domingo, 15 de dezembro de 2013

Vício de Depreciar (2/5): As Motivações


Por que tantos indivíduos são depreciadores crônicos, magoando e prejudicando a si mesmos e a outros? Como sempre, há diversos fatores. Um deles pode ser uma sensação de impotência.
 

Talvez você se sinta incapaz de dizer “não” para alguém, daí aceitar aquela opinião negativa mesmo ela sendo inválida e vinte pessoas terem dado opiniões positivas. Ou pode se sentir incapaz de se afirmar assertivamente diante de pessoas que fazem juízos que só rebaixam.

A depreciação pode ser uma forma de evitar confrontos. Por receio de dar uma resposta que vá direto ao ponto, você prefere concordar para agradar a pessoa, mas faz uma ressalva que lhe permite recuar sem contrariá-la muito. Funciona, mas pode ser prejudicial.

Outros podem recorrer ao “sim, mas” como modo de dar vazão à sua raiva quando não querem lidar com a verdadeira origem desse sentimento. A mãe de Alan pode estar zangada com o filho por pensar que ele não a visita com suficiente assiduidade, mas por medo de confrontá-lo diretamente e/ou por falta de autoconhecimento, ela expressa sua frustração por lhe dar um presente, mas providenciar que este seja fonte de desgosto, mesmo que isso signifique que ela também vai se desapontar.

Por fim, a depreciação muitas vezes é uma forma de diminuir o brilho de um bom exemplo. Para pessoas orgulhosas e acomodadas, é muito mais fácil do que imitar ou sequer reconhecer a boa atitude do outro. Também pode ser um modo de minimizar a dívida por um favor feito.

Em resumo, quando usamos o “sim, mas” de forma prejudicial, estamos revelando que nos sentimos incapazes de mudar uma situação desagradável.

Também podemos dizer “sim, mas” para nós mesmos. Nestes casos, estamos nos dizendo em nosso diálogo interno que não temos capacidade de fazer aquilo que queremos. Então negamos o que queremos antes que mais alguém possa fazê-lo e assim exerça poder sobre nós. É mais fácil assimilar a rejeição feita por nós mesmos do que a feita por outros.

O raciocínio do autodepreciador é “Gostaria de sair com a Denise, mas sei que ela dificilmente se interessaria por alguém como eu”. Assim, ele nem sequer tenta e os dois nunca sairão juntos – a não ser que ela o convide, mas talvez nem assim. Os adeptos da depreciação tendem a procrastinar e são mestres na arte de inventar desculpas para sua negligência.
  

DIFICULDADE DE DIZER “NÃO”

Muitos têm dificuldade em dar respostas negativas (dizer “não”). A causa do problema pode ser sentimentos de culpa ou vergonha, ou o desejo de ser aceito e aprovado. Essa dificuldade pode ser decorrente de uma arraigada sensação de que não dispomos dos recursos necessários para resistir à pressão de quem quer que façam algo que eles não querem fazer.

Esse hábito costuma ser desenvolvido na infância, especialmente quando a pessoa teve um pai e/ou uma mãe que jamais aceitava uma resposta negativa. Não se trata de pais que estabelecem normas e limites sérios, mas com razoabilidade. São pais que esperam que todas as suas ordens sejam sempre cumpridas de forma imediata e integral, sem margem para diálogo. Então essas pessoas aprenderam a dizer “sim” mesmo quando não podem ou não querem cumprir a ordem. E também aprendem a recorrer ao “sim, mas” quando o outro descobre o não-cumprimento e exige satisfações.

Um dos problemas dessa técnica de defesa é que ela falha muito em mitigar a raiva da outra pessoa, especialmente no longo prazo. Pelo contrário, pode até ter efeito reverso. Quando alguém promete algo que não pode ou não quer cumprir apenas para não desagradar o outro, ele fica na expectativa e se sente mais frustrado do que teria ficado com uma resposta assertiva desde o começo. E as justificativas do tipo, “sim, mas” fazem a pessoa se sentir ainda mais irritada.
  

OUTROS USOS DO “SIM, MAS”

O “sim, mas” é usado com frequência para transferir responsabilidades. Sidnei diz: “Sim, concordo que deveria conversar sobre isso com minha esposa... mas você não sabe como ela é”. Tradução: o problema é minha esposa, não o fato de que eu não sei lidar com ela.

O “sim, mas” pode ser usado para asseverar uma medida de controle que fica aquém daquela que a pessoa de fato gostaria. O sujeito se sente impotente no trabalho, então descarrega sua hostilidade em casa impondo regras rigorosas aos filhos e caçando erros no seu cumprimento. Quando inspeciona, fica frustrado ao encontrar tudo em ordem (ou seja, sem nada para criticar), até encontrar algum lapso para repreender com satisfação e alívio, mas deixando os filhos ressentidos.

Em contrapartida, o “sim, mas” pode ser usado como tática de guerrilha contra um oponente mais forte. Margareth sente-se sem forças para confrontar diretamente o seu marido dominador, então usa a tática de concordar e discordar ao mesmo tempo. Diz ao marido que fez o que ele pediu, mas não deu para fazer.

Os dois exemplos acima apresentam homens sendo autoritários, mas deveria ser óbvio que mulheres também podem ser dominadoras e críticas e que homens também podem ser vítimas e passivo-agressivos.

Por fim, o vício de depreciar pode ser uma forma de autoengrandecimento para impor respeito às pessoas por suas realizações e qualidades. A pessoa sempre consegue encontrar uma falha qualquer em tudo o que os outros fazem. Pode reconhecer que algo que o outro fez está bom, mas... (era desnecessário ou diferente do necessário, é insuficiente, isso não combina com aquilo ou simplesmente prefere de outro jeito).
  

* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: