quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Hábito de Fantasiar


Pessoas de todas as idades passam uma boa parte do tempo acordadas com devaneios, imaginações, fantasias, que podem ser agradáveis ou desagradáveis. Algum estímulo do ambiente (uma imagem, um som, etc.) pode evocar lembranças, fantasias ou planos e mergulhamos neles, esquecendo-nos do que acontece em volta.
 
Podemos sonhar acordados sem percebermos ou fazê-lo deliberadamente. Podemos fantasiar com o passado, com o futuro ou que estamos em outro lugar ou situação. Podemos usar a imaginação para visualizar planos e metas, para raciocinar, para resolver problemas criativamente. Ou pode simplesmente ser um passatempo em uma situação de tédio.

No passado os profissionais de saúde mental e os educadores consideravam o devaneio como algo intrinsecamente prejudicial, um mal a ser combatido e que poderia causar distúrbios psicopatológicos como a esquizofrenia. Mas hoje em geral considera-se o devaneio uma atividade da mente que é normal em si mesma, não sendo necessariamente causada nem causadora de problemas psíquicos.

O devaneio é relacionado com a capacidade peculiarmente humana de lembrar seletivamente o passado ou de planejar o futuro, escolher uma dentre várias opções de ação, motivar-se para perseguir objetivos, ensaiar mentalmente para enfrentar desafios e encontrar soluções lógicas e/ou criativas para nossos problemas. Portanto, não é ruim em si mesmo.

Entretanto, em excesso o hábito de sonhar acordado pode atrapalhar tarefas importantes como trabalho, estudo e outras. O problema está (1) na quantidade excessiva de devaneios, (2) nos momentos inapropriados para devanear e/ou (3) no conteúdo desses devaneios.

A imaginação desenfreada pode estimular uma ansiedade descomedida, sentimentos de ódio, ciúmes ou tristeza, o que só serve para prejudicar a nós mesmos. Alguns ensaiam mentalmente que sofrerão reveses e experiências desagradáveis, o que os leva a agir de acordo com essas expectativas e assim contribuir para que de fato ocorram.

Um exemplo é pessoa acredita que a outra com quem conversará pela primeira vez vai rejeitá-la e já vai com uma atitude negativa que antagoniza a outra e assim causa a rejeição. Ou o aluno que tem tanta certeza de que não conseguirá aprender uma matéria que não consegue se concentrar no estudo ou então nem estuda. E fantasiar com práticas antiéticas ("Aqui o caixa é tão desorganizado e tem tanto dinheiro que se eu pegasse R$50,00 ninguém perceberia, com esse dinheiro eu poderia...") é um ensaio mental para elas, o primeiríssimo passo para cometê-las de fato.

Viver no mundo da fantasia diminui nossa eficiência no mundo real. Retarda nosso desenvolvimento (emocional, intelectual, existencial, profissional, etc.). Faz-nos ter uma visão romântica da vida. Leva-nos esquecer dos problemas em vez de enfrentá-los, o que nos faz deixar de desenvolver nossa capacidade de vencer desafios. Deixamos de fazer novos relacionamentos e de cultivar os que já temos. E nos faz esquecer ou nem saber quais são as nossas prioridades na vida.

Se você costuma fantasiar demais, analise porque sente tanto prazer com essa prática. Alguns fantasiam que são outra pessoa, talvez alguém que conheçam de vista ou um famoso, idealizando uma vida cheia de êxitos e diversão. Acontece que NINGUÉM leva uma vida assim, como humanos todos nós temos limitações e frustrações.

Alguns fantasiam para esquecer-se de sofrimentos do passado e/ou do presente, até mesmo de abusos que sofreram e/ou sofrem de alguém. Como todo vício, o escapismo não resolve problemas, apenas os camufla deixando-os piorar e ainda cria novos problemas. Se for o seu caso, procure ajuda de pessoas confiáveis, até mesmo de profissionais.

Outros fantasiam que possuem amigos e/ou uma “boa situação financeira”. Mas é muito mais produtivo aprender novos conhecimentos, habilidades e atitudes e realizar ações razoáveis para obter esses resultados do que ficar sonhando com eles. Estabelecer metas desafiantes, elaborar um bom planejamento para elas e executá-lo com rigor é uma boa forma de largar o vício de fantasiar em excesso.

Calcule quantas vezes e por quanto tempo você sonha acordado, pois perceber o tempo precioso que desperdiça o motivará a lutar contra esse mau hábito mental. Aprenda a se interessar pelo que está fazendo e busque fazê-lo com concentração e qualidade.

Considere a ideia de consultar um bom psicólogo, fazer alguns meses de psicoterapia. Ele lhe auxiliará a ajustar seu modo de pensar e agir.

Colocar em prática essas sugestões lhe dará uma satisfação genuína. Sonhar acordado não é ruim em si mesmo, pode ser inofensivo e até útil. Mas não devemos permitir que esse hábito domine nossa vida. Exerça autodisciplina, foque a atenção em seus objetivos, valores e missão. Viva a vida real.

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