sexta-feira, 15 de junho de 2012

Superconfiança (4/6): Quem nos Induz ao Erro?


Conforme já explicado antes neste tópico, a superconfiança ou otimismo irrestrito é acreditar cegamente nos elogios que os outros nos fazem e na propaganda que nós próprios fazemos a nosso respeito. É bom ser otimista e ter uma autoimagem positiva, mas a overdose de autoconfiança pode levar a erros fatais. Já analisamos alguns perigos do “pensamento positivo” mal-orientado. Vejamos agora um pouco sobre as pessoas na nossa vida que talvez estimulem em nós a superconfiança.

1- Nossos familiares, em especial nossa mãe: As mães em geral afirmam e reafirmam aos seus filhos que eles são maravilhosos (o que é um autoelogio indireto: o filho é maravilhoso porque a mãe é maravilhosa). Mas algumas mães exageram em excesso: elogiam o filho bem mais do que ele merece e sempre que algo dá errado a responsabilidade é sempre 100% das outras pessoas e/ou das circunstâncias injustas. Assim, o filho cresce acreditando que sempre está certo e que apenas os demais devem negociar, explicar, ceder e reconhecer erros.

2- Nossos amigos: Os mais jovens são especialmente propensos a assegurar uns aos outros que eles são invulneráveis e infalíveis, não precisam se preocupar com avisos de perigo, pois nada vai acontecer. Porém, ocorre com pessoas de todas as idades. Queremos acreditar nisso e é muito agradável quando nossos amigos nos elogiam e nos incentivam. Entretanto, a lisonja pode nos levar a assumir riscos como dirigir alcoolizado ou abrir um negócio sem preparação devida. Quando uma mulher tem problemas com seu namorado ou marido, uma amiga pode demonizar o companheiro dela, incentivar uma atitude orgulhosa de não admitir sua parcela de responsabilidade e sugerir a ela procurar outra pessoa.

3- Nossos falsos amigos: Um amigo verdadeiro pode elogiar ou aconselhar você de forma inadequada acreditando que está fazendo o bem e com o desejo sincero de ajudar, mas um falso amigo faz de propósito. O objetivo pode ser fazer com que você não perceba as reais atitudes e intenções dele. Pode ser diminuir você aos olhos de terceiros (se em uma escala de zero a dez você está em sete, mas a pessoa fica dizendo que você está em nove, a tendência dos observadores é corrigir mentalmente a avaliação e lhe atribuir um seis). Ou pode ser induzi-lo ao erro: você fica superconfiante e assume atribuições além da sua capacidade presente, desempenhando-se mal.

4- Contatos comerciais: Alguns vendedores se importam apenas com a comissão deles e são dispostos a fazer elogios exagerados ou até imerecidos para que o cliente compre. Podem dizer que você ficou ótimo com uma roupa, que você demonstra muito bom senso em entrar no empreendimento que oferecem e assim por diante, mesmo se a roupa deixa você ridículo ou se o empreendimento é um atoleiro. Claro que muitos profissionais de vendas são éticos, mas isso não está escrito na testa deles. Se quem o incentiva a fazer certa escolha será de alguma forma beneficiado com isso, pense melhor, adie a decisão, pesquise os contras.

5- Nossos colegas e subordinados: Muitos só aceitam elogios (mesmo que imerecidos) e se irritam com feedbacks negativos, independentemente da validade e da gentileza. Por isso as pessoas ao redor esbanjam elogios e retêm as informações desagradáveis ao máximo. Se isso vale na relação com colegas, vale mais ainda na relação com superiores hierárquicos. Certos chefes apreciam mais os bajuladores do que os que se dispõem a expor discordâncias, o que os induz a erros cumulativos. Essa é uma das lições da fábula da “Roupa Nova do Imperador”. Quem só aceita elogios estimula os outros a serem bajuladores.

6- Nossos superiores: O ideal é que indivíduos em posição de chefia nos dessem feedbacks acurados sobre nosso desempenho para corrigirmos nossos erros enquanto ainda são pequenos, que não esperassem que adivinhemos seus pensamentos, que percebessem e nos comunicassem nossos pontos fracos para nos auxiliar e não para nos condenar e que acreditassem em nós sem nos idealizar. Mas muitos se sentem mal em dar feedbacks negativos, enquanto alguns simplesmente não se importam ou até apreciam a situação. Você acredita que tudo está bem, mas o problema está crescendo e você só é informado da insatisfação quando é demitido.

7- Nosso grupo religioso: Seu líder religioso o convenceu de que, se agradar a Deus levando uma vida exemplar [pelos critérios do grupo], será recompensado não apenas na vida eterna, mas também nesta vida. Sendo um sujeito de “fé”, você acredita desfrutar de proteção divina contra problemas – e então um acontecimento ruim o deixa seriamente abalado. Ou então, em momentos difíceis seus correligionários lhe asseguram que você conseguirá se reerguer, que Deus só nos dá provações que podemos superar, que o revés é um teste divino para o seu próprio bem ou uma disciplina divina para nos corrigir. Podem até ter razão em parte, mas a atitude e/ou a forma com que dizem isso pode fazer você se sentir ainda mais frustrado e culpado.

8- Pessoas que querem nos motivar: Alguns acreditam que estão ajudando os outros sendo uma torcida aleatória e desprovida de foco. Professores e outras pessoas bem intencionadas podem lhe garantir que, se você tiver “pensamento positivo” e fizer afirmações automotivadoras, poderá ser e conseguir tudo o que quiser. Sim, acreditar que somos capazes maximiza nossas probabilidades de êxito, pois quem duvida de si mesmo limita o seu próprio empenho ou nem sequer tenta. Mas não basta “pensamento positivo” e afirmações motivacionais. O aluno que quer tirar uma boa nota na prova precisa, além de acreditar em si mesmo, estudar para compreender a matéria. E uma pessoa com 1,60m de altura dificilmente conseguirá ser um jogador de basquete profissional, por mais que tenha “pensamento positivo” e faça afirmações automotivadoras.

9- Você mesmo: O nosso principal estimulador de superconfiança é aquele que carregamos dentro de nós próprios. Ele nos induz a só buscar e ouvir a opinião de quem apenas nos elogia e a evitar e ignorar feedbacks negativos de quem se propõe a fazê-los. Pode tornar-nos insensíveis às necessidades e desejos dos outros, o que causa problemas em nossos relacionamentos pessoais e profissionais. Alguns são superconfiantes porque nasceram e cresceram em condições bem favoráveis, além de só recebendo elogios e ouvindo que podiam e mereciam ter tudo o que quisessem. Outros são superconfiantes porque lutaram para atingir certo patamar e o usam como fundamento motivacional para tudo o que fazem desde então. É um “pensamento positivo” totalmente desvirtuado.

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