domingo, 15 de dezembro de 2013

O Fim da Terapia (1/2)


Às vezes acontece de um cliente sentir vontade de interromper a terapia por se sentir desanimado com a aparente vagarosidade ou estagnação do processo, ou por estar sobrecarregado com suas responsabilidades pessoais, ou por não querer tocar em certo assunto. Em geral, nestes casos ele faz bem em perseverar, talvez fazer ajustes e prosseguir a psicoterapia.
  
Entretanto, chega o momento em que o paciente e o psicoterapeuta sentem que o processo de fato está chegando ao fim. Parece que já foram atingidos os principais objetivos que motivaram o começo da terapia (lidar com certos problemas e desenvolvimento pessoal), que não há mais grandes assuntos para tratar e que o cliente já pode prosseguir sua jornada sem o terapeuta. Ele se tornou um novo indivíduo, diferente daquele que começou o processo terapêutico, bem mais capacitado para enfrentar os desafios da vida.
 
Este é um bom assunto para ser tratado de forma aberta e gentil pelos dois. Assim como começar e continuar a terapia foram decisões do cliente em conjunto com o profissional, idealmente o término dela também deveria ser uma escolha dele com a orientação do terapeuta. Afinal, um dos objetivos da terapia é justamente desenvolver no cliente a capacidade de tomar decisões responsáveis e prosseguir sua vida de forma autônoma e produtiva.
 
Claro que fatores externos podem impossibilitar a continuidade da terapia e então ela tem que ser interrompida. Mas, se o profissional e o paciente podem prosseguir com ela, seria incoerente o psicoterapeuta sozinho tomar a decisão de continuar ou terminar o processo terapêutico por razões arbitrárias. Seria antididático.
  
É interessante que ambos façam um levantamento de como o cliente está pensando, se sentindo e vivendo, como ele está agora em comparação com quando começaram e como foi o processo terapêutico e seus resultados. Assim poderão analisar em conjunto se está mesmo chegando o tempo certo para encerrar esse processo ou se ele ainda deve durar um pouco mais, para que isso seja feito de forma bem pensada.
 
O cliente desenvolveu capacidade de se relacionar e de trabalhar? Cultivou um equilíbrio interior? Está em paz com o passado, satisfeito com o presente e otimista quanto ao futuro? O quanto sua relação com o terapeuta é adulta? Até que ponto está preparado para prosseguir sem ele? Quais são os seus reais motivos para querer encerrar a psicoterapia? Não seria interessante diminuir a frequência das sessões para quinzenais por alguns meses e depois para mensais por mais outros antes de encerrar de vez?
  
Às vezes pode se tratar da necessidade de uma pausa na psicoterapia como uma etapa para o cliente refletir e maturar. Depois de certo tempo ele pode querer retomar e prosseguir por mais um período, com o mesmo terapeuta ou com outro. Pode-se programar uma pausa de alguns meses como teste.
  
De qualquer forma, o cliente sente um misto de senso de dignidade e de vitória pelo processo que percorreu, mas também uma sensação de abandono, perda, orfandade. É um sentimento comum e compreensível diante da expectativa de perder o apoio constante do psicoterapeuta e encerrar o relacionamento com uma pessoa a quem aprecia e respeita.
  
Assim, pode ser difícil encerrar a terapia. O cliente acostumou-se a contar com a orientação e força do terapeuta em seus momentos de crise e/ou de decisões importantes. Claro que o psicólogo não estava presente no local e instante do problema, mas era um alívio saber que com certeza ele estaria na próxima sessão. E agora não haverá mais próxima sessão...
  
Daqui em diante o cliente estará por conta própria. Está mais capacitado para enfrentar os desafios da vida do que quando começou o relacionamento terapêutico. Mas ainda assim a perspectiva de encerrar e prosseguir sem seu psicoterapeuta pode ser assustador.
   
A vida continua, mesmo sem o terapeuta. Surgirão novas situações que vão exigir autodisciplina, raciocínio sólido, intuição apurada, assertividade, poder de decisão. Mas, na medida em que enfrentar esses desafios, descobrirá o quanto foi útil o aprendizado desenvolvido na relação terapêutica. Haverá momentos de medo, dúvida, cansaço. Porém, ficará menos paralisado, resignado ou desestabilizado do que antes da terapia e reagirá de forma mais positiva, rápida e construtiva do que antes.
   
O indivíduo encontrou no psicoterapeuta alguém disposto a ouvi-lo de verdade, a aceitá-lo e a ajudá-lo a ponderar, a se conhecer e se aperfeiçoar. Então aprendeu a ouvir a si mesmo, aprendeu a se aceitar, desenvolveu autoconhecimento, autogerenciamento e a atitude de melhoria contínua.
   
  • Aprendeu a como desenvolver novas perspectivas, o que abrirá continuamente novas possibilidades e oportunidades. 
  • Aprendeu a ter um senso de valores mais apurado, a saber diferenciar o que é realmente mais importante e banalizar o que possui pouca ou nenhuma importância. 
  • Aprendeu a ser flexível e adaptável e a seguir padrões e objetivos elevados, porém razoáveis. 
  • Aprendeu a desenvolver e aplicar simultaneamente virtudes opostas e complementares, em vez de ir a um extremo ou ao outro. 
  • Aprendeu a realmente ouvir, a dialogar, a entender-se com o próximo. Todo esse aprendizado contribui para que possa, não viver em êxtase contínuo (o que é biologicamente impossível), mas sim a ter satisfação geral na vida. E esse processo continuará após o término da psicoterapia.
 
 
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