Vamos examinar de forma objetiva quatro pensamentos e sentimentos típicos que muitos perfeccionistas seguem:
P1- “Eles têm padrões mais baixos e se dão bem, mas só porque eles fazem isso não torna aceitável que eu faça o mesmo”
Sim, certas pessoas seguem padrões inferiores e se saem bem. Não estamos sugerindo que você nivele por baixo. Mas pergunte-se: (1) Será que o fato de outros seguirem normas diferentes das nossas quer dizer que eles não possuem padrões dignos? (2) Será que ajustarmos nossas normas por um bom motivo significa abandonar completamente os padrões?
A resposta é “Não”. Aceitar o fato de que às vezes é possível (e até necessário, por força das circunstâncias) fazer algo bom, mas abaixo do ideal, não significa adotar padrões baixos. Em alguns casos temos que ajustar nossas metas para determinado projeto: seria ótimo fazer algo perfeito, mas precisamos nos contentar em fazer algo que seja “apenas” bom o suficiente por causa de um prazo que se exaure ou de recursos limitados.
P2- “Eles podem dar uma mancada de vez em quando sem grandes consequências porque são muito bem-sucedidos, mas eu não”
Com certeza, é muito mais fácil cometer um erro sem sofrer grandes adversidades quando se é “bem-sucedido”. Perder R$10.000,00 é menos significativo para quem possui R$1.000.000,00 do que para quem possui R$10.001,00. Porém, obter êxito mesmo cometendo alguns erros honestos e apresentando resultados bons, embora abaixo do ideal de perfeição, é algo ao alcance de todos, não apenas dos privilegiados.
Aplique na sua vida o conceito matemático de “proporção” (igualdade entre duas razões): 20 está para 100 assim como 200 está para 1000. Em outras palavras, o fato de algumas pessoas contarem com uma margem de manobra maior que a sua não significa que você não possui nenhuma margem de manobra. Esse é um exemplo da síndrome do “tudo ou nada”: pensamos que os outros têm tudo e nós, nada. Mas raramente isso é verdade.
P3- “Se eles fazem tudo tão perfeito, eu também consigo”
Como você pode ter tanta certeza de que TUDO o que “eles” fazem é perfeito? Nossa tendência é idealizar aqueles a quem admiramos. Parece que eles sempre vencem grandes desafios sem dificuldades. Mas isso simplesmente não é verdade. Ninguém é perfeito e ninguém leva uma vida perfeita. É impossível que esses que você admira não errem nunca ou sempre tenham tido a maestria que possuem hoje.
Se for possível perguntar ao seu herói se ele nunca cometeu deslizes, enfrentou uma situação embaraçosa, sofreu reveses, não conseguiu algo que queria, talvez você ouça uma “confissão” bem-humorada: muitos gostam de contar suas desventuras, agora que são águas passadas.
O que diferencia os realizadores é que eles não se deixam abater pelos contratempos e reveses. Reconhecem seus resultados negativos, extraem lições, procuram aprender novos métodos, reavaliam suas metas e prosseguem de cabeça erguida. Não encaram suas dificuldades como falhas de caráter, mas como oportunidades de aprendizagem.
O que diferencia os realizadores é que eles não se deixam abater pelos contratempos e reveses. Reconhecem seus resultados negativos, extraem lições, procuram aprender novos métodos, reavaliam suas metas e prosseguem de cabeça erguida. Não encaram suas dificuldades como falhas de caráter, mas como oportunidades de aprendizagem.
Além disso, conforme já dito, tudo o que somos é resultado da interação entre nossa herança genética, nossos fatores ambientais e nossas decisões diante dessas duas forças. Não existem duas pessoas que tenham recebido exatamente as mesmas contingências genéticas e ambientais. Os seus heróis com certeza são diferentes de você nesses dois aspectos. Por isso eles podem servir de modelos, mas não de padrões.
P4- “Espero perfeição do meu [filho/cônjuge/colega/subordinado] porque quero o melhor para ele, quero motivá-lo a dar o melhor de si”
Estamos mesmo querendo que a pessoa dê o melhor de si? Ou estamos exigindo que ela faça algo extenuante ou até além da sua capacidade atual? A diferença pode ser tênue e exigir perfeição custa caro. A pessoa pode se esgotar tentando satisfazer suas exigências exageradas, perder todo o prazer com a tarefa e passar a considerá-la aversiva e concluir que é melhor nem tentar, pois sabe que nada do que fizer nunca será suficiente.
Há pais, cônjuges, colegas, chefes e professores que realmente querem que as pessoas sob o seu cuidado tenham bom desempenho, façam o seu melhor possível, se desenvolvam e tenham êxito. Mas muitos possuem motivações narcisistas: consideram os demais meras extensões de si próprios e querem se realizar através deles. Outros são perfeccionistas interpessoais para extravasar sua própria ansiedade. E lá no fundo, alguns desejam que a outra pessoa seja malsucedida para que possam se sentir superiores.
Na sua relação com colegas, o perfeccionista pode adotar um gabarito geral “tudo ou nada” e classificar a maioria deles como “medíocres”. Estabelece padrões altíssimos e avalia a si mesmo e/ou os seus colegas por estes critérios, reprovando a maior parte deles. Ou pode parecer que ele faz isso. Essa atitude gera ressentimentos e rejeições mútuos. O perfeccionista faria bem em elaborar uma lista de prós e contras de manter esse modo de pensar e agir. Talvez conclua que é melhor fazer alguns ajustes.
Que tal trocar o gabarito geral “tudo ou nada” por uma escala de zero a dez para diversas qualidades principais que cada um pode ter? Por exemplo, uma mesma pessoa pode ser um pouco falha em questões de pontualidade, mas muito boa em cooperação. Assim, talvez você descubra que as pessoas com quem convive são melhores do que supunha.
Existe uma diferença sutil entre dar um bom exemplo e estabelecer padrões altíssimos. Claro que um indivíduo pode concluir que não está sendo perfeccionista (outros é que estão sendo medíocres) e decidir continuar com o mesmo modo de pensar e agir, ainda que isso custe a reprovação deles. Ou pode tirar alguma conclusão e decisão intermediária. O essencial é estar cônscio das consequências e fazer uma escolha planejada.
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