Desde os 18 anos a austríaca Elisabeth Fritzl foi
mantida em cativeiro no porão de sua casa pelo seu próprio pai, sendo obrigada
a ter uma relação incestuosa com ele por 24 anos e tendo sete filhos, até ser
libertada em 2008. Infelizmente, casos de abuso sexual que duram anos e até
décadas não são raríssimos, mas sim raramente tornados públicos. Como é
possível?
O abuso sexual é literalmente
um vício. Pode ser feito de diversas formas, durante muito tempo e envolve toda
uma dinâmica familiar doentia, incluindo manipulação psicológica da vítima e
cumplicidade passiva dos demais membros da família. O abusador (ou abusadora)
sabe que sua prática é condenada pela sociedade, mas não consegue se livrar do
seu vício; a criança ou jovem é a sua droga e ele (ou ela) sempre quer novas
doses.
Para manter o segredo, o
abusador pode fazer ameaças e/ou dizer à vitima que, se ela revelar, isso vai
destruir a família. Desta forma a relação abusiva pode continuar por muito tempo.
E depois que o caso é descoberto e processado judicialmente, a “confissão” não
quer dizer que o abusador (ou abusadora) esteja “curado” ou arrependido.
Sim, mulheres também cometem abusos sexuais.
Sim, mulheres também cometem abusos sexuais.
A relação abusiva influencia os outros membros da
família, pois a proibição de revelar o que acontece vale para todos. Os demais
pressentem que há algo de errado ou talvez até saibam, mas é proibido tocar no
assunto. Além disso, o relacionamento abusivo muitas vezes constitui um fator
de equilíbrio na homeodinâmica doentia da família. Uma das formas pelas quais a
relação incestuosa mantém o equilíbrio familiar é pela evitação do conflito. A
família precisa manter um funcionamento global satisfatório e a aparência de
normal, o casamento é idealizado e é proibido reconhecer os verdadeiros
problemas.
Nestes casos ambos os pais podem voltar-se contra
uma criança específica e eleger outra como especial, com a qual o abusador
mantém o relacionamento incestuoso altamente secreto. Outra forma pela qual a
relação incestuosa mantém o equilíbrio familiar é servindo de regulador de
conflitos: o pai é mantido na família por causa do abuso. Vários filhos de
ambos os gêneros podem estar envolvidos, competindo pela atenção do abusador. A
família volta-se contra o mundo externo e contra os filhos.
O abuso sexual infantil é o envolvimento de uma
criança indefesa em uma atividade sexual além da capacidade atual de
compreensão dela. A criança (pode ser um menino também) sequer tem a capacidade
intelectual e/ou emocional de expressar o que acontece. Então os adultos
precisam prestar atenção nos sinais. O comportamento na escola pode ser muito
revelador: os desenhos, as dificuldades com as matérias e/ou de relacionamento
com os colegas, atitudes antissociais.
Entretanto, não há um comportamento padrão. Algumas
crianças vítimas de abuso podem ter um comportamento muito exemplar e serem
precoces. E nenhum dos itens citados é prova de abuso, podem ser sinais de
outros problemas familiares ou de nenhum. Porém, se for mesmo o caso, ela
precisa de intervenção das autoridades e de ajuda qualificada. Essa intervenção
causa transtornos, resultando na reforma do ambiente familiar e/ou na remoção
da criança para um ambiente seguro conforme o caso, mas se for feita adequadamente
poupará a criança de maiores danos e a auxiliará a ter um desenvolvimento
psicológico saudável.
O abuso sexual envolve questões como vergonha,
ocultação e conduta sexualmente proibida pela sociedade. As vítimas costumam
manifestar sintomas como autodepreciação, complexo de culpa, depressão, pensamentos
suicidas. Essas crianças crescem com uma fragilidade que permeia todas
suas futuras decisões e formação mental. Podem se tornar adultos que entrarão
em relacionamentos em que sofrerão mais abusos e/ou serão cúmplices passivos.
Ou podem se tornar eles próprios abusadores.
Mas não precisa ser assim. O desenvolvimento de
uma mentalidade doentia ou saudável depende da capacidade da vítima de
processar mentalmente e enfrentar o problema. Por sua vez, essa capacidade
depende da ajuda especializada que ela receber, além do apoio de outros. Quanto antes, melhor. Porém,
até mesmo adultos que tem sequelas de abusos na infância podem ser auxiliados
pela psicoterapia.
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