sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Vício de Depreciar (1/5): Introdução


O vício do “Sim, Mas...” é o discurso das pessoas que até reconhecem a contragosto os aspectos positivos de algo, mas logo em seguida enfatizam os aspectos negativos de forma que anula qualquer satisfação, prazer e senso de realização pelo que foi feito de bom. Nada nunca está bom o suficiente. É usado por muitas pessoas inseguras, ou frustradas, ou irresponsáveis, ou todas as alternativas.
  

Uma anedota conta que uma avó estava com o netinho na praia quando repentinamente uma onda o arrastou para o mar; a mulher, que nunca fora religiosa, ficou desesperada e implorou a Deus que trouxesse o menino de volta, prometendo se converter; daí espantosamente outra onda trouxe o garoto exatamente de volta para onde estava; a avó olhou para o neto, olhou para o Céu e disse: “Obrigada, Deus... mas e o chapeuzinho dele?” Sim, foi um milagre... mas não milagroso o suficiente.

O Depreciador reconhece os aspectos positivos de algo, mas logo em seguida acrescenta uma observação negativa que suplanta ou anula estes aspectos. O comentário negativo pode ser feito imediatamente depois do positivo ou após uma breve pausa. Ou pode não ser pronunciado, apenas subentendido. O Depreciador tem que apresentar motivos pelos quais é melhor não alimentar esperanças, não adianta nem tentar e não se deve sentir nenhuma satisfação pelo que já foi conquistado até agora.

A depreciação crônica é como um bastão que pende sobre nossas cabeças e nos derruba todas as vezes que tentamos ficar de pé. Consegue transformar em derrota qualquer vitória. Carrega de nuvens escuras o céu mais azul. Na versão mais branda, é como uma pílula amarga no meio de um bolo de chocolate. Na versão mais pesada, é como ganhar uma medalha antes de enfrentar o pelotão de fuzilamento.

Entretanto, o problema não é o mero uso da expressão “sim, mas” e outras similares. Estas palavras podem perfeitamente serem utilizadas com intenção somente informativa e sem teor depreciativo: 
  • “Sim, eu quero bife, mas sem cebola”; 
  • “Sim, vamos assistir a esse filme, mas não neste sábado”; 
  • “Sim, é ótimo, mas é caro demais para mim”;  
  • “Sim, a Sandra é muito bonita, mas eu gosto da Carla”
  
Nestes casos, o “sim, mas” é empregado de modo razoável, de modo a fazer referência a aspectos positivos e negativos de algo sem banalizar um e enfatizar outro de forma destorcida. Há casos em que a estrutura “sim, mas” pode até ser motivadora e apreciativa:  
  • “Sim, está ruim agora, mas vai melhorar”;  
  • “Sim, estou triste, mas vou lutar e superar”; 
  • “Sim, o projeto foi mal sucedido, mas aprendi lições valiosas”
    
O “sim” tende a ser diminuído e até neutralizado pelo que vem depois do “mas”. O uso dessa estrutura de pensamento constitui um equívoco mental quando se torna o modo dominante de reação, quando é feito de forma automática indistintamente e quando é levado a extremos absurdos.

Como todas as estruturas de pensamento que geram todos os dez erros desta série, o “sim, mas” é como uma faca de cozinha: quando usada de forma adequada, é inofensiva e pode ser muito útil; quando usada de forma irresponsável, passional ou maldosa, pode fazer estragos. Uma mesma faca pode ser usada para o bem ou para o mal, depende do manuseador.

O vício de depreciar é uma obstinada determinação de encontrar defeitos para assim minimizar ou anular quaisquer pontos positivos que haja. Pode ser usado para solapar a própria capacidade e satisfação, formando um círculo vicioso de depreciação e maus resultados. Também pode ser usado para minar a motivação e autoconfiança de outra pessoa de modo a manter o controle sobre ela ou apagar seu brilho.

Alan visita sua mãe toda semana. Um dia, ela lhe deu duas camisas iguais, uma azul e outra vermelha. Na semana seguinte, Alan vai com a camisa vermelha e a mãe lhe pergunta magoada se ele não gostou da azul. Tentativas de explicar parecem infrutíferas. Na próxima semana vai com a camisa azul e a mãe lhe pergunta magoada se ele não gostou da vermelha. Novas tentativas de explicar são improlíficas. Por fim, na terceira semana Alan vai com as duas camisas, uma por cima da outra. Então a mãe diz magoada: “Já sei! Você está querendo me enlouquecer!”

Em outras palavras, qualquer prazer em dar e receber presentes é destruído pelo Depreciador e se converte em desprazer por ser usado como instrumento para alimentar uma relação sadomasoquista.

Depreciadores crônicos são insaciáveis em sua busca por defeitos e atitudes erradas, reais ou imaginárias. Se vinte pessoas elogiam sua nova gravata e uma critica negativamente, ele nunca mais a usa. Se em certa semana ocorrem cinco acontecimentos agradáveis e um desagradável de teor emocional semelhante, caso perguntem como foi a semana ele só se lembrará do que o aborreceu.

Estes são os "depreciadores consigo mesmos". Ainda mais angustiante é viver ao lado daqueles que são "depreciadores com os outros". Se um indivíduo desses não puder encontrar ou inventar um defeito em sua nova gravata, ele vai reconhecer que sim, ela é bonita, mas não combina com sua camisa. Se com você ocorrem cinco acontecimentos bons e um ruim, ele só fala deste e tenta lhe convencer que nada na sua vida dá certo.


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