quarta-feira, 1 de maio de 2013

Maus-Tratos contra Crianças (4/4)



Desde os 18 anos a austríaca Elisabeth Fritzl foi mantida em cativeiro no porão de sua casa pelo seu próprio pai, sendo obrigada a ter uma relação incestuosa com ele por 24 anos e tendo sete filhos, até ser libertada em 2008. Infelizmente, casos de abuso sexual que duram anos e até décadas não são raríssimos, mas sim raramente tornados públicos. Como é possível?


O abuso sexual é literalmente um vício. Pode ser feito de diversas formas, durante muito tempo e envolve toda uma dinâmica familiar doentia, incluindo manipulação psicológica da vítima e cumplicidade passiva dos demais membros da família. O abusador (ou abusadora) sabe que sua prática é condenada pela sociedade, mas não consegue se livrar do seu vício; a criança ou jovem é a sua droga e ele (ou ela) sempre quer novas doses.

Para manter o segredo, o abusador pode fazer ameaças e/ou dizer à vitima que, se ela revelar, isso vai destruir a família. Desta forma a relação abusiva pode continuar por muito tempo. E depois que o caso é descoberto e processado judicialmente, a “confissão” não quer dizer que o abusador (ou abusadora) esteja “curado” ou arrependido.

Sim, mulheres também cometem abusos sexuais.

A relação abusiva influencia os outros membros da família, pois a proibição de revelar o que acontece vale para todos. Os demais pressentem que há algo de errado ou talvez até saibam, mas é proibido tocar no assunto. Além disso, o relacionamento abusivo muitas vezes constitui um fator de equilíbrio na homeodinâmica doentia da família. Uma das formas pelas quais a relação incestuosa mantém o equilíbrio familiar é pela evitação do conflito. A família precisa manter um funcionamento global satisfatório e a aparência de normal, o casamento é idealizado e é proibido reconhecer os verdadeiros problemas.

Nestes casos ambos os pais podem voltar-se contra uma criança específica e eleger outra como especial, com a qual o abusador mantém o relacionamento incestuoso altamente secreto. Outra forma pela qual a relação incestuosa mantém o equilíbrio familiar é servindo de regulador de conflitos: o pai é mantido na família por causa do abuso. Vários filhos de ambos os gêneros podem estar envolvidos, competindo pela atenção do abusador. A família volta-se contra o mundo externo e contra os filhos.

O abuso sexual infantil é o envolvimento de uma criança indefesa em uma atividade sexual além da capacidade atual de compreensão dela. A criança (pode ser um menino também) sequer tem a capacidade intelectual e/ou emocional de expressar o que acontece. Então os adultos precisam prestar atenção nos sinais. O comportamento na escola pode ser muito revelador: os desenhos, as dificuldades com as matérias e/ou de relacionamento com os colegas, atitudes antissociais.

Entretanto, não há um comportamento padrão. Algumas crianças vítimas de abuso podem ter um comportamento muito exemplar e serem precoces. E nenhum dos itens citados é prova de abuso, podem ser sinais de outros problemas familiares ou de nenhum. Porém, se for mesmo o caso, ela precisa de intervenção das autoridades e de ajuda qualificada. Essa intervenção causa transtornos, resultando na reforma do ambiente familiar e/ou na remoção da criança para um ambiente seguro conforme o caso, mas se for feita adequadamente poupará a criança de maiores danos e a auxiliará a ter um desenvolvimento psicológico saudável.

O abuso sexual envolve questões como vergonha, ocultação e conduta sexualmente proibida pela sociedade. As vítimas costumam manifestar sintomas como autodepreciação, complexo de culpa, depressão, pensamentos suicidas. Essas crianças crescem com uma fragilidade que permeia todas suas futuras decisões e formação mental. Podem se tornar adultos que entrarão em relacionamentos em que sofrerão mais abusos e/ou serão cúmplices passivos. Ou podem se tornar eles próprios abusadores.

Mas não precisa ser assim. O desenvolvimento de uma mentalidade doentia ou saudável depende da capacidade da vítima de processar mentalmente e enfrentar o problema. Por sua vez, essa capacidade depende da ajuda especializada que ela receber, além do apoio de outros. Quanto antes, melhor. Porém, até mesmo adultos que tem sequelas de abusos na infância podem ser auxiliados pela psicoterapia.


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