domingo, 15 de julho de 2012

Behaviorismo e Terapia Comportamental

Muitas pessoas não sabem que dentro da Psicologia existem outras abordagens além da Psicanálise. Relativamente poucos leigos conhecem o Behaviorismo e dentre estes muitos possuem uma visão fragmentada e incorreta dele. Para piorar, quando terapeutas comportamentais aparecem em filmes, seriados e desenhos animados americanos, a apresentação costuma ser estereotipada.
 

A terapia comportamental é nova comparada com a Psicanálise. Este é um dos fatores pelos quais sua divulgação em universidades e cursos de formação no Brasil ainda é pequena e menor ainda entre a população geral. Há pouco material de qualidade para leigos nas livrarias brasileiras. Mesmo para profissionais, boa parte do material disponível é sobre transtornos psiquiátricos e não sobre problemas do cotidiano.
 
O mais exato é falar em terapias comportamentais (plural), pois diversas linhas surgiram a partir da matriz filosófica e científica do Behaviorismo Radical criado por B. F. Skinner, que determina que o objeto de estudo da Psicologia é o comportamento (observável ou não) e que o comportamento pode e deve ser estudado por métodos científicos.

O termo “radical” aqui não se relaciona com “fanatismo”, mas com o sentido etimológico de “radical”, que é “raiz”: o comportamento é a raiz ou alicerce da psicologia. Skinner foi diferente de behavioristas anteriores por estudar os “comportamentos encobertos” (pensamentos, sonhos, etc.) e por superar o modelo pavloviano de que os estímulos determinam as respostas, explicando que há o “comportamento respondente”.
 
Três diretrizes do Behaviorismo são:
  • Pragmatismo- O valor de uma ideia está nas consequências concretas de seu uso. Baseia-se na psicologia de William James, que determinou a opção de dispensar estruturas metafísicas para explicar o comportamento, atendo-se a hipóteses verificáveis;
  • Funcionalismo- Os eventos devem ser estudados como fenômenos contextualizados. Baseia-se no Funcionalismo da Física de Ernst Mach, que inspirou o conceito de “análise funcional”;
  • Evolucionismo- Os comportamentos são reforçados mediante suas consequências adaptativas. Baseia-se na Teoria da Evolução de Darwin, que serviu de modelo para Skinner para o conceito de “comportamento operante”, em que os comportamentos são reforçados mediante as consequências que geram em seu meio.

Um dos maiores diferenciais da terapia comportamental é que ela possui base experimental, fundamenta-se em pesquisas que permitem verificar a validade de suas premissas. Os procedimentos já foram alvos de estudos científicos em laboratórios e em casos controlados. A base experimental começou com a Lei do Efeito de Thorndike (“Uma ação de efeito positivo será repetida”) e o “Comportamento Operante” de Pavlov (“Comportamentos ocorrem por respostas a estímulos”).
 
Mais tarde, depois de alguns precursores do Behaviorismo Radical como Watson, outros pesquisadores avançaram a partir desses dois conceitos básicos, em especial Skinner com o “Condicionamento Operante” (Comportamentos ocorrem porque são reforçados por diferentes esquemas, mediante as consequências que geram no ambiente). Catania estudou o aprendizado e a linguagem, enquanto Sidman alertou contra os perigos de se utilizar a coerção. Diversas modalidades de terapias comportamentais surgiram no decorrer das décadas.
 
Nos anos 1960, o psicólogo Eyenck criou uma modalidade terapêutica que chamou de “terapia comportamental”, apesar de não ter nenhuma relação com o Behaviorismo. Afirmava que “eliminando-se os sintomas, obtém-se a cura”. Por causa da confusão dos nomes, propagou-se a ideia errônea de que o Behaviorismo limita-se à eliminação dos sintomas.
 
Nos anos 80 e 90 surgiram as terapias cognitivo-comportamentais (TCC) como uma tentativa de unir as técnicas cognitivas com as comportamentais, mas estas terapias não se baseiam no Behaviorismo Radical. A TCC baseia-se fortemente em teorias cognitivas e ganhou força com a popularização da metáfora cérebro/computador.

Embora a TCC utilize técnicas comportamentais, possui divergências com o behaviorismo radical, como o papel que atribuem às emoções: enquanto para os cognitivistas as emoções geram comportamentos, para os behavioristas as emoções são pistas das contingências sob as quais o comportamento ocorre como consequência destas.
  
Os behavioristas explicam que exercer controle é tão inevitável quanto respirar, pois em todo momento cada ação de um indivíduo influencia o ambiente e os outros e vice-versa. Portanto, não se trata de uma questão de haver controle ou não, mas de como exercer o controle de forma não-coercitiva e limitadora da vida e sim de agir com ética de modos que aumentem o escopo de ação das pessoas.
 
O estereótipo do terapeuta comportamental é de alguém que vê o seu cliente com frieza e distanciamento científico. Em vez disso, a realidade é que o vínculo terapêutico e os sentimentos que ele acarreta são parte fundamental da terapia comportamental. Os sentimentos são parte vital do comportamento. O terapeuta comportamental é treinado para observar os sentimentos do cliente e os seus próprios e perguntar-se a todo instante que comportamentos geram estes estados. A terapia é uma interação de mútuos controles e modelagens de comportamento entre terapeuta e cliente, indicando padrões comportamentais do segundo.
 
Em vez de perder-se em modelos abstratos de psicopatologias e colocar “rótulos” nas pessoas, o terapeuta comportamental atém-se de forma pragmática à realidade do cliente, às contingências em que ele insere-se, como ele funciona em sua singularidade histórica dentro dos seus ambientes costumeiros. O terapeuta comportamental NÃO acredita que o cliente “é assim” porque “ele nasceu assim”, “ele sempre foi assim”, “faz parte de sua essência” e que “ele sempre será assim”. Acredita que todos possuem capacidade de aprender novos comportamentos e desenvolver-se.
 
O objetivo da terapia comportamental não é “curar transtornos mentais”, pois o conceito de “doença mental” é relativizado pelos behavioristas. Por “transtorno mental” entende-se um estado de sentimentos de mal-estar ao qual o cliente chegou por uma série de contingências que devem ser descobertas e corrigidas. Um cliente que seria rotulado por outros profissionais com algo como “portador de ansiedade generalizada”, na terapia comportamental é tratado como um indivíduo único com um mal-estar único e uma demanda única e que por isso precisa de procedimentos ajustados sobmedida para ele.
 
Os diagnósticos que se resumem a uma lista de sintomas não oferecem uma compreensão profunda do indivíduo, que por isso é chamado de “cliente” em vez de “paciente”. A meta da terapia comportamental não é “curar um paciente” e sim proporcionar bem-estar a um cliente através de mudanças profundas em seu comportamento. Começa com a estipulação de objetivos visando esse bem-estar e progride na medida em que cliente modifica-se para alcançar esse bem-estar, aprendendo novas e melhores habilidades para assumir um maior controle sobre sua vida.
 
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