sábado, 15 de setembro de 2012

Perfeccionismo (1/8): Introdução


O Perfeccionismo é a busca compulsiva por padrões de perfeição inalcançáveis, muitas vezes arbitrários e que com frequência causam muitos problemas, limitando o potencial da própria pessoa. Pode levar ao desperdício de tempo e energia, ao esgotamento e à desistência. Sim, é bom buscar a alta qualidade e o aprimoramento constante. Mas essa busca tem que ser sempre feita com equilíbrio e bom senso.
 
Muitos de nós fomos ensinados desde a infância a buscar a perfeição, que pode ser definida como “completude”, “o nível mais alto de primor que se pode alcançar”, “a satisfação de padrões de qualidade” e “a ausência de defeitos básicos”. Há ocasiões que parecem perfeitas e certos resultados que são avaliados como tendo alcançado a perfeição. Um bom exemplo é o aluno que acerta todas as questões em uma prova de Matemática ou outra matéria e tirou a nota máxima. Ele pode congratular-se por isso.
 
Porém, na vida em geral não existe perfeição absoluta. Existe o bom, o ótimo e o quase perfeito, mas o perfeito não. Vamos usar a própria Matemática como exemplo. Digamos que alguém decida que um cálculo de divisão perfeito é o exato, aquele com resto zero (ex- 420:20=21). Enquanto ele dividir números com divisibilidade total, estará tudo bem. Mas logo encontrará números inteiros que simplesmente não podem ser divididos sem deixar algum resto (ex- 421:20=21 sobra 1).
  
Neste ponto, alguns perfeccionistas podem travar, negar a existência desses números ou até desistir da Matemática. Mas outros podem avançar e encontrar a solução, que é a divisão com casas decimais (ex- 421:20=21,5). Parte destes perfeccionistas pode encarar esse ajuste conceitual como uma degeneração, uma transigência ou pelo menos como uma condescendência. Outra parte desses perfeccionistas pode encarar esse ajuste conceitual como um progresso rumo a um novo nível de perfeição.
  
Se a história acabasse aqui, estaria razoavelmente bem para os perfeccionistas. Porém, se eles continuarem calculando divisões, logo encontrarão as dízimas periódicas simples (21,555...) e pior, as dízimas periódicas compostas com cada vez mais dígitos (21,514514514...).
  
Novamente, alguns perfeccionistas podem travar, negar a existência desses números ou até desistir da Matemática, enquanto outros podem avançar e encontrar a solução nas regras de arredondamento e em estabelecer um limite de quantas casas decimais escrever. E de novo, alguns perfeccionistas podem encarar isso como uma corrupção e outros, como uma progressão.
  
Porém, mais uma vez não acaba aqui, pois logo os perfeccionistas encontrarão os "números irracionais", que são números reais que não podem ser obtidos pela divisão de dois números reais. Aqui a provação chega ao seu clímax: como podem os perfeccionistas, tão racionalistas, aceitar a existência de números irracionais?
  
Acontece que os números irracionais têm esse nome, não porque são ilógicos, insensatos, destituídos de razão e de raciocínio, mas simplesmente porque não podem ser expressos exatamente como a “razão” (no sentido de “divisão”) de dois números inteiros. E tudo começou porque foi estabelecido um padrão que parecia sensato, mas que o tempo e a experiência foram demonstrando que era arbitrário e insustentável. Porém, o pior de tudo é que esse padrão foi rigidamente mantido até o limite.
  
Esse modo de pensar sempre foi muito comum. Mesmo depois de aceitarem o heliocentrismo, os astrônomos modernos tiveram grande dificuldade para entender as órbitas dos planetas porque durante muito tempo partiram do pressuposto de que, visto o círculo ser a forma "perfeita", as trajetórias dos astros em torno do Sol tinham que ser perfeitamente circulares. Porém, as projeções não se encaixavam com as observações, pois os planetas tinham comportamentos estranhos, como se suas órbitas fossem elípticas...
  
O mesmo ocorre em nossas vidas. No passado, formulamos conceitos que na época pareciam acurados e que provavelmente eram o melhor que podíamos conceber com o conhecimento que dispúnhamos. Porém, a experiência foi demonstrando que estes paradigmas eram simples demais e não descreviam satisfatoriamente a realidade. Em alguns casos, nos recusamos a admitir o fato e ajustar nossos conceitos, piorando o problema até desistir ou fazer a adaptação. O ajuste pode ter sido encarado como degeneração ou como progresso. Entretanto, talvez não tenhamos aprendido a lição maior.
  
Temos diversos tipos de limitações na nossa capacidade de compreender a realidade e de alcançar objetivos. Assim, para termos boa saúde psicológica e evitar tanto a mediocridade quanto o perfeccionismo, precisamos recalibrar sempre que necessário os nossos conjuntos de normas e pressupostos.
  
Portanto, de modo geral o conceito de “perfeição absoluta” é matematicamente impossível. Além disso, o próprio conceito de “perfeição”, que parece ser tão objetivo e autoevidente, é muito mais arbitrário e subjetivo do que costumamos perceber. E ironicamente gera muitos defeitos. Vejamos algumas imperfeições do conceito de “perfeição”.
   
  
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