Este sentimento (difuso ou contundente) de insatisfação crônica e
angústia não é exclusividade sua. Muitas pessoas experimentam insatisfações semelhantes.
Apesar de cada um de nós ser um indivíduo único, sem ninguém exatamente
igual a si, todos nós compartilhamos características humanas básicas, que
variam dentro de certo espectro. Nossa individualidade é formada pela
combinação sistêmica dessas características.
Assim, por maior que seja a variedade individual entre as pessoas, ela é
limitada pelos parâmetros do nosso alicerce compartilhado: antes de tudo, somos
todos fundamentalmente homo sapiens. E membros de uma espécie submetidos a
determinadas circunstâncias apresentarão um dado conjunto de reações. Haverá
diferenças individuais, mas dentro de um escopo.
Por exemplo, o que acontece se colocarmos um rato com sede em uma caixa
com uma barra que lhe dá uma gota de água? Ele vai examinar o ambiente da caixa
para conhecê-lo, certificando-se de que está seguro e procurando água, que não
encontrará imediatamente. Estar com sede em uma caixa sem água é estressante
para o rato, que vai continuar vasculhando o ambiente em busca dela ou de
alguma saída.
Mais cedo ou mais tarde esse rato vai pressionar a barra, a gota de água
será fornecida e ele vai bebê-la, aliviando a sede e o estresse. Logo o rato
aprenderá a relação barra/água e sempre que tiver sede vai pressionar a alavanca
até satisfazer-se. Porém, os ratos diferenciam-se individualmente. Alguns ratos
demoram mais que outros para pressionar a barra pela primeira vez. E alguns ratos
demoram mais para aprender a relação barra/água. Mas o processo básico é esse.
Essa experiência já foi feita inúmeras vezes em muitas versões mais complexas
e recebe o nome de “caixa de Skinner” em homenagem a um dos principais teóricos
do Behaviorismo, a abordagem da psicologia que se concentra no comportamento (a
interação do organismo com o ambiente).
Claro que o ser humano é absurdamente mais complexo em sua capacidade
cognitiva do que um rato ou qualquer outro animal. Porém, o homo sapiens ainda
é um organismo biológico com necessidades básicas que precisam ser satisfeitas
minimamente para preservar sua existência e saúde e que é inserido em algum
ambiente que proporciona (ou não) oportunidades de satisfazer essas
necessidades, além de possíveis perigos que deve evitar.
Em várias espécies os indivíduos vivem distantes uns dos outros e só se
reúnem para o acasalamento. Outras espécies são gregárias, ou seja, vivem em
comunidades. É o caso do homo sapiens, que é um ser social. A vida em sociedade
requer que os seus membros submetam-se a regras sociais, mas de modo geral os
benefícios compensam os custos.
Pense em um homem perdido, sozinho e isolado em uma ilha no meio do
Pacífico. É possível sobreviver, especialmente se ele tiver um curso de sobrevivência.
Mas não disporia de recursos básicos que a vida em sociedade fornece. Caso
fique doente ou se acidente, não haverá quem o ajude. E o isolamento forçado e
a falta de expectativa de livramento poderiam perturbar seu psicológico. Nós
necessitamos interagir com outros para vivermos bem. Mas essa interação
pode ser fonte de mal-estar também.
Assim, nossos relacionamentos formam nossos ambientes humanos nos quais
interagimos para satisfazer nossos diversos tipos de necessidades humanas. E
estes ambientes nos estimulam a apresentar determinados comportamentos para
atingirmos esse objetivo. E às vezes os estímulos podem ser para comportamentos
autossabotadores.
Somos estimulados a sacrificar nosso bem-estar no longo prazo em prol do
prazer imediato, a valorizar o que não possui valor real, a buscar objetivos
que dificilmente alcançaremos e que não trarão a satisfação prometida, a nos
autoavaliar por padrões tolos. Somos punidos por fazer o que nos dizem para
fazer e recompensados por fazer o que dizem para não fazermos.
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