segunda-feira, 1 de abril de 2013

Maus-Tratos contra Crianças (3/4)



Em anos recentes aumentaram as denúncias de maus-tratos contra crianças. O difícil é determinar se esse crescimento se deve mais a uma maior conscientização das pessoas quanto a este problema ou se ele se deve mais a um aumento da quantidade de abusos. As duas interpretações são válidas.


Alguns fatores que contribuem para as agressões contra crianças são o acréscimo da violência geral nas populações, o baixo padrão de vida econômica, maior estresse, maior consumo de álcool e drogas e divulgação de brutalidade na mídia. Existem diversas modalidades de maus-tratos contra crianças: (1) abuso físico, (2) negligência, (3) abuso psicológico, (4) Síndrome de Münchausen e (5) abuso sexual,

ABUSO FÍSICO envolve agressões físicas, e outras formas de maus-tratos. Existem casos de crianças de dois anos com fraturas múltiplas ou traumatismo craniano, queimadura no órgão genital como castigo, etc.

NEGLIGÊNCIA é o tipo de abuso mais comum, mas em geral é o mais difícil de identificar, pois se trata do que os responsáveis pela criança NÃO fazem. As crianças podem ter necessidades diferentes e profissionais precisam analisar se o caso é de inabilidade dos responsáveis ou se é má vontade mesmo. As crianças vítimas de negligência podem apresentar subnutrição, prejuízo no desenvolvimento neuropsicomotor e pondo-estatural, queimaduras e/ou ferimentos por falha de supervisão, falta de higiene, dificuldade de linguagem, hiperatividade, déficit de atenção e outros problemas. Pode ser o tipo de abuso mais sutil, mas também pode ser o tipo mais prejudicial.

ABUSO PSICOLÓGICO vai além da negligência, incluindo a degeneração do ambiente interpessoal da residência e prejudica ativamente o senso de segurança física e emocional, autoestima e autonomia da criança. Não há consenso, mas em geral se considera que envolve falta de responsabilidade e de ternura, além de inconsistência quanto à disciplina.

síndrome de MÜnchausen é um distúrbio psiquiátrico que (neste caso) envolve causar sintomas na criança, até mesmo através de envenenamento proposital, para simular uma doença e assim receber atenção médica e/ou ter a satisfação de desempenhar o papel de “a boa mãe que cuida da criança doente”. As mulheres que sofrem desse mal parecem exemplos de zelo, equilíbrio e amabilidade, mas uma entrevista com um profissional revela graves distúrbios psicopatológicos.

ABUSO SEXUAL é um verdadeiro vício que pode ser feito de diversas formas, durante muito tempo e envolve toda uma dinâmica familiar doentia, incluindo manipulação psicológica e cumplicidade passiva dos demais membros da família. Meninos também são vítimas.

Médicos (e outros profissionais que lidam com crianças) precisam estar atentos e diferenciar um trauma causado acidentalmente de um causado por violência. Além dos exames físicos e laboratoriais, devem analisar o histórico clínico e perguntar para a criança o que aconteceu. Também devem observar se os pais omitem total ou parcialmente o que aconteceu, se modificam o relato quando são interrogados de novo, se diferentes membros da família isoladamente contam versões divergentes ou se recusam a relatar o que sabem, se houve demora inexplicável para procurar ajuda médica.

Pais que maltratam filhos com frequência são emocionalmente imaturos, em muitos casos são viciados e em alguns casos possuem sérios distúrbios de personalidade. Muitos atos de abusos são executados sob o efeito de drogas ou da síndrome de abstinência. Porém, é comum pais abusadores e cúmplices passivos parecerem “normais”, até mesmo uma família exemplar, o que camufla o problema para os médicos, que não percebem o que acontece.

A pobreza pode contribuir para os abusos de crianças, pois os responsáveis por elas são expostos a muitos fatores estressantes como desemprego, baixos salários, moradia insatisfatória, saneamento básico e serviços de saúde deficientes, convivência com a criminalidade e outros. Claro que não quer dizer que todos os pobres tendem a abusar de crianças, nem que apenas pobres cometam esse erro.

Acrescente a educação rudimentar ou inexistente e a inabilidade de administrar as próprias emoções e de comunicar-se, saber falar e saber ouvir. Conflitos familiares ou entre o casal podem tornar o ambiente mais propício para abusos contra crianças. E o fator cultural também influi, pois determina o que é tolerável e até necessário fazer com uma criança.

As consequências dos maus-tratos vão muito além do aspecto físico e do momento atual, necessitando do amparo de diversos profissionais como psicólogos, assistentes sociais e intervenção jurídica. Os médicos e enfermeiros devem relatar as suspeitas para as autoridades competentes.

As vítimas mostram traços negativos em seu comportamento, como autodepreciação, dificuldades escolares, depressão e dificuldades de relacionamento. Nos casos em que não voltaram a morar com os antigos responsáveis, as crianças apresentam sensível melhora em comparação com aquelas que retornam ao núcleo original. Mas ainda assim seu desenvolvimento psicológico é prejudicado.

A rotina de maus-tratos pode gerar um círculo vicioso, em que a criança abusada de hoje se torna o adulto abusador ou o adulto cúmplice passivo de amanhã. O impacto na criança (e na futura pessoa adulta) vai além dos distúrbios comportamentais e emocionais, afeta todos os seus paradigmas a respeito de si mesma, dos relacionamentos e da vida. Pode tornar-se uma pessoa agressiva e abusadora ou uma pessoa fraca e medrosa.

Os abusos na infância podem contribuir na vida adulta para problemas psicológicos (como a depressão), distúrbios alimentares, maior suscetibilidade ao abuso de álcool e de drogas, comportamentos sexuais de risco, condutas ineficientes no trabalho e relacionamentos pessoais disfuncionais. Contando todos os custos no decorrer da vida, os abusos contra crianças custam muito mais caro para o país do que se pode imaginar.

Entretanto as consequências variam em cada caso. É raro uma criança sofrer apenas um dos tipos de abusos supracitados, embora um tipo possa ser predominante. A forma dos abusos, o tempo que estes duraram e outras variáveis (que nunca são idênticas de um caso para outro) combinam-se com a predisposição genética singular da criança e os fatores ambientais peculiares dela (incluindo fatores positivos, como pessoas da família, professores e outros adultos que ajudem a atenuar o traumatismo psicológico). Em resumo, cada caso é único, embora haja aspectos em comum. E é óbvio que nem todo mundo que têm algum dos problemas citados anteriormente sofreram graves abusos na infância.

As estratégias para o combate ao abuso de crianças são fragmentadas, cada instituição abordando um aspecto diferente do problema e deixando os outros descobertos. A UNICEF defende a criação de um sistema mais abrangente e estrutural, que cuide das causas primordiais e não apenas dos sintomas, que trate da família e da sociedade e não apenas da criança e que promova a prevenção e não apenas a remediação.


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