Uma das faculdades cognitivas que o ser humano possui em um nível de capacidade e sofisticação muito acima dos animais é a autoconsciência. É uma ferramenta mental para adaptar-se ao ambiente e para modificá-lo de formas muito versáteis e complexas. As colméias das abelhas de hoje são iguais às que eram feitas há dez mil anos, enquanto as casas e cidades humanas são aperfeiçoadas continuamente.
A consciência permite ao ser humano planejar e fabricar equipamentos de proteção e ferramentas, além de planejar suas ações, prevendo perigos e oportunidades, aprendendo como passado (não apenas do indivíduo, mas de contemporâneos e antepassados também) para produzir o futuro.
O cérebro humano é capaz de produzir elaborados mapas cognitivos da realidade e de transitar virtualmente por eles
Um exemplo extremamente simples do que é um mapa cognitivo da realidade: a maioria das pessoas consegue caminhar na própria residência mesmo na escuridão total, ainda que devagar, pois formamos um mapa cognitivo dela, temos noção do tamanho e posição dos móveis e outros objetos, a direção das portas de cada cômodo e assim por diante.
Porém, nossos mapas cognitivos não se limitam aos ambientes físicos, como ocorre com os animais: incluem nossas crenças sobre todos os assuntos, nossos valores e nossa cosmovisão sobre como o mundo é e como ele deveria ser. Esses mapas cognitivos também podem ser chamados de “paradigmas”, palavra de origem grega que significa “modelo”.
Todo mapa é uma simplificação do território representado por ele. Os animais também produzem mapas cognitivos dos seus territórios, porém muito mais simples dos que os seres humanos elaboram. Entretanto, essa capacidade humana, que em si mesma é uma vantagem, pode se tornar uma desvantagem. Os seres humanos elaboram mapas cognitivos tão elaborados que tendem a se fixar neles e a ficar alienados do território da realidade objetiva. Perdem-se mentalmente nos muitos detalhes e despercebem o que é essencial. Querem atravessar pontes que constam em seus mapas, mas que na vida real não existem mais ou que ainda não foram construídas.
Assim, por sua capacidade cognitiva muito menor, os animais vivem apenas no mundo concreto, enquanto os humanos são capazes de criar e viver também em mundos abstratos. As zebras temem apenas leões literais, enquanto nós tememos “leões” simbólicos. E muitas pessoas parecem viver mais no mundo abstrato do que no concreto.
Para piorar, tendemos a confundir nosso mapa com o território, a acreditar que nossa interpretação subjetiva da realidade é a representação exata da realidade objetiva. Em geral nos recusarmos a aceitar que nossa percepção é limitada, parcial e tendenciosa, que existem fatores que não conhecemos ou que não compreendemos, que existem outras interpretações ou “mapas” possíveis, que podemos e devemos aprender com quem pensa diferente.
DOIS TIPOS DE CONSCIÊNCIA
O ser humano é dotado de pelo menos dois tipos de consciência:
O que chamamos de “pensamento intelectual” é a consciência analítica, o interesse por descobrir como algo funciona, seus componentes, além de entender como esse algo interage com outros objetos do ambiente, ou seja, como ele mesmo é parte de um todo ainda maior.
O que chamamos de “pensamento intuitivo” é a consciência fenomenológica é a percepção da existência de algo, não em seus componentes separadamente, mas como um todo integrado. Essa consciência interessa-se pelo conjunto. Enquanto a consciência analítica observa e entende separadamente as peças de um motor, a consciência fenomenológica olha para o motor e compreende as peças interagindo sistemicamente, formando um todo maior do que a soma das suas partes. Uma pilha de peças, ainda que completa, por si só não forma um motor.
Por ser mais focada, a consciência analítica sempre tem um número menor de objetos sob exame de cada vez, enquanto a fenomenológica observa mais objetos, possui uma “visão panorâmica” da realidade. A consciência analítica é prática, essencial para a sobrevivência física. A consciência fenomenológica também tem grande valor prático e é essencial, porém esse valor é mais difuso.
A intuição nada tem de mágica, é um processo neurológico natural que todos nós possuímos. O "cérebro emocional" percebe semelhanças entre algo do presente e situações do passado e faz um atalho no pensamento, apresentando ao "cérebro racional" sua conclusão através de sensações antes que este tenha processado as informações objetivamente. São aquelas sensações tipo "algo me diz..." que não conseguimos explicar em um primeiro momento, mas que podem ser muito fortes.
Porém, por suas conclusões serem mais difíceis de ser explanadas de forma objetiva, a intuição é desprezada por quem se considera “lógico” e “esclarecido” e é idealizada por quem considera dotado de um raro dom místico que poucos “escolhidos” teriam.
Entretanto, as duas formas de consciência ou pensamento são importantes para o indivíduo ser completo em seu autoconhecimento e na sua percepção do mundo. Mas tendemos a cultivar muito mais uma do que a outra, o que produz um desenvolvimento cognitivo disforme e disfuncional.
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