domingo, 1 de dezembro de 2013

Schopenhauer e o Amor Romântico (2/3)


Como um filósofo com uma vida romântica desastrosa poderia ter algo a nos dizer sobre o amor romântico? Para começar, ele dizia que o amor não é um assunto banal, que não devemos vê-lo como distração de assuntos mais sérios ou adultos. Não é por acaso que se trata de um sentimento tão avassalador, capaz de tomar conta de nossa vida e de todos os momentos de nosso dia. Schopenhauer dizia que não devemos nos culpar tanto pelo estado de desespero e obsessão em que entramos se o amor fracassa. Ficar surpreso com a dor da rejeição é ignorar o quanto de entrega a aceitação exigiria. Schopenhauer dizia: “Nada na vida é mais importante do que o amor, porque o que está em jogo é a sobrevivência da espécie”.
 
Sonhamos que nos apaixonaremos por uma pessoa que nos fará felizes em uma história de amor. Mas Schopenhauer via isso de modo diferente. Nós investimos tempo e energia para iniciar um relacionamento por uma única razão: o impulso biológico de perpetuar a espécie, que ele chamava de “impulso de vida”. O amor romântico é uma tática da Natureza para nos levar a ter filhos. Por mais que gostemos de nos imaginar como seres românticos, somos todos basicamente escravos do impulso de vida.
 
Claro que, se de repente perguntarmos a jovens em uma balada se eles vieram perpetuar a espécie, a pergunta causará surpresa e estranheza (ou talvez alguma piada). Uma gravidez é o último acontecimento que eles esperam ou desejam que ocorra. Pode ser desconfortável reconhecer isso, pois vai contra a nossa autoimagem de seres racionais e não é uma constatação politicamente correta, mas todos estão movidos pelo impulso biológico cego de se reproduzir.
 
O fundamental na tese de Schopenhauer é que o impulso de vida pode atuar de forma bastante inconsciente. As pessoas podem ir para um local de diversão com o desejo consciente de descontrair bebendo com os amigos, mas o que os move inconscientemente é a demanda de se reproduzirem.
 
Se questionados a respeito, elas obviamente negam. Porém, essa negação não prova que não sejam movidas por esse impulso, que precisa ser inconsciente para ser eficaz. Muitos não assumiriam o fardo da reprodução conscientemente. A negação consciente do desejo de reproduzir ocorre mesmo quando as pessoas vão a um local explicitamente para paquerar. De fato, não o querem conscientemente, mas Schopenhauer insistia que esta é a motivação oculta até de nós mesmos.
 
Mas por que nos sentimos atraídos por determinadas pessoas e não por outras? Em vez de sentir atração por alguém que seria um bom par, nos apaixonamos por pessoas com quem a convivência seria bem difícil. Schopenhauer explicava que nos apaixonamos por uma pessoa porque sentimos inconscientemente que ela pode nos ajudar a produzir descendentes saudáveis. O amor romântico é apenas o nosso impulso de vida descobrindo alguém que ele considera o pai ou mãe ideal para nossos filhos (do ponto de vista biológico).
 
Isso levou Schopenhauer a conclusões interessantes sobre as regras da atração. Sentimos atração por pessoas capazes de contrabalançar nossas imperfeições, garantindo assim filhos mental e fisicamente equilibrados. Pessoas altas sentem-se atraídas por pessoas mais baixas e vice-versa, pessoas com queixo grande por pessoas de queixo pequeno e vice-versa e assim por diante, sempre buscando o equilíbrio.
 
Algumas ideias de Schopenhauer podem parecer descabidas hoje. E há diversos tipos de vínculos emocionais e sexuais. Porém, décadas antes de Freud e muito antes da sociobiologia, ele foi o primeiro a apontar as razões biológicas inconscientes para o amor romântico.
 
A pessoa capaz produzir descendentes com características que nossos impulsos biológicos consideram interessantes dificilmente será a pessoa com quem seremos mais capazes de ter um relacionamento feliz conosco. Buscar a felicidade e procriar são projetos distintos que os impulsos biológicos astutamente nos fazem ver como sendo um só pelo tempo necessário para reproduzir e criar os filhos. Só depois, com herdeiros saudáveis e equilibrados, nos damos conta de que fomos enganados. Então nos separamos ou passamos a levar vidas paralelas, juntos separadamente.
 
Schopenhauer nos coloca diante de uma escolha tácita. É como se na hora de arranjar o casamento o indivíduo ou o interesse da espécie tivesse que sair perdendo e o outro vencendo. Para ele não há dúvida: o indivíduo costuma ser o perdedor.
 
 
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