Todos os dias fazemos e ouvimos afirmações e perguntas que expressam crenças e valores. Citamos máximas, comparamos e tiramos conclusões, aprovamos ou desaprovamos algo que vemos ou ouvimos, fazemos escolhas baseadas em nossas razões e emoções.
Perguntamos para alguém que horas são ou que dia é hoje, dizemos que uma pessoa está “sonhando” ou “ficou maluca”, elogiamos a sabedoria de um conhecido, admiramos a beleza de uma casa ou árvore. Em uma conversa, falamos de causas e efeitos de um evento, podemos dizer que certa afirmação não é verdade, ou não é lógica ou pedir para o emissor ser mais objetivo. Todos nós aceitamos essas expressões e em geral respondemos a elas sem grandes dificuldades. Entretanto, elas escondem enigmas.
Por exemplo, quando perguntamos as horas ou em que dia estamos, pressupomos que existe algo chamado “tempo” que pode ser e é medido de acordo com um padrão de contagem que de alguma forma foi constituído e é seguido por todos. Pressupomos conceitos como “presente, “passado” e “futuro” e valores como “pontualidade”. Portanto, uma pergunta que fazemos e respondemos tão facilmente contém muitas crenças que em geral nunca cogitamos. O mesmo vale para afirmações envolvendo estar desperto em vez de sonhando (literal ou figurativamente), sanidade ou insanidade, sabedoria ou tolice, verdade ou engano, objetividade e subjetividade e muitos outros conceitos que passamos a vida utilizando e aceitando sem questionar.
Mas imagine se alguém, em vez de perguntar ou responder que hora ou dia é agora, questionasse o que é o tempo. Ou se, em vez de debater sobre se algo é certo ou errado, indagasse o que faz algo ser certo ou errado. Ou que questionasse o que é “beleza”, “objetividade”, “verdade”, etc. Esse indivíduo estaria se distanciando mentalmente da vida cotidiana, de si mesmo e de tudo que existe e analisando o que são as crenças e valores, o que nos faz acreditar ou valorizar X em vez de Y e o que faz outros pensar o contrário, estaria questionando nossa própria percepção da realidade. Estaria manifestando a atitude filosófica.
A atitude filosófica se recusa a aceitar de forma passiva, automática e cega as idéias do senso comum que nos repassam e que a maioria aceita como óbvias. Recusa afirmações dogmáticas do tipo “isso é ou tem que ser assim porque sempre foi assim e sempre vai ser assim e ponto final”. Recusa os prévios conceitos. Em vez disso, a atitude filosófica possui um senso crítico no sentido de fazer os questionamentos supracitados sobre nossas crenças e valores, sobre partes da realidade e a respeito da existência, sobre o que é e o que poderia ou deveria ser.
A atitude filosófica começa com a admissão sincera de nossa ignorância, o reconhecimento de que nada sabemos, assim como Sócrates fez. Prossegue com o distanciamento mental da realidade que nos permite questionar tudo. Mantém-se com o espanto diante de aspectos da realidade que a maioria aceita como sendo banais e simplesmente sendo como são, sem refletir a respeito. O indivíduo que desenvolve a atitude filosófica aprende a pensar como um visitante de outro Universo totalmente diferente e que fica assombrado com os detalhes de nossa vida, sobre como somos e como pensamos e agimos.
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