terça-feira, 1 de maio de 2012

Utilidade Prática e Métodos da Filosofia


Muitos questionam a utilidade da filosofia. Poucos interrogam sobre qual é a serventia da ciência, da arte (incluindo a indústria do entretenimento) e da religião. Mas a filosofia é acusada de ser inútil para a vida prática. Uma piada diz que "Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual tudo continua na mesma". Muitos pensam que ser filósofo significa viver em devaneios sobre assuntos que quase ninguém entende e sem serventia além de ser um passatempo intelectual. É fácil ver a utilidade da ciência, pois a tecnologia está presente em tudo. As obras de artes também são visíveis (ou audíveis). A religião pode auxiliar as pessoas. Mas a filosofia parece não ter utilidade porque aparentemente não produz nada tangível e imediato.
 
Porém, a ciência só existe e funciona porque os cientistas possuem determinadas crenças e valores (como a racionalidade intrínseca da Natureza e a possibilidade e necessidade de resolver determinados problemas através de determinados métodos) e seguem diretrizes de pensamento racional e intuitivo, além da ética. Ou seja: embora a maioria não perceba, a ciência depende da filosofia, se fundamenta nela. Assim, se a ciência é necessária, a filosofia também é.

A filosofia também é utilizada como base das artes e da religiosidade: toda obra de arte e toda crença religiosa (incluindo o ateísmo) pressupõe determinados pressupostos filosóficos. O mesmo ocorre com todos os nossos relacionamentos, objetivos, valores: a filosofia está sultilmente em todos os assuntos e campos da vida humana.

A filosofia nos ensina a pensar com qualidade e conteúdo, a diferenciar e comparar de modo válido, a refletir, a viver bem com nós mesmos e com os outros, a fazer boas escolhas. A atitude filosófica nos ensina a tirar o cérebro do piloto automático e a fazer reflexões profundas sobre o que é a realidade e como ela funciona.

Se feitas regularmente e com qualidade, essas reflexões influem poderosamente em nosso modo de pensar e agir, sobre nossas metas e valores na vida, sobre como interagimos com os outros e sobre como reagimos ao que as circunstâncias atuais nos apresentam.

A atitude filosófica nos leva a indagar em profundidade o quê realmente é algo, como funciona e porque é assim, suas causas e conseqüências. Mais profundamente ainda, a atitude filosófica nos leva a investigar os próprios processos de pensamento e conhecimento e como eles funcionam através da linguagem, a mergulhar em busca do autoconhecimento mais abismal.

A atitude filosófica também investiga nosso relacionamento com as outras pessoas, com a sociedade, com a Natureza, com os fatos da vida dentro e fora de nosso controle. A atitude filosófica investiga os princípios, meios e fins, os conteúdos e sentidos de nossos pensamentos e ações, a origem, estrutura e essência de tudo que existe.

Entretanto, as indagações filosóficas não são feitas aleatoriamente ou conforme nossas preferências arbitrárias. A genuína atitude filosófica não significa dar palpites irresponsáveis, devanear, fazer pesquisas de opinião (como se a verdade e a ética fossem decididas por maioria de votos) ou especular ao acaso. Em vez disso, a filosofia trabalha com pensamento sistemático, enunciados rigorosos feitos a partir de observação acurada e reflexão profunda e encadeados com lógica válida. O pensamento sistemático fornece fundamentação racional para as conclusões e produz um senso crítico diferenciado do senso comum. É um trabalho intelectual que exige que não apenas as respostas, mas também as próprias perguntas sejam feitas com rigor lógico, interligação, coerência, clareza e veracidade.

Assim, para alguém poder dizer que “possui uma filosofia” no pleno sentido da palavra, não basta possuir um conjunto vagamente coerente de crenças, valores, diretrizes e critérios. Qualquer pessoa possui um conjunto desses, com maior ou menor conteúdo e qualidade, mas apenas isso não faz de alguém um filósofo. Porém, já é um começo. Apenas não podemos estacionar nesse nível básico que pertence ao senso comum. Precisamos nos aprofundar como pensadores qualitativos para sermos filósofos. Mas esta afirmativa do senso comum indica que as pessoas já possuem alguma noção do que é a filosofia: uma operação sistemática de idéias e princípios feita com coerência lógica, algo que todos já fazem em alguma medida no cotidiano, mas de forma fragmentada, intuitiva, não treinada.

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