segunda-feira, 1 de junho de 2015

Intenção e Reforço


A explicação histórica e o raciocínio em termos de população andam lado a lado, pois a composição de uma população se explica, em última análise, por sua história de seleção – seja a seleção natural operando sobre uma população de organismos, seja o reforço e a punição operando sobre uma população de ações.

Embora seja geralmente reconhecido que eventos na infância podem afetar o comportamento na vida adulta, na linguagem cotidiana há uma tendência a representar o passado com ficções no presente. Isso é mentalismo e de modo algum ajuda na compreensão científica do comportamento.


A tentação de recorrer ao mentalismo surge da predisposição para explicar o comportamento recorrendo a causas presentes no momento em que ele ocorre. A maneira de evitar o mentalismo é superar essa predisposição e admitir que eventos no passado podem afetar o comportamento no presente, mesmo que o presente e o passado estejam separados por uma lacuna temporal. A brecha cronológica de modo algum diminui a utilidade de entender o comportamento atual à luz da história passada.

As ações específicas do presente pertencem a populações (categorias funcionais) que têm uma história compartilhada por causa de sua função compartilhada. Categorias funcionais frequentemente são tratadas como unidades. Espécies e operantes são exemplos dessas unidades.

Ações pertencem à mesma categoria funcional de comportamentos se compartilham contextos e consequências similares. Embora cada ato específico nunca tenha ocorrido antes, cada um pertence a alguma unidade funcional que tem uma história de ocorrências em certo tipo de contexto e com certo tipo de consequências.

A maioria dos usos da palavra “intenção” e outras expressões intencionais relacionadas pertence a um de três tipos: (1) função, (2) causa e (3) sentimento. Quando a intenção de um ato é identificada com sua função, com seu efeito sobre o ambiente, não há nenhum problema para uma explicação científica. Quando a intenção é vista como uma causa interna, imagina-se que uma representação fantasmagórica das consequências está presente no momento da ação.

Para o behaviorismo, um evento futuro não pode explicar o comportamento, mas a invenção de uma causa interna também não explica porque isso é mentalismo e presa fácil de todos os problemas daí decorrentes. Uma explicação científica apropriada do comportamento (como procurar um livro) refere-se à história de reforço de tal comportamento. O comportamento criativo (como escrever poesia) também é modelado por sua história de reforço.

Os autorrelatos de sentimentos ou de intenção têm por base eventos ambientais presentes e privados. Eles consistem em predições sobre quais eventos provavelmente serão reforçadores e qual comportamento provavelmente será reforçado. Essas predições sempre são baseadas na ocorrência passada de reforço.

Embora os autorrelatos sobre a intenção experimentada possam dar a impressão de se referir ao futuro, eles na verdade referem-se ao seu passado. Quando atuam como “dicas” para autorrelatos, os sentimentos são eventos de sentir privados. Eles são subprodutos devido ao condicionamento clássico, da mesma história de reforço e punição do comportamento operante a que os relatos se referem. Não têm uma relação causal com aquele comportamento operante, embora possam ser parte do contexto que explica o relato verbal de uma intenção experimentada.

Extraído de “Compreender o Behaviorismo”, de Willian Baum - Artmed



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