Pode parecer
estranho ouvir que Schopenhauer possa nos ajudar nas questões do amor
romântico, tendo sido um sujeito tão amargurado. Mas ele deixou ideias
confortadoras a respeito. Primeiro, nos diz que apaixonar-se é inevitável, que
a biologia é mais forte do que a razão. Assim, não somos infelizes por mero acaso.
Essencialmente, somos iguais a todos os outros animais: sentimo-nos impelidos a
encontrar um parceiro, a gerar filhos e a criá-los. E somente uma força
poderosa como o amor romântico seria capaz de nos mover para isso.
Schopenhauer
nutria interesse especial por animais feios como toupeiras, porcos-espinhos e
mangustos-anões. O que despertava o seu interesse era a vida dura que eles
levam enfrentando invernos rigorosos e vivendo em tocas debaixo da terra e
tendo filhotes que parecem vermes gelatinosos. Mas nada disso os impede de se
reproduzirem.
A lição que estes animais ensinam sobre nosso comportamento é que
nos dedicamos à reprodução sem necessariamente pensar em felicidade. Embora
conscientemente pensemos estar buscando a felicidade, agimos assim
porque temos que fazê-lo, como os animais. Se a reprodução nos entristece
e o casamento não vai bem, podemos aprender com eles, que não o fazem por
felicidade, mas porque precisam por causa do impulso biológico.
Outra ideia de
Schopenhauer sobre o amor pode nos ajudar quando somos rejeitados. Muitas vezes
não entendemos porque o parceiro quis romper e nos sentimos magoados. Schopenhauer
diz que quem termina o relacionamento não está rejeitando o parceiro [como
pessoa], é o impulso biológico que o induz a procurar outra pessoa biologicamente
mais compatível para produzir filhos saudáveis. É apenas uma questão de
compatibilidade e equilíbrio de características. Talvez você estivesse feliz
com a pessoa que o rejeitou, mas a Natureza não estava e por isso terá que
aprender a se desapegar dela.
Muitas vezes o
relacionamento ia custar enormes sacrifícios. Mesmo assim, nos sentimos rejeitados,
pois a pessoa nos conheceu a fundo e nos rejeitou, a impressão pode ser que
somos profundamente indesejáveis. Mas a rejeição pode ser por motivos superficiais,
pois o que a pessoa procura não é o seu “eu psicológico”, mas o seu “eu biológico”.
Não é algo pessoal, mas animal. É um consolo adquirir uma nova perspectiva, “panorâmica”
e “aérea” do que aconteceu. Este é o mundo em que vivemos.
Schopenhauer não
queria nos deixar cínicos, mas nos libertar de expectativas ilusórias e de uma
compreensão limitada da realidade humana que acabam gerando frustrações. É um
alento saber que, se o amor romântico nos trouxe tristeza, ouvir que a
felicidade não fazia parte da equação original. Paradoxalmente, às vezes os
pensadores mais pessimistas podem ser os mais consoladores.
COMENTÁRIO DO BLOG
Todo autor deve
ser estudado com senso crítico. Precisamos nos certificar de que compreendemos
o que ele realmente quis dizer (e não aquilo que pressupomos ou desejamos que
ele tenha dito). É desaconselhável aceitar ou recusar algo sem compreender. Temos
que analisar a lógica interna e a aplicação prática de suas ideias. Então precisamos
fazer uma seleção. Poucos autores podem ser seguidos integralmente, sem ressalvas.
E nenhum deve ser seguido sem o contrapeso de visões diferentes de outros
autores.
Schopenhauer
possui pontos válidos. Quando conheci suas ideias pela primeira vez, pensei “Esse
filósofo copiou Freud descaradamente!”... Daí me dei conta de que ele viveu
antes de Freud. Mas temos que ser criteriosos. Shopenhauer tinha determinadas
dificuldades que provinham de pontos falhos em seu sistema de crenças, que ele
transmite em seus escritos. Se vivesse hoje, uma terapia o ajudaria muito. Além disso, suas ideias têm que ser analisadas à
luz da Psicologia e demais ciências modernas. Porém, o saldo final é positivo
se tomarmos os cuidados supracitados.
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