Nosso desenvolvimento cognitivo em grande parte forma-se na interação
com outras pessoas no decorrer de nossa vida. Formamos nosso conceito sobre
quem somos, sobre o que podemos realizar e sobre o que devemos fazer (e do que
NÃO somos, do que NÃO podemos realizar e do que NÃO devemos fazer) a partir dos
constantes feedbacks explícitos e implícitos que recebemos dia após dia, ano
após ano, desde a infância.
Esse tipo de aprendizado é necessário para o ser humano. Muitos animais
já nascem com o cérebro pronto em seu acervo comportamental, sabendo e
conseguindo viver por conta própria. Outros animais (os mais complexos e com
maior poder neurológico) necessitam de certo treinamento para a vida. Insetos
não precisam aprender a como ser um inseto, mamíferos precisam aprender a como
viver em seu modo de vida. O ser humano é o caso mais extremo do segundo grupo,
é a forma de vida que mais necessita de orientação e apoio para desenvolver-se plenamente.
Acontece que essa orientação com frequência é dada de formas inadequadas.
Muitos adultos são limitados quanto a orientar o desenvolvimento das crianças e
jovens dos quais cuidam porque eles próprios foram mal-orientados e se
desenvolveram de modo disforme e disfuncional, como um bolo que fica queimado
por fora e cru por dentro. Assim, erros são passados de geração em geração. Ou
cada geração, no esforço de acertar, comete erros opostos aos que foram cometidos
pela geração anterior, formando um padrão de zigue-zague geracional.
Para piorar, vivemos em uma cultura e sociedade desequilibrada, que estimula
ao mesmo tempo atitudes e comportamentos opostos, de forma que podemos ser
elogiados e criticados pela mesma ação. Por exemplo, o consumo de bebidas
alcoólicas é associado a uma série de boas qualidades: quem consome
exageradamente é admirado, quem consome com moderação ou é abstêmio é
menosprezado. Mas ao mesmo tempo se critica quem dirige alcoolizado, quem apresenta
alterações de comportamento por causa do álcool e quem se torna viciado.
Afinal, o que querem?
Especialmente durante a juventude, as pessoas ao redor querem decidir a
vida do indivíduo por ele. Querem impor os valores e objetivos que deve seguir,
as convicções e atitudes que deve adotar, as receitas de “felicidade” e de
“sucesso” que deve realizar e assim por diante.
Não estamos nos referindo aqui às orientações saudáveis que damos (e temos
que dar) uns aos outros, em especial aos mais jovens, respeitando sua
individualidade e direito à autonomia. Estamos nos referindo sim às tentativas
que muitos fazem de controlar a vida dos outros e recriá-los à sua própria
imagem e semelhança.
Conforme explicado antes, em grande parte desenvolvemos nossa
cognição e nosso conceito sobre quem somos na interação com outras pessoas, a
partir dos constantes feedbacks explícitos e [principalmente] implícitos que
recebemos delas dia após dia, ano após ano, desde a infância.
Acontece que muito desses feedbacks são mais projeções de sentimentos e
desejos dessas pessoas e fruto de sua percepção distorcida do que resultado de
uma análise objetiva a respeito de nós e das nossas reais limitações e potencialidades.
As imagens que projetam de nós para nós são como os reflexos da casa de
espelhos malucos de um parque de diversões. E formamos nossa autoimagem a partir
da mistura dessas imagens distorcidas.
Todos nós exercemos papéis em nossos relacionamentos de todos os tipos:
filho, aluno, profissional, etc. Isso é bom em si mesmo, o problema é quando
esses papéis são distorcidos. Um ser humano complexo e multifacetado é reduzido
a um estereótipo como “o filho bonzinho”, “o filho rebelde”, “o filho
inteligente”, “o filho burro” e assim por diante.
Os estereótipos positivos são tão desumanizadores e prejudiciais quanto
os negativos. O indivíduo é condicionado a pensar e agir de acordo com o papel
distorcido atribuído a ele. É “recompensado” por agir de acordo e punido por
agir em desacordo com a caricatura. Tudo o que faz (de bom, de ruim e de neutro)
é interpretado como confirmando o estereótipo. E assim a “profecia” causa o seu
próprio cumprimento.
Somos seres sociais e imitamos uns aos outros. As outras pessoas não são
apenas orientadoras, mas também modelos, pois aprendemos mais observando exemplos
do que recebendo instrução explícita. Porém, a maioria dos modelos que muitos
de nós tivemos e temos é de pessoas mal-desenvolvidas em sentido intelectual,
emocional e existencial. Este é outro fator que dificulta visualizar e buscar
um ideal digno e equilibrado do que nós podemos e devemos ser, cultivar
autoconfiança e responsabilidade.
Além disso, para aprendermos uns com os outros, são necessárias a disposição
de abrir-se e a disposição de aprender. Mas temos medo de nos abrir ao outro
por medo de sermos de alguma forma atacados. E temos medo de aprender com o
outro e sermos taxados de ignorantes e inferiores a ele. E a outra pessoa tem o
mesmo medo tanto de se abrir para nós quanto de aprender de nós. E assim ambos
deixam de aprender.
Poucos fizeram uma investigação séria para escolher conscientemente
suas crenças e valores sobre assuntos importantes. Grande parte das pessoas
simplesmente aceitou os paradigmas que lhes passaram no decorrer da vida e
nunca verificaram imparcialmente até que ponto estes mapas representam fielmente
o território da realidade objetiva. Ao contrário, defendem dogmaticamente esses
mapas. E muitos simplesmente não se importam, apenas vão vivendo a vida.
Outro sintoma de desajuste psicológico é a atitude das pessoas em
relação às novidades e mudanças. É natural apreciar que haja certa estabilidade
e previsibilidade na nossa vida. Também é natural apreciar certa medida de
inovações e de variações. Alguns gostam mais de estabilidade do que de
variedade, outros são o contrário. Porém, muitos vão a extremos. Há pessoas que
sentem forte aversão a mudanças e querem que tudo seja rigorosamente como
sempre foi. Outros são fanáticos por mudanças, querem que tudo mude já, pensam que
tudo que é novo é bom e tudo que é antigo é ruim. Ambos precisam desenvolver
equilíbrio e bom senso.
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