quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Antecedentes Filosóficos da Psicologia Cognitiva

Desde a Antiguidade, o ser humano sempre teve uma compreensão (implícita ou explícita) de que a cognição influencia o comportamento, que a cognição pode ser monitorada e que alterar a cognição modifica o comportamento. Os grandes pensadores do passado em geral partiam desses pressupostos.


Sócrates utilizava o diálogo para ajudar as pessoas a perceber que muitas de suas opiniões eram infundadas (“ironia socrática”) e depois para ajudá-las a conceber novos conceitos mais elaborados (maiêutica). Platão e Aristóteles deram início ao debate racionalismo x empirismo sobre nossa cognição que atravessou os séculos até chegar a Descartes, Kant e Hegel (e para alguns ainda continua). Entre Sócrates e Hegel e depois, diversos filósofos conceituaram sobre como devemos pensar e agir.

Os epicuristas defendiam usufruir bem-estar físico e mental e evitar perturbações idem como o objetivo da vida e o gabarito para avaliar as ações. Ensinavam a libertação do medo através da filosofia, da imperturbabilidade (ataraxia) e da busca do bem-estar. Ensinavam que precisamos de outras pessoas, mas temos que ser seletivos e não buscar status. Devemos buscar o prazer sem nos tornarmos escravos deles. O indivíduo deve cultivar a autarquia, que neste contexto significa autonomia, autoconhecimento e autodisciplina.

Os cínicos (do grego “cães”) foram outra escola de filosofia. Consideravam elevados valores a autarquia e o desprezo (apathea) pela ilusão da busca do prazer, fama, poder e fortuna. Os cínicos ensinavam o indivíduo a se sentir-se bem na própria companhia. Para os cínicos, o prazer é algo enganador e a pessoa deve libertar-se dele e do envolvimento com o mundo. Quanto maior o despojamento, melhor. Quando percebe que não precisa de nada de especial para ser feliz, não faz sentido apegar-se ao que possui.

Para os cínicos, o apego a si mesmo, ao que tem, aos outros e a seja o que for, é a principal causa do sofrimento. A felicidade genuína é desapegar-se de tudo o que é efêmero, casual e passageiro na vida humana. Quem se satisfaz com o mínimo necessário, levando uma vida simplificada e governada pela razão, sem ambições e livre das convenções sociais, cultiva a virtude e um autêntico bem-estar.

Os céticos (do grego “nada afirmam”) ensinavam que nada pode ser conhecido com certeza absoluta e que devemos duvidar sempre, nunca sermos dogmáticos. Eles NÃO promoviam uma atitude niilista ou negadora, ou sarcástica e sem ética. No contexto grego o “cético” é aquele que, mesmo crendo, duvida que possa enxergar a realidade como ela é. Não se trata de acreditar ou não, mas sim de permanecer sem opinião dogmática, sem agitação e nem inclinação a respeito de qualquer assunto.

Assim, os céticos gregos recomendavam a prática do epoché, que significa suspensão de julgamento e observação da realidade sem juízos de valor, o oposto de dogmatismo. Com essa atitude neutra, teremos a imperturbabilidade da ataraxia, que é o objetivo principal dos céticos: não se envolver com nada e não deixar que nada se envolva com a nossa vida.

Os estoicos acreditavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento. Epicteto argumentou que levar uma vida virtuosa (pautada pelos princípios da sabedoria) é o caminho para a felicidade. Afirmou que “as pessoas não se perturbam pelas situações, mas sim pelo que pensam delas”. E Sêneca ensinou que ficamos irritados porque temos expectativas excessivas, de que tudo tem que ser do jeito que queremos. Se tivermos expectativas mais razoáveis e aceitarmos o que não podemos mudar, ficaremos irritados menos vezes e com menores intensidades.

O estoicismo ensinava que sábio é aquele que vive de acordo com a lei racional que rege a Natureza (ou seja, racionalmente), reconhecendo-se como parte dessa ordem e mantendo uma indiferença (apathea) ou serenidade, neutralidade, em relação tanto aos acontecimentos bons quanto aos ruins. Os estoicos interessavam-se pela interação entre o determinismo cósmico e a autonomia humana, considerando virtuoso manter a vontade em harmonia com as leis naturais. O melhor indicador da filosofia de alguém não são suas palavras e sim o seu modo de vida.

Os antigos gregos usavam a palavra “physis” (de onde vem "Física") para se referir ao conjunto de todos os objetos e fenômenos naturais que existem, a própria Natureza. A palavra “cosmos” significa “ordem, simetria”, é o oposto de caos e se refere à ordem fundamental que impera no Physis/Universo e em certo sentido tornou-se o seu sinônimo.

O termo “logos” significa “razão”, “linguagem”, “palavra” (não no sentido de um vocábulo, mas sim de pensamento ordenado), designando a razão humana que busca compreender o Physis/Universo. Porém, a partir de Heráclito, logos também passou a se referir à razão universal, fixa e imutável que ordena e organiza todos os objetos e fenômenos particulares e transitórios; o logos, neste sentido, é um princípio cosmológico.

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Revendo alguns dos termos

Apathea: desapego, desprezo pela busca de prazer e status, serenidade, neutralidade, em relação tanto aos acontecimentos bons quanto aos ruins, produzindo a ataraxia;

Ataraxia: imperturbabilidade, não se envolver com nada e não deixar que nada se envolva com a nossa vida;

Autarquia: domínio sobre si mesmo, autonomia, autoconhecimento e autodisciplina;

Epoché: suspensão de julgamento e observação neutra da realidade sem juízos de valor, o oposto de dogmatismo;

Logos: a razão humana, que deve se harmonizar com as leis naturais (logos universal) que regem o cosmos, a ordem fundamental do Universo (Physis);



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