A cultura de um grupo
consiste em comportamento aprendido compartilhado pelos componentes do conjunto,
adquirido como resultado de pertencer ao membro e transmitido de um membro ao
outro. O desenvolvimento da cultura ocorre de maneira análoga à modelagem do
comportamento operante e à evolução genética: variação associada com
transmissão seletiva. As unidades da seleção (os elementos que variam e são
seletivamente transmitidas) são os replicadores. Um replicador é qualquer
entidade capaz de produzir cópias de si mesma. Um bom replicador possui (1)
longevidade, (2) fecundidade. (3) fidelidade de cópia e (4) eficácia.
Um requisito para a
existência de cultura é a existência da sociedade. Uma verdadeira sociedade
inclui cooperação: comportamento altruísta que beneficia outros no curto prazo
e o benfeitor no longo prazo. Um segundo requisito para a existência de cultura
é a capacidade dos membros de aprender uns com os outros, pois essa é a maneira
pela qual os traços culturais são transmitidos ao longo do tempo.
Na evolução genética, o
conjunto de replicadores que todos os organismos de uma população possuem é
conhecido como “conjunto gênico populacional”. Na evolução da cultura, o
conjunto de características que uma sociedade possui é chamado de “conjunto de
traços culturais”. Esses caracteres constituem os replicadores da cultura e, à
medida que eles são transmitidos no conjunto de traços culturais, suas
frequências podem aumentar ou diminuir, dependendo da regularidade com que são
aprendidos.
Quando aprender com o
outro beneficia no longo prazo como ocorre na nossa espécie, os genes do
aprendiz que possibilitam essa aprendizagem serão selecionados. Três características
com esse perfil são (1) limites do estímulo, (2) imitação e (3) reforçadores
sociais. Nossos organismos são feitos de tal forma que estamos sintonizados com
os estímulos produzidos por outras pessoas, tais como expressões faciais e os
sons em nosso idioma. Se um organismo imita outro e o resultado é reforçador,
então a aprendizagem operante rapidamente ocorre. Reforçadores sociais
(sorrisos, tapinhas nas costas, abraços, etc.) permitem uma aprendizagem a
partir do outro ainda mais rápida, pois eles introduzem as práticas de ensino e
instrução.
Os replicadores culturais
são as ações de membros do grupo passadas de um indivíduo para o outro, por
imitação e treinamento. Essas unidades são definidas funcionalmente como os
operantes porque elas são operantes. Incluem não apenas práticas não-verbais
(como seleção e produção de alimentos), mas também comportamentos verbais
(contar histórias, citar provérbios, ditar imposições morais, etc.). Essas
práticas verbais são úteis porque são regras ou instruções análogas às regras
por fornecerem estímulos discriminativos indutores de comportamentos que são
socialmente reforçados. As culturas dos seres humanos incluem práticas de (1)
seguir regras, (2) prescrever regras e (3) formular regras. Essas três práticas
dependem de contingências de reforço organizadas por outras pessoas,
contingências sociais que, a partir do comportamento que produzem, podem
constituir o grupo mais importante de replicadores da cultura humana.
O primeiro ingrediente da
teoria da evolução é a variação. Da
mesma maneira que os genes variam, os replicadores culturais também oscilam
dentro de uma escala de diversidade. Tal como os acidentes genéticos, os
acidentes comportamentais são ocasionalmente benéficos. Assim como um conjunto
gênico populacional, um conjunto de traços culturais pode se beneficiar da
migração.
O segundo ingrediente da
teoria da evolução é a transmissão.
Porém, diferentemente da transmissão genética, a transmissão cultural significa
herdar traços adquiridos. As possibilidades de transmissão cultural excedem em
muito àquelas da transmissão genética, pois aqueles que transmitem uma prática
cultural (os “pais” culturais) não precisam possuir qualquer conexão genética
com aqueles que a recebem (os “filhos” culturais). A transmissão cultural
também difere da transmissão genética na medida em que esta ocorre apenas no instante
da concepção, enquanto a primeira pode ocorrer em qualquer momento da vida. A
existência de muitas fontes e de muitas oportunidades de transmissão cultural
significa que a evolução cultural acontece muito mais rapidamente do que a
evolução genética. Problemas sociais surgem quando a evolução cultural muda o
ambiente de tal modo que os mecanismos que aumentavam a aptidão no antigo
ambiente tornam essa mesma prática prejudicial no novo ambiente. Quando tais
problemas surgem, novas práticas tendem a serem desenvolvidas para
contrabalançá-los.
A transmissão cultural
ocorre por imitação e por regras. A imitação aprendida é uma forma de comportamento
controlado por regras. As crianças aprendem o comportamento de seguir regras
porque a transmissão de práticas sociais através do seguimento de regras é
especialmente rápida.
O terceiro ingrediente da
evolução cultural é a seleção, que
acontece porque a transmissão é seletiva. Se é provável que um organismo entre
em contato com ambientes diversos, então poderia ocorrer o desenvolvimento de
mecanismos através dos quais a transmissão seria dirigida para a recepção de
práticas bem-sucedidas em determinado ambiente. Um critério provável de
“sucesso” é a frequência: as pessoas imitam práticas frequentemente observadas,
assim como imitam indivíduos com que se deparam muitas vezes. O seguimento de
regras pode ser seletivo de um modo ainda mais diretamente relacionado ao
“sucesso” se as pessoas se inclinarem a seguir regras que provêm de outros cujo
comportamento é frequentemente reforçado.
A ideia de que as
práticas culturais são replicadores análogos aos genes ajuda a explicar porque
as pessoas frequentemente agem em seu próprio prejuízo para o bem da família ou
da comunidade. Práticas “desprendidas”, costumes abnegados (doar dinheiro,
tempo, esforços e até arriscar a própria vida) continuarão parte da cultura
contanto que as consequências para esses comportamentos sejam (em média e em
longo prazo) reforçadoras. Em última análise, os reforçadores sociais que
mantêm tais práticas derivam dos efeitos dessas mesmas práticas sobre a aptidão
dos genes.
Extraído de “Compreender o Behaviorismo”, de Willian Baum - Artmed
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