Em anos recentes aumentaram as denúncias de
maus-tratos contra crianças. O difícil é determinar se esse crescimento se deve
mais a uma maior conscientização das pessoas quanto a este problema ou se ele
se deve mais a um aumento da quantidade de abusos. As duas interpretações são válidas.
Alguns fatores que contribuem para as agressões
contra crianças são o acréscimo da violência geral nas populações, o baixo
padrão de vida econômica, maior estresse, maior consumo de álcool e drogas e divulgação
de brutalidade na mídia. Existem diversas modalidades de maus-tratos contra
crianças: (1) abuso físico, (2) negligência, (3) abuso psicológico, (4) Síndrome
de Münchausen
e (5) abuso sexual,
ABUSO FÍSICO envolve
agressões físicas, e outras formas de maus-tratos. Existem casos de crianças de dois anos
com fraturas múltiplas ou traumatismo craniano, queimadura no órgão genital como castigo, etc.
NEGLIGÊNCIA é o tipo de abuso mais comum, mas em
geral é o mais difícil de identificar, pois se trata do que os responsáveis
pela criança NÃO fazem. As crianças podem ter necessidades diferentes e
profissionais precisam analisar se o caso é de inabilidade dos responsáveis ou
se é má vontade mesmo. As crianças vítimas de negligência podem apresentar
subnutrição, prejuízo no desenvolvimento neuropsicomotor e pondo-estatural,
queimaduras e/ou ferimentos por falha de supervisão, falta de higiene,
dificuldade de linguagem, hiperatividade, déficit de atenção e outros
problemas. Pode ser o tipo de abuso mais sutil, mas também pode ser o tipo mais
prejudicial.
ABUSO PSICOLÓGICO vai além da negligência, incluindo a degeneração
do ambiente interpessoal da residência e prejudica ativamente o senso de
segurança física e emocional, autoestima e autonomia da criança. Não há consenso,
mas em geral se considera que envolve falta de responsabilidade e de ternura,
além de inconsistência quanto à disciplina.
síndrome de MÜnchausen é um distúrbio
psiquiátrico que (neste caso) envolve causar sintomas na criança, até mesmo
através de envenenamento proposital, para simular uma doença e assim receber
atenção médica e/ou ter a satisfação de desempenhar o papel de “a boa mãe que
cuida da criança doente”. As mulheres que sofrem desse mal parecem exemplos de
zelo, equilíbrio e amabilidade, mas uma entrevista com um profissional revela
graves distúrbios psicopatológicos.
ABUSO SEXUAL é um
verdadeiro vício que pode ser feito de diversas formas, durante muito tempo e envolve
toda uma dinâmica familiar doentia, incluindo manipulação psicológica e cumplicidade passiva dos demais membros da família. Meninos também são vítimas.
Médicos (e outros profissionais que lidam com crianças) precisam estar
atentos e diferenciar um trauma causado acidentalmente de um causado
por violência. Além dos exames físicos e laboratoriais, devem analisar o
histórico clínico e perguntar para a criança o que aconteceu. Também devem
observar se os pais omitem total ou parcialmente o que aconteceu, se modificam
o relato quando são interrogados de novo, se diferentes membros da família
isoladamente contam versões divergentes ou se recusam a relatar o que sabem, se
houve demora inexplicável para procurar ajuda médica.
Pais que maltratam filhos com frequência são
emocionalmente imaturos, em muitos casos são viciados e em alguns casos possuem
sérios distúrbios de personalidade. Muitos atos de abusos são executados sob o
efeito de drogas ou da síndrome de abstinência. Porém, é comum pais abusadores
e cúmplices passivos parecerem “normais”, até mesmo uma família exemplar, o que camufla o problema para os
médicos, que não percebem o que acontece.
A pobreza pode contribuir para os abusos de
crianças, pois os responsáveis por elas são expostos a muitos fatores
estressantes como desemprego, baixos salários, moradia insatisfatória,
saneamento básico e serviços de saúde deficientes, convivência com a
criminalidade e outros. Claro que não quer dizer que todos os pobres
tendem a abusar de crianças, nem que apenas pobres cometam esse erro.
Acrescente a educação rudimentar ou inexistente e
a inabilidade de administrar as próprias emoções e de comunicar-se, saber falar
e saber ouvir. Conflitos familiares ou entre o casal podem tornar o ambiente
mais propício para abusos contra crianças. E o fator cultural também influi,
pois determina o que é tolerável e até necessário fazer com uma criança.
As consequências dos maus-tratos vão muito além do
aspecto físico e do momento atual, necessitando do amparo de diversos profissionais como psicólogos,
assistentes sociais e intervenção jurídica. Os médicos e enfermeiros devem
relatar as suspeitas para as autoridades competentes.
As vítimas mostram traços negativos em seu
comportamento, como autodepreciação, dificuldades escolares, depressão e
dificuldades de relacionamento. Nos casos em que não voltaram a morar com os
antigos responsáveis, as crianças apresentam sensível melhora em comparação com
aquelas que retornam ao núcleo original. Mas ainda assim seu desenvolvimento
psicológico é prejudicado.
A rotina de maus-tratos pode gerar um círculo
vicioso, em que a criança abusada de hoje se torna o adulto abusador ou o
adulto cúmplice passivo de amanhã. O impacto na criança (e na futura pessoa
adulta) vai além dos distúrbios comportamentais e emocionais, afeta todos os
seus paradigmas a respeito de si mesma, dos relacionamentos e da vida. Pode
tornar-se uma pessoa agressiva e abusadora ou uma pessoa fraca e medrosa.
Os abusos na infância podem contribuir na vida adulta para problemas psicológicos (como a depressão), distúrbios alimentares, maior suscetibilidade ao abuso de álcool e de drogas, comportamentos sexuais de risco, condutas ineficientes no trabalho e relacionamentos pessoais disfuncionais. Contando todos os custos no decorrer da vida, os abusos contra crianças custam muito mais caro para o país do que se pode imaginar.
Os abusos na infância podem contribuir na vida adulta para problemas psicológicos (como a depressão), distúrbios alimentares, maior suscetibilidade ao abuso de álcool e de drogas, comportamentos sexuais de risco, condutas ineficientes no trabalho e relacionamentos pessoais disfuncionais. Contando todos os custos no decorrer da vida, os abusos contra crianças custam muito mais caro para o país do que se pode imaginar.
Entretanto as consequências variam em cada caso. É
raro uma criança sofrer apenas um dos tipos de abusos supracitados, embora um tipo
possa ser predominante. A forma dos abusos, o tempo que estes duraram e outras
variáveis (que nunca são idênticas de um caso para outro) combinam-se com a
predisposição genética singular da criança e os fatores ambientais peculiares
dela (incluindo fatores positivos, como pessoas da família, professores e
outros adultos que ajudem a atenuar o traumatismo psicológico). Em resumo, cada
caso é único, embora haja aspectos em comum. E é óbvio que nem todo mundo que
têm algum dos problemas citados anteriormente sofreram graves abusos na
infância.
As estratégias para o combate ao abuso de crianças
são fragmentadas, cada instituição abordando um aspecto diferente do problema e
deixando os outros descobertos. A UNICEF defende a criação de um sistema mais
abrangente e estrutural, que cuide das causas primordiais e não apenas dos
sintomas, que trate da família e da sociedade e não apenas da criança e que
promova a prevenção e não apenas a remediação.
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