segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Mudança e Continuidade no Transcorrer da Vida

 
Muitos de nós, quando éramos crianças, ficávamos perplexos ou irritados quando algum adulto nos via depois de certo tempo e dizia admirado o quanto havíamos crescido. Mas agora que somos adultos, quando encontramos alguma criança depois de certo tempo (um parente ou filho de um conhecido), sentimos o impulso de falar o mesmo. Algumas crianças não sentem que estão crescendo, outras pensam que estão crescendo rápido demais. Já com outros adultos, evitamos comentar alguma mudança (a não ser que seja algo simpático de se dizer).
  

Em parte esse comportamento é convenção social, mas em parte é resultado da nossa expectativa de que as crianças mudem e de que os adultos permaneçam iguais. Até certo ponto essa expectativa é razoável. Porém, as crianças também apresentam continuidades e os adultos também apresentam mudanças. O menino que é tímido aos 2 anos provavelmente será pelo menos um pouco tímido aos 12. E um homem de 35 anos pode ter atitudes e valores um tanto diferentes dos que tinha aos 25 anos.
 
Assim, no estudo do desenvolvimento através do ciclo da vida, precisamos compreender tanto a mudança quanto a continuidade, padrões de desenvolvimento individuais e compartilhados, além das relativas influências da biologia e dos ambientes em que a pessoa nasce e cresce. Por quais mudanças uma pessoa passa em cada fase da vida? Temos diversas expectativas sobre o que acontece na infância, na puberdade e na maturidade. Mas como a história de vida e os ambientes influenciam essa progressão? E o que exatamente é biológico e o que é sociocultural?
   
Um dos principais tipos de mudança é aquele compartilhado e característico da idade, que pode ser produto da maturação (relógio biológico) e/ou do condicionamento ambiental (relógio social). O bebê aprende a engatinhar, depois andar e correr. Meninos e meninas entram na puberdade e desenvolvem as características físicas de homens e mulheres. Com o correr dos anos, ocorrem outras mudanças. O ambiente influencia essas mudanças, mas não pode determiná-las: elas ocorrem “de dentro para fora”.
    
Ocorre uma interação entre a programação biológica e as influências ambientais. As crianças são enviadas para a escola entre seus 5 e 7 anos, pois se acredita que nesta faixa elas já estão prontas para lidar com as tarefas escolares. Mas o fato delas serem expostas ao ambiente escolar também modela e impulsiona o seu desenvolvimento, pois elas recebem muita orientação e estímulos. Há expectativas sociais para cada faixa etária, fazendo com que a mesma interação biologia/ambiente continue por toda a vida, canalizando e impulsionando o desenvolvimento das pessoas, mas também às vezes limitando o potencial humano.
    
As culturas e subculturas podem definir de modos diversos o relógio social. Por exemplo, diferentes culturas possuem diferentes expectativas quanto a em que idades as pessoas devem se casar, quando devem ter filhos e quantos e assim por diante. Não devemos presumir que um padrão seja necessariamente o único ou o mais correto só porque é o que conhecemos. Além disso, diferentes subgrupos também passam por períodos históricos diferentes, em pontos diversos em seu desenvolvimento, sendo que todos podem alterar os seus padrões subjacentes.
    
Por exemplo, quem nasceu em 1970 completou 18 anos em 1982, quase no meio de uma década de recessão econômica no Brasil. Já quem nasceu em 1990 completou 18 anos em 2002, uma época melhor em termos econômicos e bem diversa nos aspectos político, cultural e tecnológico. Mesmo que ambos tenham nascido e crescido na mesma cidade e sejam da mesma classe social, ainda assim o contexto de cada época influenciou a formação de suas vidas, produzindo perspectivas e desafios diferentes. Como grupos, as pessoas que nasceram em 1970 e as que nasceram em 1990 possuem visões da vida muito diferentes. Em outras palavras, eles pertencem a gerações diferentes no sentido de “época”.
   
A consciência a respeito das diferenças entre os subgrupos é muito importante nos estudos dos adultos, nos quais as comparações de diferentes faixas etárias são inevitavelmente confundidas com efeitos das diferenças culturais. Digamos que uma pesquisa mostre que em determinada população as pessoas na faixa dos 20 anos tenha certo conjunto de medos e desejos a respeito de um assunto, as da faixa dos 40 tenha outro e as pessoas da faixa dos 60 anos tenha ainda outro.
    
Devemos atribuir essas diferenças às mudanças de perspectivas que ocorrem com o passar dos anos? Ou devemos atribuir aos diferentes contextos socioculturais e econômicos em que esses grupos de pessoas nasceram e cresceram? Espera-se que uma pessoa de 40 anos tenha mesmo uma visão da vida diferente da de uma de 20. Mas, em geral, uma pessoa que nasceu e cresceu em uma época de pessimismo também naturalmente terá uma mentalidade diferente da atitude de uma que nasceu e cresceu em uma época de otimismo.
     
  
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