sábado, 15 de setembro de 2012

Perfeccionismo (3/8): Ponto de Equilíbrio


É óbvio que o empenho para ajustar-se a padrões elevados é muito importante. Ninguém gostaria de ser operado por uma equipe médica que não se importasse em verificar se todos os instrumentos estão na sala de cirurgia e em boas condições. Mas não precisa ser algo tão dramático: em qualquer assunto, todos nós queremos ser atendidos por profissionais bem preparados. Este seria o extremo oposto do perfeccionismo: a pessoa que NÃO se importa em fazer um bom trabalho e em preparar-se da melhor forma possível e que se limita a fazer o mínimo obrigatório.

Porém, o perfeccionista sente-se na obrigação de fazer um trabalho tão perfeito que fica paralisado pelo medo de errar. Ninguém quer ser operado por um cirurgião à beira de um ataque de nervos por ser um perfeccionista obsessivo. Utilizando outro exemplo, um artista de circo precisa treinar bastante, com muita seriedade, para se desempenhar bem. Entretanto, se ele treinar demais em busca da perfeição, na hora do espetáculo o cansaço físico e a ansiedade vão prejudicar sua concentração.
 
Além disso, a alta exigência de desempenho pode ser dispensada em outros momentos da vida. O cirurgião ou artista que vai jogar futebol com os amigos ou praticar qualquer outro passatempo pode relaxar e exigir menos de si próprio e dos outros. Viver com altíssimas exigências em todo e qualquer momento, lugar e assunto é desnecessário e esgota qualquer pessoa. E no longo prazo diminui a qualidade e produtividade.
 
Os indivíduos que aprenderam a buscar elevados ideais quase sempre se veem em um cabo de guerra entre aquilo que acreditam que deveriam fazer e aquilo que efetivamente podem fazer. Conhecemos diversos exemplos de pessoas que obtiveram resultados extraordinários porque se recusaram a aceitar menos que isso, ouvimos falar sobre o poder da motivação em realizar o irrealizável. Tudo isso é verdade – em parte.
 
A busca da perfeição está sujeita à lei do retorno decrescente: mais empenho produz mais resultados, mas só até certo ponto, depois do qual mais esforços produzem cada vez menos retornos. A busca da perfeição pode nos motivar a dar o melhor de nós mesmos, mas se levada a extremos conduz à insatisfação crônica, resultados inferiores, procrastinação e desistência. Como escreveu o poeta francês Alfred de Musset, no século 19: “Compreender a perfeição é o auge da inteligência humana. Ambicionar possuí-la é o mais perigoso tipo de loucura.”
 
O perigo é que, com muita frequência, quando insistimos em altíssimos padrões, acabamos no zero. É a “síndrome do tudo ou nada”.
 
Se o perfeccionista concluir que não dá para chegar à “perfeição”, ele se desanima e talvez decida que é melhor não fazer nada. Ou, em vez de desistir formalmente, pode ficar alongando seu projeto e postergando seu resultado, pois quer fazer algo “perfeito”.
 
Embora para alguns o perfeccionismo se manifeste mais fortemente no seu papel profissional, a obsessão costuma influir em todos os aspectos da vida da pessoa. Há indivíduos que preferem continuar sozinhos a aceitar ter um relacionamento com uma pessoa que não satisfaça plenamente sua lista de exigências. Cada pessoa real com quem poderia se relacionar é comparada com o gabarito do seu ideal inatingível e eliminada da seleção.
 
O perfeccionista adia a conclusão de um projeto, a realização de uma festa ou a tomada de uma decisão porque espera o dia em que surjam as circunstâncias perfeitas, o que nunca ocorrerá. Não consegue estabelecer uma data e determinar que fará o melhor possível até esse dia e então realizará o que pretende mesmo sem as condições ideais. Também não consegue adotar um plano alternativo nem deixar que o acaso decida. Alguns ficam travados até com decisões banais como o sabor do sorvete.
    
Quem acredita que tem que ser “perfeito” em TUDO que fizer acaba perdendo tempo, energia e outros recursos com detalhes secundários, quando poderia e deveria estar fazendo esse investimento em aspectos mais essenciais. O perfeccionista fica tão concentrado com pormenores que deixa de ver a situação como um todo.
 
 
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