sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Montaigne e a Autoestima (2/2)


Mas não é só o julgamento dos outros que nos faz sentir-nos inadequados. Outro setor em que muitos se sentem oprimidos é a área intelectual, a percepção dolorosa de que não somos tão inteligentes quanto devíamos. As pessoas com formação superior são supostamente as mais brilhantes, mas Montaigne via de forma diferente.
 
Montaigne não dizia que os diplomas fossem inúteis, apenas que os símbolos exteriores podiam não condizer com a realidade. O tipo de inteligência que importava para ele é o que chamava de “sabedoria”. Afirmava que alguém pode ser sábio sem ter passado por uma universidade. Só é preciso ter humildade e aceitar sua limitação intelectual.
 
Pessoas genuinamente sábias são conscientes de que não precisam saber tudo. Aceitam que muitos fatores estão fora do seu controle. Aceitam as limitações do corpo e da mente. Montaigne conheceu muitos lavradores sem educação formal que eram mais sábias do que muitas pessoas formadas.
 
Claro que Montaigne não considerava todo aprendizado inútil. Apenas observou que muitos que foram à universidade não são necessariamente mais felizes e sábios do que as pessoas que não foram. E a experiência confirma que ele tem razão. A universidade proporciona muita informação e amplia a memória. Mas nem sempre aplicamos isso em nossa vida. Além disso, muitos assuntos importantes simplesmente não são considerados na maioria das escolas. Por exemplo:
  • Como conviver bem com as outras pessoas?
  • Como lidar com a ansiedade?
  • Como lidar com as realidades desagradáveis da vida?
  • Como terminar um relacionamento?
  • Como ser um bom pai, marido, etc.?
  • Como saber se estamos amando ou apaixonados?
  • Devemos nos preocupar com o que os outros pensam?
 
Claro que seria acreditar em um mito romântico crer que a pobreza e a ignorância são o segredo da felicidade. O que se está afirmando é que não seremos necessariamente mais felizes e sábios só porque temos formação superior. Nem que seremos necessariamente menos por tê-la. Não existe correlação direta nem inversa entre um fator e outro.
 
Montaigne reconhecia que algumas pessoas são mais espertas do que outras. O modo como a sociedade avalia é que é inadequado. A avaliação focaliza e recompensa de forma distorcida, a memorização em vez da sabedoria. O sistema educacional do tempo de Montaigne (e o de hoje também) faz algumas pessoas se sentirem estúpidas quando não são, enquanto faz outras se sentirem brilhantes mesmo não sendo.
 
Não queria que deixássemos de distinguir entre inteligência e ignorância, apenas que ajustássemos o como fazemos a distinção. É possível escrever um ensaio brilhante, lembrar muitos fatos, argumentar bem e, contudo, não ser sábio. Por outro lado, alguém pode não ter tudo isso e ser muito sábio. Qualificações acadêmicas não são o único determinante de inteligência. Há meios de se ser sábio que as escolas não distinguem e não cultivam. E há maneiras de se ser ignorante que elas não reconhecem e não mitigam.
 
Se ainda assim você se sente inadequado diante de pessoas mais instruídas, Montaigne nos sugere imaginá-las sentadas no vaso. Até nos tronos mais suntuosos sentamos em cima de nosso traseiro.
 
Assim, Montaigne nos advertiu contra o perigo da arrogância intelectual. Para ele mesmo manter os pés no chão, em seu gabinete havia 57 citações dos clássicos e da Bíblia escritas nas vigas do teto que o lembravam dessas verdades. Montaigne nos convidou a não nos sentirmos humilhados por fatos normais sobre nosso corpo, por causa de nossas idiossincrasias e pela falta de educação formal.
 
“Muitas pessoas que vejo arando a terra aqui são mais felizes e sábias do que as pessoas que conheci na Universidade de Paris” Montaigne
 
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