada pelo uso de drogas, incluindo o álcool. A falta de parentes próximos que os apóiem, em especial nos períodos de dificuldades, pode fazer com que os pais se sintam desamparados e ainda mais estressados, aumentando a probabilidade de descontrole.

A prevenção da violência doméstica pode ser feita prestando assistência à vítima, ao agressor ou agressora e às outras pessoas da família. O ideal seria internar a suposta vítima para que ela e o suposto agressor pudessem ser avaliados por uma equipe multidisciplinar: desta forma se encerrariam as agressões ou se evitaria acusações injustas, conforme o caso.

É importante dar atendimento psicoterápico para a pessoa que convive com o agressor e com a vítima. Muitas vezes ela sabe das agressões, mas escolheu ficar do lado do agressor e em alguns casos ela própria foi vítima no seu passado. Em geral o cúmplice passivo é a mãe, que sente a dor da culpa e de reviver os próprios abusos, ficando anestesiada e deixando de proteger a vítima. Essa pessoa precisa de orientação e fortalecimento para poder proteger a criança.

Uma das estratégias do agressor ou agressora costuma ser isolar socialmente a vítima e sabotar seu desenvolvimento psicológico. Portanto, a vítima precisa ser reintegrada ao meio social (escola, clube, grupo de amigos, etc.). Também precisa aprender a se defender e a interagir de forma saudável com os outros.

O tratamento do agressor ou agressora depende de uma série de fatores, como o tipo de agressão cometida e se ele ou ela admite o erro e aceita ajuda. O objetivo da intervenção psicoterapêutica é reestruturar o emocional e o modo de pensar e agir da pessoa, que talvez tenha grande sofrimento e utilizasse os maus-tratos como válvula de escape para suas angústias. Ela precisa de ajuda para mudar sua vida, seus relacionamentos e lidar com os sentimentos de medo, vergonha e culpa.

Uma medida importante para interromper as agressões é através do esclarecimento educacional, ensinar os pais ou responsáveis a administrarem suas vidas e emoções, a se comunicarem de forma adequada e a conhecerem as peculiaridades de cada etapa de desenvolvimento de uma criança. Várias mães agridem filhos por que seu desconhecimento as faz terem expectativas excessivas. Em certo caso uma menina teve sua genitália queimada com um isqueiro porque urinou na roupa; no seu caso era normal, pois tinha apenas dois anos de idade.

É necessário combater a negação e a banalização do problema. Para prevenir a violência contra crianças (incluindo infanticídios) é necessário promover esclarecimentos à população sobre os diversos tipos de abusos e dar orientação e apoio aos grupos de risco, o que inclui lhes oferecer o exemplo e a ajuda de pessoas que sejam modelos de bons cuidadores de crianças.


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