domingo, 1 de dezembro de 2013

Schopenhauer e o Amor Romântico (1/3)

 
Todos nós teorizamos (agora ou no passado) sobre o que o amor romântico nos traria. Muitas pessoas fazem da busca por ele a grande meta de sua vida. Mas é um tema sobre o qual poucos filósofos falaram. E como é uma das experiências mais transformadoras e decisivas na vida, seria de se esperar que a Filosofia se dedicasse mais ao amor romântico. O tema é deixado para poetas e apresentadores de televisão.
 
Mas houve um filósofo que se dedicou ao assunto e o via como uma de nossas preocupações centrais: Arthur Schopenhauer. A filosofia é um campo pouco romântico, mas ele entendia a intensidade do que sentimos quando nos apaixonamos e pensava que estamos certos em viver em função do amor romântico e que não há nada mais importante. Nosso erro é pensar que a felicidade tem a ver com o romance.


Em um primeiro momento, pode ser difícil acreditar que Schopenhauer entenderia o que está sofrendo uma pessoa que teve um relacionamento terminado ou que pudesse ajudar alguém nesta situação. Ele nunca se casou, vivia sozinho e às vezes era avesso às mulheres. Porém, quando conhecemos melhor sua vida e obra, entendemos que ele é o “filósofo do amor [romântico]”. Schopenhauer nasceu em Danzig em 1788, mas passou a maior parte da vida em Frankfurt.
 
Desde cedo procurou a felicidade no amor. Era seguro, de boa aparência, intelectualmente desenvolvido e (depois que seu pai faleceu quando ele tinha 17 anos) muito rico também. Mas não fazia sucesso com as mulheres. Tenta interagir com elas, mas tem dificuldades.
 
Em 1821, aos 33 anos, conheceu uma mulher que gostou dele. Era uma cantora de 19 anos chamada Caroline Medon. Mas nunca formalizaram a relação. Era carinhosa e se apaixonou por ele, mas não estava desesperada por um marido. Chegaram a ter um filho e ela queria se casar, mas ele não quis, pois dizia que quando duas pessoas se casam, acabam fazendo tudo para se detestar. Depois de 10 anos tempestuosos, a relação acabou. Schopenhauer continuou em busca do amor, mas com menos sucesso.
 
Em 1831, com 43 anos, ele se apaixonou por Flora Weiss, uma linda moça que acabara de completar 17 anos. Em um passeio de barco, na tentativa de conquistá-la, começou a falar de sua filosofia e lhe sorriu oferecendo um cacho de uvas. Mas ela escreveu em seu diário que não as quis comer por sentir nojo porque haviam estado na mão dele e disfarçadamente as jogou na água atrás dela.
 
Posteriormente, Schopenhauer teve um relacionamento com a escultora e admiradora de sua filosofia Elizabeth Ney, que foi a Frankfurt fazer um busto dele. Mas este caso não foi o ápice da vida romântica que Schopenhauer sonhara. Ela era bonita e tiveram um período feliz na época em que Elizabeth trabalhou em seu busto. Tomavam café juntos no sofá, como se fossem casados. Schopenhauer gostou do busto, mas os amigos notaram uma disparidade entre a cabeça de um homem de 71 anos e o corpo atlético, como se ele fosse um herói de 21 anos.
 
Infeliz no amor e tendo sua obra ignorada, Schopenhauer vivia recluso em um modesto conjugado em uma rua chamada “Schöne Aussicht”, nome que em alemão significa “Belas Perspectivas”, uma ironia diante de sua visão pessimista da vida. Sugeria que seus leitores engolissem um sapo toda manhã para garantir que não se deparariam com nada mais repulsivo ao longo do dia. A existência humana só pode ser um erro e, se hoje ela está ruim, a tendência é piorar até que o pior de tudo aconteça. É mais seguro confiar no medo do que na esperança. As companhias mais íntimas do filósofo passaram a ser uma série de poodles, aos quais dedicava o seu afeto e passou a se interessar pela causa do bem-estar animal.
 
Enfim, no final da vida suas ideias começaram a conquistar adeptos. Seu último livro, uma coletânea de aforismos e ensaios melancólicos tornou-se um improvável sucesso de vendas. Alemães amantes de filosofia começaram a ter poodles em sua homenagem. Mas Schopenhauer teve pouco tempo para desfrutar sua fama e desenvolver pensamentos mais alegres. Em 1860, depois de um passeio na margem do rio com seu amado poodle, queixou-se de falta de ar e faleceu.
 
 
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