O Perfeccionismo
é a busca compulsiva por padrões de perfeição inalcançáveis, muitas vezes
arbitrários e que com frequência causam muitos problemas, limitando o potencial
da própria pessoa. Pode levar ao desperdício de tempo e energia, ao esgotamento
e à desistência. Sim, é bom buscar a alta qualidade e o aprimoramento constante.
Mas essa busca tem que ser sempre feita com equilíbrio e bom senso.
Muitos de nós fomos ensinados desde a infância a
buscar a perfeição, que pode ser definida como “completude”, “o nível mais alto
de primor que se pode alcançar”, “a satisfação de padrões de qualidade” e “a ausência
de defeitos básicos”. Há ocasiões que parecem perfeitas e certos resultados que
são avaliados como tendo alcançado a perfeição. Um bom exemplo é o aluno que
acerta todas as questões em uma prova de Matemática ou outra matéria e tirou a
nota máxima. Ele pode congratular-se por isso.
Porém, na vida em geral não existe perfeição
absoluta. Existe o bom, o ótimo e o quase perfeito, mas o perfeito não. Vamos usar
a própria Matemática como exemplo. Digamos que alguém decida que um cálculo de
divisão perfeito é o exato, aquele com resto zero (ex- 420:20=21). Enquanto ele dividir
números com divisibilidade total, estará tudo bem. Mas logo encontrará números
inteiros que simplesmente não podem ser divididos sem deixar algum resto (ex-
421:20=21 sobra 1).
Neste ponto, alguns perfeccionistas podem travar,
negar a existência desses números ou até desistir da Matemática. Mas outros
podem avançar e encontrar a solução, que é a divisão com casas decimais (ex-
421:20=21,5). Parte destes perfeccionistas pode encarar esse ajuste conceitual como
uma degeneração, uma transigência ou pelo menos como uma condescendência. Outra
parte desses perfeccionistas pode encarar esse ajuste conceitual como um
progresso rumo a um novo nível de perfeição.
Se a história acabasse aqui, estaria razoavelmente
bem para os perfeccionistas. Porém, se eles continuarem calculando divisões, logo
encontrarão as dízimas periódicas simples (21,555...) e pior, as dízimas
periódicas compostas com cada vez mais dígitos (21,514514514...).
Novamente, alguns perfeccionistas podem travar,
negar a existência desses números ou até desistir da Matemática, enquanto
outros podem avançar e encontrar a solução nas regras de arredondamento e em
estabelecer um limite de quantas casas decimais escrever. E de novo, alguns
perfeccionistas podem encarar isso como uma corrupção e outros, como uma
progressão.
Porém, mais uma vez não acaba aqui, pois logo
os perfeccionistas encontrarão os "números irracionais", que são números reais que não podem ser
obtidos pela divisão de dois números reais. Aqui a provação chega ao seu
clímax: como podem os perfeccionistas, tão racionalistas, aceitar a existência
de números irracionais?
Acontece que os números irracionais têm esse nome,
não porque são ilógicos, insensatos, destituídos de razão e de raciocínio, mas
simplesmente porque não podem ser expressos exatamente como a “razão” (no
sentido de “divisão”) de dois números inteiros. E tudo começou porque foi
estabelecido um padrão que parecia sensato, mas que o tempo e a experiência
foram demonstrando que era arbitrário e insustentável. Porém, o pior de tudo é
que esse padrão foi rigidamente mantido até o limite.
Esse modo de pensar sempre foi muito comum. Mesmo
depois de aceitarem o heliocentrismo, os astrônomos modernos tiveram grande
dificuldade para entender as órbitas dos planetas porque durante muito tempo
partiram do pressuposto de que, visto o círculo ser a forma "perfeita", as
trajetórias dos astros em torno do Sol tinham que ser perfeitamente circulares.
Porém, as projeções não se encaixavam com as observações, pois os planetas
tinham comportamentos estranhos, como se suas órbitas fossem elípticas...
O mesmo ocorre em nossas vidas. No passado,
formulamos conceitos que na época pareciam acurados e que provavelmente eram o
melhor que podíamos conceber com o conhecimento que dispúnhamos. Porém, a
experiência foi demonstrando que estes paradigmas eram simples demais e não
descreviam satisfatoriamente a realidade. Em alguns casos, nos recusamos a
admitir o fato e ajustar nossos conceitos, piorando o problema até desistir ou
fazer a adaptação. O ajuste pode ter sido encarado como degeneração ou como
progresso. Entretanto, talvez não tenhamos aprendido a lição maior.
Temos diversos tipos de limitações na nossa capacidade de
compreender a realidade e de alcançar objetivos. Assim, para termos boa saúde
psicológica e evitar tanto a mediocridade quanto o perfeccionismo, precisamos
recalibrar sempre que necessário os nossos conjuntos de normas e pressupostos.
Portanto, de modo geral o conceito de “perfeição
absoluta” é matematicamente impossível. Além disso, o próprio conceito de
“perfeição”, que parece ser tão objetivo e autoevidente, é muito mais
arbitrário e subjetivo do que costumamos perceber. E ironicamente gera muitos defeitos. Vejamos algumas imperfeições
do conceito de “perfeição”.
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