sábado, 15 de junho de 2013

Treinamento Para a Infelicidade (3/5): A Caixa de Skinner Sóciocultural

Este sentimento (difuso ou contundente) de insatisfação crônica e angústia não é exclusividade sua. Muitas pessoas experimentam insatisfações semelhantes. Apesar de cada um de nós ser um indivíduo único, sem ninguém exatamente igual a si, todos nós compartilhamos características humanas básicas, que variam dentro de certo espectro. Nossa individualidade é formada pela combinação sistêmica dessas características.
 
Assim, por maior que seja a variedade individual entre as pessoas, ela é limitada pelos parâmetros do nosso alicerce compartilhado: antes de tudo, somos todos fundamentalmente homo sapiens. E membros de uma espécie submetidos a determinadas circunstâncias apresentarão um dado conjunto de reações. Haverá diferenças individuais, mas dentro de um escopo.
 
Por exemplo, o que acontece se colocarmos um rato com sede em uma caixa com uma barra que lhe dá uma gota de água? Ele vai examinar o ambiente da caixa para conhecê-lo, certificando-se de que está seguro e procurando água, que não encontrará imediatamente. Estar com sede em uma caixa sem água é estressante para o rato, que vai continuar vasculhando o ambiente em busca dela ou de alguma saída.
 
Mais cedo ou mais tarde esse rato vai pressionar a barra, a gota de água será fornecida e ele vai bebê-la, aliviando a sede e o estresse. Logo o rato aprenderá a relação barra/água e sempre que tiver sede vai pressionar a alavanca até satisfazer-se. Porém, os ratos diferenciam-se individualmente. Alguns ratos demoram mais que outros para pressionar a barra pela primeira vez. E alguns ratos demoram mais para aprender a relação barra/água. Mas o processo básico é esse.
 
Essa experiência já foi feita inúmeras vezes em muitas versões mais complexas e recebe o nome de “caixa de Skinner” em homenagem a um dos principais teóricos do Behaviorismo, a abordagem da psicologia que se concentra no comportamento (a interação do organismo com o ambiente).
 
Claro que o ser humano é absurdamente mais complexo em sua capacidade cognitiva do que um rato ou qualquer outro animal. Porém, o homo sapiens ainda é um organismo biológico com necessidades básicas que precisam ser satisfeitas minimamente para preservar sua existência e saúde e que é inserido em algum ambiente que proporciona (ou não) oportunidades de satisfazer essas necessidades, além de possíveis perigos que deve evitar.
 
Em várias espécies os indivíduos vivem distantes uns dos outros e só se reúnem para o acasalamento. Outras espécies são gregárias, ou seja, vivem em comunidades. É o caso do homo sapiens, que é um ser social. A vida em sociedade requer que os seus membros submetam-se a regras sociais, mas de modo geral os benefícios compensam os custos.
 
Pense em um homem perdido, sozinho e isolado em uma ilha no meio do Pacífico. É possível sobreviver, especialmente se ele tiver um curso de sobrevivência. Mas não disporia de recursos básicos que a vida em sociedade fornece. Caso fique doente ou se acidente, não haverá quem o ajude. E o isolamento forçado e a falta de expectativa de livramento poderiam perturbar seu psicológico. Nós necessitamos interagir com outros para vivermos bem. Mas essa interação pode ser fonte de mal-estar também.
 
Assim, nossos relacionamentos formam nossos ambientes humanos nos quais interagimos para satisfazer nossos diversos tipos de necessidades humanas. E estes ambientes nos estimulam a apresentar determinados comportamentos para atingirmos esse objetivo. E às vezes os estímulos podem ser para comportamentos autossabotadores.
 
Somos estimulados a sacrificar nosso bem-estar no longo prazo em prol do prazer imediato, a valorizar o que não possui valor real, a buscar objetivos que dificilmente alcançaremos e que não trarão a satisfação prometida, a nos autoavaliar por padrões tolos. Somos punidos por fazer o que nos dizem para fazer e recompensados por fazer o que dizem para não fazermos.
 
 
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