segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Valores, Religião e Ciência


Os analistas comportamentais abordam questões relativas a valores focalizando o que as pessoas fazem e dizem sobre situações e ações que são chamadas “boas” ou “más”, “certas” ou “erradas”. O relativismo moral (ideia segundo a qual os rótulos de “bom” e de “mal” variam arbitrariamente de cultura para cultura e de época para época, surgindo estritamente como convenções sociais) é rejeitado tanto por pensadores religiosos quanto por analistas comportamentais. Ambos os grupos se mostram favoráveis a padrões universais, princípios que todos os seres humanos compartilham. C.L. Lewis, pensador religioso, defendeu a ideia de que todos nós temos uma noção das regras de como nos comportar, mesmo que frequentemente as violemos. Os analistas comportamentais também reconhecem esses princípios universais de comportamento decente, na forma de altruísmo e da reciprocidade. Porém, Lewis diverge dos analistas comportamentais na questão das origens. Enquanto os pensadores religiosos veem os padrões de “certo” e “errado” como emanados de Deus, os analistas do comportamento veem esses padrões como oriundos da história evolutiva, tal como Skinner.

Segundo a regra prática de Skinner sobre o “bom” e o “mau”, situações chamadas de “boas” são reforçadores positivos, enquanto situações chamadas de “ruins” são reforçadores negativos. As “boas ações” são recompensadas e as “más ações” são punidas. Embora reforçadores e punidores incondicionais e as ações a eles associados venham a ser chamados “bons” e “maus” devido à forma como são construídos nosso mundo e nosso organismo, muitas situações e ações também são chamadas de “boas” ou de “más” devido ao nosso ambiente social, visto que grande parte do reforço ou punição de nossas ações vem de outras pessoas. Desde cedo na infância, essas pessoas não somente ensinam reforçadores e punidores condicionais, mas também nos ensinam a chamar de “mau” aquilo que gera punição e de “bom” aquilo que gera reforço positivo à ação ou situação.

A história de reforço e punição do indivíduo explica porque ele rotula certas situações e ações de “boas” ou “ruins” e também porque ele se sente bem ou mal a respeito delas. As pessoas dizem que se sentem mal em situações nas quais o seu comportamento foi punido. Os eventos fisiológicos chamados “sentimentos” funcionam junto com o contexto público como estímulos discriminativos que induzem esses relatos. As pessoas dizem sentir-se bem por razões análogas, em situações nas quais o seu comportamento foi reforçado. Os sentimentos não explicam a fala sobre o “bom” e o “mau”; na verdade, os eventos fisiológicos e os relatos sobre sentir-se bem ou mal provêm de um histórico de reforços e punições paralelo e parcialmente sobreposto ao histórico que gera o discurso sobre ações, objetos e situações “bons” e “maus” (isto é, julgamentos de valor). Os julgamentos de valor, o que é especialmente claro quando envolvem termos como “deve” ou “deveria”, são regras (estímulos discriminativos verbais) que indicam contingências últimas que são sociais, originam-se das práticas do grupo a que o ouvinte pertence.

Quando inquiridos sobre a origem dos reforçadores e punidores, principalmente os sociais, os analistas do comportamento respondem que ela está na seleção natural. Os genes que tornaram esses eventos reforçadores ou punidores, desse modo promovendo o sucesso reprodutivo dos indivíduos deles portadores, seriam selecionados. Assim se explica não apenas porque o gosto doce e o orgasmo são reforçadores, mas também porque ajudar pessoas de sua família (ainda que se sacrificando) é reforçador. O altruísmo para com pessoas que não tem parentesco depende dos benefícios no longo prazo para o benfeitor. A pessoa até então desconhecida retribui de alguma forma e/ou as práticas grupais determinam que outros membros do grupo forneçam o reforço último. De qualquer forma, o altruísmo ao final beneficia o próprio altruísta (é reforçado).

No contexto dessas contingências sociais, as imposições éticas constituem estímulos discriminativos verbais (regras) que resultam em reforço ou punição social. A análise comportamental pode ajudar nossa sociedade a trabalhar por uma “vida plena”, oferecendo formas de identificar e implementar melhores contingências sociais.

Extraído de “Compreender o Behaviorismo”, de Willian Baum - Artmed



* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: