Eu, fazer terapia? Mas eu não sou louco! E como direi isso aos outros? Vale a pena gastar tempo e dinheiro com terapia? Eu não tenho que ser independente? Será que posso me expor? O terapeuta é melhor do que eu? Essas questões são analisadas a seguir.
Você está há meses ou mesmo anos se debatendo sobre um
conjunto de problemas que não consegue superar definitivamente, seja na
família, no relacionamento ou no trabalho. Volta a cometer os mesmos erros e/ou
a sofrer as mesmas dificuldades, apesar de ter determinado que faria diferente.
Parece que outros conseguem lidar melhor com essas situações, mas você anda em
círculos e não consegue sair do labirinto.
A ideia de fazer terapia pode surgir de forma gradual ou
repentina. Em alguns casos, alguém lhe diz diretamente (de forma gentil ou
abrupta) para buscar ajuda profissional. Em outros casos, você gradualmente assimila
informações sobre terapia e então tem um insight.
Cogitar fazer terapia mexe com nossos sentimentos e
pensamentos, é uma alternativa que nunca é encarada de forma banal. É diferente
de ir a um dentista ou a outro profissional. Enquanto problemas orgânicos são
encarados como normais, problemas psíquicos muitas vezes são vistos como sinais
de inferioridade e/ou de deficiência moral. Assim, podem surgir diversas
objeções à ideia.
“Eu Não
Sou Louco!”
Embora a frequência desta objeção tenha reduzido, ela
ainda persiste, ainda que seja em formas mais sutis e refinadas. O estereótipo
de “médico de loucos” passou dos psiquiatras para os psicólogos, o
que também é preconceituoso. Felizmente, essa ideia está mudando.
Quando falamos que alguém é ou está “louco”, mesmo que seja apenas como força de expressão (“louco de ciúmes”, “louco pelo time”,
etc.), queremos dizer que ele perdeu a lucidez e a capacidade de raciocínio
normal e que isso alterou o seu comportamento. Espera-se que, em vez disso, de
modo geral tenhamos autodomínio e racionalidade. Assim, a admissão da dificuldade
de solucionar sozinho os seus problemas provoca reações de autoafirmação como
sendo mentalmente saudável.
Você pode objetar que é apenas uma fase ruim e que com
tempo e esforço sairá dela, recuperando o seu equilíbrio interior e exterior.
Porém, é provável que esse equilíbrio não possa ser recuperado porque nunca
existiu, pelo menos não de forma madura e salutar. Você nunca recebeu
orientação e apoio de qualidade para saber processar os seus sentimentos,
interagir bem com os outros, tomar decisões e resolver problemas.
Porém, é interessante observar que procurar ajuda
terapêutica na verdade é sinal de lucidez, de coragem e de humildade, o que
caracteriza esclarecimento. Pessoas com distúrbios mentais têm dificuldade de
reconhecer o seu problema; quanto pior o distúrbio, menos consciência o
indivíduo tem dele. O mesmo vale para a imaturidade: quanto mais imaturo for um
adulto, menos ele reconhece esse fato. Assim, inversamente, apenas pessoas com
um mínimo de lucidez e de maturidade reconhecem que possuem pontos cegos,
“gargalos”, que estão em um círculo vicioso de autossabotagem e que terapia pode ajudá-las.
"Louco é quem nunca fez terapia".
Como
Direi aos Outros?
Uma dificuldade para muitas pessoas aceitarem ajuda
terapêutica é a vergonha de admitir publicamente que sentiram a necessidade de
tal ajuda e ser taxado de “incapaz”, “intelectualmente limitado” ou “moralmente
inferior”.
O fato é que você não precisa divulgar essa informação
publicamente. Basta que informe algumas poucas pessoas próximas e peça que não
divulguem. Se o incomoda admitir que está fazendo terapia, pode simplesmente
não contar esse assunto particular para todo mundo. E quando contar, não
precisa entrar em detalhes sobre o que exatamente conversa com o seu
psicoterapeuta. Não se trata de covardia ou imaturidade de sua parte, mas sim
de ação estratégica para lidar com possíveis preconceitos.
Se for necessário ou desejável contar para alguém, o faça
claramente, sem constrangimento. É a atitude de quem poderia continuar tentando
resolver determinados problemas sozinho, mas concluiu ser mais produtivo buscar
ajuda profissional. Sua atitude sóbria provavelmente inspirará respeito e pode
até dar forças para alguém fazer o mesmo.
Curiosamente, fazer terapia em alguns círculos pode ser
um modismo, um símbolo de status. Então você deve refletir se quer fazer
terapia para melhorar seu autoconhecimento e autogerenciamento ou se é para
impressionar a terceiros.
Vale a
Pena Gastar Tempo e Dinheiro com Terapia?
Somente você pode responder a esta pergunta, pois ela se
refere à sua vida. A resposta depende do valor que dá aos objetivos
terapêuticos e na sua confiança no profissional quanto a poder ajudá-lo. Se
esses dois fatores forem positivos, a resposta é “sim”.
Claro que fazer psicoterapia não é como um curso
profissionalizante, que você recebe um diploma que o habilita a fazer um
trabalho e que consta no seu currículo para incrementá-lo aos olhos de
possíveis empregadores ou clientes. Não vai lhe dar um retorno financeiro,
embora o ajude a ser um melhor profissional.
O objetivo é desenvolver um equilíbrio e uma estabilidade
interiores através do maior autoconhecimento e autogerenciamento, aprender a
tomar melhores decisões, evitar repetir erros recorrentes, cultivar
discernimento, melhorar suas interações com os outros, ter uma perspectiva
sóbria de si mesmo e da vida. Isso é importante para você?
Mas
Sempre me Disseram para Ser Independente!
Precisamos ter uma compreensão sensata do que é
“independência”. Uma criança pequena é dependente em todos os sentidos (físico,
emocional, intelectual e financeiro). Na medida em que cresce e se torna
adulta, vai se tornando independente de modo geral, o que significa que passa a
ser relativamente autossuficiente. Ou seja, pode suprir suas demandas sozinha,
sem depender de nenhuma pessoa específica.
Porém, independência absoluta é impossível. Sempre
precisamos de outros, embora não de pessoas específicas. Mesmo quando alguém
pode fazer algo sozinho, em geral é mais prazeroso e produtivo fazer junto com
outros. Isso se chama “interdependência”.
Entretanto, muitos confundem “interdependência” com “dependência”,
imaturidade, lacuna. Têm medo de reconhecer suas limitações que não conseguem
transpor sozinhos e de buscar ajuda. Porém, a interdependência é maior e melhor
do que a independência. Nós tiramos proveito dos conhecimentos de inúmeros
profissionais em vez de tentar resolver tudo sozinho; por que não fazer o mesmo
com nosso cognitivo-comportamental?
Se você toca um instrumento musical e quer aumentar o seu
nível de habilidade, pode treinar sozinho ou pode recorrer a um professor de
música, o que no longo prazo poupará tempo e energia. Nesta relação
instrutor/aprendiz, tem que reconhecer suas limitações atuais e se subordinar às
orientações dele, renunciando temporariamente à uma parcela de sua autonomia. Mas
o resultado final será um aumento de sua habilidade e autonomia. É o que ocorre
na terapia.
Posso
Me Expor?
Esse medo reflete um dos problemas que precisam ser
tratados na terapia: o medo do outro e a inabilidade de averiguar até que ponto
ele é confiável. No relacionamento terapêutico você vai expor os seus pontos
fortes e fracos, acertos e erros. E receberá feedbacks valiosos. Essa
experiência (além dos benefícios específicos dos feedbacks) vai ajudá-lo a
assimilar a crença de que existem pessoas confiáveis e vai treinar sua intuição
e intelecto para identificá-las e confiar nelas adequadamente.
De acordo com Stephen Covey, a confiabilidade possui dois
fatores: o fator técnico (competência)
e o fator humano (caráter). Um
indivíduo é confiável na medida em que possui os dois fatores em quantidade
suficiente para a atividade em questão. Aplicando este conceito na terapia,
você perceberá como o terapeuta é enestes dois fatores e
gradualmente confiará nele. Dê o benefício da dúvida e observe. Não espere
perfeição e sim integridade.
O
Terapeuta é Melhor do que Eu?
O que causa esse medo é o nosso narcisismo, com sua
vaidade e frágil autoestima. Acreditamos que em toda interação tem que haver um
ser superior e um inferior e tememos que neste caso o inferior sejamos nós.
Esse receio (junto com o desejo de receber ajuda e com a apreciação pelo
trabalho dele) pode provocar um misto de sentimentos inconscientes positivos e
negativos em relação ao terapeuta, que nos fazem querer nos aproximar e ao
mesmo tempo querer nos afastar de sua presença.
O terapeuta não é melhor do que você como ser humano. Ele
também possui limitações humanas. Mas ele é um profissional qualificado para
cumprir o papel de terapeuta e no contexto do consultório está exercendo um
papel diferente do seu (paciente/cliente) e complementar a ele. Assim, não cabe
ali fazer comparações ou competir de qualquer outra forma, mas sim cada um desempenhar
o seu papel.
Ele se envolve sem ficar envolvido, como um médico que
mantém a serenidade ao atender uma pessoa justamente para poder atendê-la o
melhor possível. O objetivo é aplicar os conhecimentos de psicologia dele ao
seu caso, que é único e ao mesmo tempo semelhante a muitos outros. Não vai
condenar você nem tomar suas decisões em seu lugar. Vai aceitá-lo como é,
estimulá-lo a se aprimorar e lhe dar orientação e apoio.
“Cada
homem que encontro é superior a mim em algo
e neste aspecto aprendo com ele”
Ralph
Waldo Emerson
* * *

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Envie-nos seu comentário inteligente e educado: