Aparentemente, estamos vivendo em tempos de maior tolerância. Mas sempre temos que olhar os três lados da moeda (isso mesmo, três). O que motiva as atitudes “tolerantes” das pessoas é o respeito sincero pelos direitos dos outros dentro dos parâmetros democráticos? Ou é a pura e simples indiferença? O fato é que a suposta tolerância atual só surgiu com o enfraquecimento das convicções do pós-modernismo. Muitos não são tolerantes de fato, eles simplesmente não se importam, são apáticos. E essa apatia os leva a tolerar também o que não deveria ser tolerado, como desonestidades e preconceitos.
Além disso, vale notar que muitos “defensores da tolerância” exigem tolerância para si mesmos, mas são altamente intolerantes para quem pensa diferente deles. A pessoa considera-se no pleno direito de expor suas discordâncias das ideias de outros, mas não aceita que ninguém nem sequer diga que pensa diferente dela, muito menos que explique sua opinião.
É fácil ser contra os preconceitos que nos atingem; o desafio é perceber e combater os preconceitos que nos beneficiam. Por exemplo, muitos acreditam que apenas as mulheres são vítimas de discriminação sexual e que apenas os homens são discriminadores. Qualquer dicionário possui as palavras “machismo”, “misoginia” e “feminismo”. Mas poucos contêm “femismo”, “misandria” e “masculinismo”. Até o corretor ortográfico do World acusa erro nestas três. O sexismo contra homens não existe!
Pessoas com atitude genuinamente democrática não praticam a intolerância dogmática: onde começa a perseguição, termina a democracia genuína. Mas isso não significa que não possuem fortes convicções e/ou que não defendem o que pensam. Não é necessário escolher entre ser um dogmático e um relativista, há uma terceira opção. Um verdadeiro pensador crítico, uma pessoa capaz de fazer análises criteriosas de informações que recebe e elaborar distinções e associações com competência, forçosamente possui convicções a respeito de determinados assuntos. E possui não apenas o direito, mas a obrigação de expressá-las. A diferença é que ele sabe quando e como expressar essas convicções dentro dos parâmetros democráticos.
Indivíduos com elevados padrões éticos praticam a tolerância dentro dos parâmetros democráticos, o que significa que NÃO são indiscriminadamente tolerantes (ou seja, permissivos, indiferentes). Aceitam pacificamente que outros pensem e ajam diferentemente deles, desde que respeitando os direitos dos demais. Mas ao mesmo tempo podem se expressar civilizadamente contra opiniões e comportamentos que consideram perniciosos. E podem tomar medidas legais para defender suas convicções.
Muitos pensam que ser tolerante significa deixar convicções de lado e adotar as ideias propagadas como “esclarecidas”. Mas “tolerância” não significa que todos devemos pensar igual. Ao contrário, precisamos praticar a tolerância justamente porque pensamos diferente! Alguns podem discordar profundamente de outras pessoas ou grupos e divulgar sua discordância. Desde que não espalhem mentiras (incluindo meias-verdades) e não incitem o ódio, isso não é intolerância. O erro é quando se busca prejudicar ou impedir indevidamente as atividades de outros.
A liberdade é relativa. Todos nós temos limitações impostas pelas leis naturais e sociais. Além disso, a democracia se alicerça na liberdade responsável. Através dos Três Poderes, o Estado precisa equilibrar o bem-estar coletivo com as liberdades individuais. Alguns pensam que a balança deveria pender mais para um lado, outros pensam o contrário. Para obter e manter o ponto de equilíbrio é necessário que o debate seja permitido, que nenhuma opinião seja instituída como ortodoxa (literalmente: “opinião correta”) e outra proibida como heterodoxa. Nenhum grupo deve receber tratamento especial nem ter monopólio da mídia. E nenhum grupo deve ser alvo de leis especiais nem de campanhas difamatórias.
É um desafio “ser tolerante sem ser indiferente e relativista” e ao mesmo tempo “defender fortes convicções sem ser dogmático e impositor”. Nossa tendência natural é desconfiar do que é desconhecido e diferente. A única forma de vencer o desafio da tolerância equilibrada é através da educação. Os formadores de opinião devem ser responsáveis, imparciais e objetivos. Combater o preconceito em vez de alimentá-lo.
Precisamos aprender a pensar de forma criteriosa sobre as informações que recebemos. E temos que aprender a ver aqueles que possuem características e convicções diferentes das nossas como sendo primariamente humanos, assim como nós. Se estivermos realmente convictos do nosso próprio valor intrínseco como pessoas e tivermos um mínimo de conhecimento das razões de nossas crenças, não ficaremos perturbados só porque alguém é diferente ou pensa diferente de nós.
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