Quatro verdades sobre o perfeccionismo: Com frequência, o que chamamos de “perfeição” é
mera preferência pessoal que outros podem chamar de “imperfeição”. Às vezes, o
que é considerado “perfeição” muda com o tempo e o lugar. A genuína perfeição
pode envolver algumas imperfeições. Perfeição em excesso pode levar à imperfeição
e até ao colapso. Vejamos em mais detalhes cada uma dessas afirmativas.
V1- Com
frequência, o que chamamos de “perfeição” é mera preferência pessoal que outros
podem chamar de “imperfeição”
Grande parte do que fazemos é avaliado pelos
demais, que nem sempre concordam conosco em sua avaliação, nem entre si. Já
aconteceu de você ler duas críticas de cinema (feitas por especialistas) tão divergentes que ficou
pensando se os seus autores assistiram o mesmo filme? Um diz que o filme é
ótimo e que você TEM que assistir, o outro diz que o filme é péssimo e
recomenda que poupe o seu dinheiro.
Há alguns anos uma pesquisa em diversos Estados
brasileiros pediu a membros de partidos da “oposição” e “aliados” que
apontassem as três maiores qualidades e as três maiores falhas do governador do
respectivo Estado. Então se chegou a uma lista de qualidades e defeitos feita
pelos opositores e outra lista feita pelos aliados.
A surpresa é que, de modo geral, as
mesmas características apontadas como “qualidades” pelos aliados foram interpretadas como “defeitos”
pelos opositores, enquanto as características apontadas como “qualidades” pelos
opositores foram interpretadas como “defeitos” pelos aliados.
Isso NÃO quer dizer que “tudo é relativo” e que
“não existe verdade”. Significa sim que as pessoas possuem diferentes valores,
critérios e interesses. Infelizmente, muitos se sacrificam enormemente para equalizar-se com padrões
superexigentes, vivendo por anos tensos e frustrados, sem perceber o quanto
estes padrões são arbitrários e subjetivos.
V2- O que é considerado “perfeição” pode mudar com o tempo e o lugar
Um bom exemplo são os costumes sociais e as normas
de etiqueta, que mudaram muito no decorrer das décadas e séculos e continuam
mudando, além de serem diferentes de uma cultura para outra. O que era
considerado “perfeito” antes pode ser considerado estranho e até bizarro hoje. E
vice-versa. Outro bom exemplo são os padrões de estética, sobre os quais podemos
dizer o mesmo.
Novamente, NÃO se trata de relativismo. Existe uma
coerência subjacente a este caos. Por exemplo, os padrões de estética indicam
saúde física e mental, boa situação econômica, status social e conformidade com
os valores sociais. Conforme muda o contexto socioeconômico, essa expressão
adapta-se aos novos tempos. Até o começo do século 20, ser bronzeado e
musculoso era sinal de trabalho braçal sob o Sol e, portanto, de pobreza; sinal
de riqueza era ser o mais pálido possível e acima do peso. Ou seja: o sinal
inverteu-se por completo, mas o sinalizado continua o mesmo.
V3- A
genuína perfeição pode envolver algumas imperfeições
Imagine que você vai assistir alguém falar em
público. Se o palestrante cometer muitos erros (esquecer pontos e retroagir,
confundir-se com seu próprio material, pronunciar errado palavras-chave do seu
discurso, etc.), você concluirá que ele é inexperiente e/ou não se preparou
bem.
Mas se o palestrante for “perfeito demais”, tendo
decorado seu texto e pronunciando cada palavra exatamente como escreveu, falando
com uma “linguagem escrita” e parecendo um programa de computador de leitura de textos, a
apresentação ficará mecânica, sem vida. Você concluirá que o palestrante se
preparou bem, mas que deve ser inexperiente e cogitará até que ponto realmente
compreendia o que ele próprio estava dizendo.
Agora imagine que você vai assistir um palestrante que não comete nenhum erro elementar: sua apresentação
tem começo, meio e fim, ele flui naturalmente através dos pontos principais,
utiliza bem seu material, pronuncia corretamente as palavras e assim por
diante.
Ao mesmo tempo, ele está explicando e não recitando o texto que
elaborou, falando com uma “linguagem oral” e com sentimentos, parecendo estar
conversando com as pessoas. O palestrante talvez cometa alguns pequenos erros que a
maioria nem nota, mas prossegue sem se abalar e até decide na hora falar alguns
pontos de forma diferente da que planejou.
Você concluirá que o palestrante se
preparou bem, é experiente e sabia do que estava falando. De fato, alguns
palestrantes muito habilidosos chegam a programar alguns lapsos inócuos para
dar um sabor especial à apresentação.
É uma bela metáfora sobre a vida...
V4- Perfeição
em excesso pode levar à imperfeição e até ao colapso
Os sindicatos de transporte britânicos são
proibidos por lei de fazer greve. Certa vez, as negociações contratuais
chegaram a um impasse e eles descobriram uma forma de contornar essa lei:
“trabalhar segundo as regras”, seguindo cada tópico do manual de forma
meticulosa e ao pé da letra. A mera obediência estrita às normas já levou o
sistema de trânsito britânico mais de uma vez ao caos e à paralisação.
É óbvio que essas paralisações por perfeccionismo
foram propositais. Mas o ponto aqui é que muitos diminuem ou até sabotam sua
própria efetividade justamente por sua obsessão de sempre produzir o máximo e o
melhor possível. O
perfeccionismo gera muitas imperfeições.
* * *

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