Então você encontrou um bom psicoterapeuta e começou a fazer tratamento
com ele ou ela. Diversos sentimentos e novas percepções surgem, nem todos
agradáveis, mas você de modo geral começa a se sentir melhor. Antigos padrões
de pensamento e comportamento passam a ser compreendidos, limitações passam a
ser expandidas e você começa pensar e agir diferente, vislumbrando a
possibilidade de levar uma vida satisfatória e produtiva.
Se você está aperfeiçoando seu modo de pensar e agir, isso será bom para
si mesmo e para as pessoas com quem se relaciona. É de se esperar que os demais
fiquem contentes com sua mudança, certo? Entretanto, nem sempre é isso que
acontece. Alguns de fato ficam contentes e dão todo o apoio que puderem. Mas algumas
pessoas podem sim reagir de diversas formas negativas ao fato de você estar
fazendo psicoterapia.
Essas reações vão desde a fria indiferença que desanima, passando por
várias formas diretas e indiretas de tentar dissuadi-lo de continuar o tratamento
(zombarias, críticas, “preocupações” [“ouvi dizer que acontece X ou Y com quem
faz terapia”], pedidos para que faça algo justo na hora da consulta,
etc.) e chegando até mesmo a oposição frontal. Às vezes, justamente as pessoas
que mais reclamavam do seu comportamento anterior são as que mais se incomodam
com suas mudanças para melhor! Por quê?
Em alguns casos a razão pode ser que não compreendem o que é a psicoterapia.
Talvez tenham as mesmas ideias preconcebidas que você próprio tinha antes de se
informar melhor e estejam sinceramente preocupados com seu bem-estar. Também é
comum ocorrer o ciúme: os amigos e parentes podem não entender porque você [na opinião deles] “não
confia mais neles” e em vez de se abrir com eles busca a ajuda de uma pessoa de
fora. Assim, com o tempo e boa comunicação as pessoas com quem interage verão
as mudanças positivas e poderão gradualmente ajustar seus conceitos sobre
psicoterapia.
Além disso, cada pessoa (e cada grupo de pessoas possui) paradigmas,
modelos mentais do mundo, um sistema de crenças e valores, um modo de ver a si
mesmo, aos outros e à vida. Enquanto todos em um grupo aceitam sem questionar
os paradigmas dominantes, essas cosmovisões permanecem inconscientes e
intocadas, (mesmo que causem sofrimentos desnecessários) e todos prosseguem a
vida no “piloto automático”.
Entretanto, quando um membro do grupo começa a modificar seu próprio
modo de pensar e (consequentemente) de agir, suas mudanças perturbam o sistema.
Os demais membros do grupo começam a captar que existem problemas que não
reconheciam e/ou a perceberem que existem soluções que nem imaginavam. Ele torna-se um "elemento perturbador".
Assim, mesmo que o indivíduo queira mudar apenas a si mesmo e nada diga
para mudar os demais, o seu exemplo positivo acende os porões escuros da
consciência deles. Alguns podem seguir o seu exemplo ou pelo menos aceitar
pacificamente que deveriam fazê-lo. Porém, outros não apreciam a percepção e
querem apagar a luz: não querem mudar e não querem que você mude para que o seu
bom exemplo não exponha os pontos fracos deles, ainda que essa exposição de
forma alguma seja sua intenção.
O fato é que a psicoterapia o está ajudando a desenvolver autoconhecimento
e autogerenciamento e assim a se tornar uma pessoa melhor. Isso incomoda outros
(1) porque impede a continuidade de antigos padrões doentios de relacionamento
e (2) porque seu exemplo expõe a falta de coragem, humildade e laboriosidade deles
para aceitar orientação profissional e mudar para melhor, obtendo maior
satisfação na vida e sendo íntegro e produtivo.
Seu exemplo e suas mudanças também expõem as deficiências e distorções
do grupo. Assim, você perturba a homeostase doentia do organismo que é o grupo,
que então reage para restabelecer a “normalidade”. De modo geral, quanto mais
fortes e duradouras forem as reações negativas de alguém, mais o relacionamento
com ele era distorcido e doentio.
Porém, essas reações negativas são esperáveis e devem ser compreendidas
para que você esteja preparado para lidar com elas construtivamente, com serenidade,
perseverança e empatia, sem sofrer em demasia por causa delas. Se agir assim,
com o tempo, provavelmente acontecerá que essas reações ficarão cada vez mais
atenuadas até extinguir-se e os demais passarão gradualmente a apreciar ou ao
menos aceitar que você faça psicoterapia e mudanças na sua forma de pensar e
agir.
Por fim, é bom saber que algumas supostas reações negativas dos outros
quanto ao fato de você estar fazendo psicoterapia são resultado da sua própria interpretação
distorcida do que eles dizem e fazem. Talvez você mesmo tenha sentimentos confusos quanto ao
tratamento e “coloque” pensamentos e palavras na mente e boca dos demais que na
realidade são suas expectativas afetando sua percepção. Você imagina que as
pessoas estão menosprezando você ou se opondo, mas na realidade para elas sua
terapia é um fato neutro ou até positivo.
Mantenha seu psicoterapeuta informado sobre as reações de parentes, amigos
e colegas quanto ao seu tratamento. Além de lhe orientar especificamente, ambos poderão
descobrir padrões de pensamento, de comportamento e de relacionamentos e assim você
crescerá em autoconhecimento, em habilidades sociais e em atitudes.

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