domingo, 15 de setembro de 2013

Objeções contra Fazer Psicoterapia


Eu, fazer terapia? Mas eu não sou louco! E como direi isso aos outros? Vale a pena gastar tempo e dinheiro com terapia? Eu não tenho que ser independente? Será que posso me expor? O terapeuta é melhor do que eu? Essas questões são analisadas a seguir.


Você está há meses ou mesmo anos se debatendo sobre um conjunto de problemas que não consegue superar definitivamente, seja na família, no relacionamento ou no trabalho. Volta a cometer os mesmos erros e/ou a sofrer as mesmas dificuldades, apesar de ter determinado que faria diferente. Parece que outros conseguem lidar melhor com essas situações, mas você anda em círculos e não consegue sair do labirinto.
 
A ideia de fazer terapia pode surgir de forma gradual ou repentina. Em alguns casos, alguém lhe diz diretamente (de forma gentil ou abrupta) para buscar ajuda profissional. Em outros casos, você gradualmente assimila informações sobre terapia e então tem um insight.
 
Cogitar fazer terapia mexe com nossos sentimentos e pensamentos, é uma alternativa que nunca é encarada de forma banal. É diferente de ir a um dentista ou a outro profissional. Enquanto problemas orgânicos são encarados como normais, problemas psíquicos muitas vezes são vistos como sinais de inferioridade e/ou de deficiência moral. Assim, podem surgir diversas objeções à ideia.
 
 
“Eu Não Sou Louco!”
 
Embora a frequência desta objeção tenha reduzido, ela ainda persiste, ainda que seja em formas mais sutis e refinadas. O estereótipo de “médico de loucos” passou dos psiquiatras para os psicólogos, o que também é preconceituoso. Felizmente, essa ideia está mudando.
 
Quando falamos que alguém é ou está “louco”, mesmo que seja apenas como força de expressão (“louco de ciúmes”, “louco pelo time”, etc.), queremos dizer que ele perdeu a lucidez e a capacidade de raciocínio normal e que isso alterou o seu comportamento. Espera-se que, em vez disso, de modo geral tenhamos autodomínio e racionalidade. Assim, a admissão da dificuldade de solucionar sozinho os seus problemas provoca reações de autoafirmação como sendo mentalmente saudável.
 
Você pode objetar que é apenas uma fase ruim e que com tempo e esforço sairá dela, recuperando o seu equilíbrio interior e exterior. Porém, é provável que esse equilíbrio não possa ser recuperado porque nunca existiu, pelo menos não de forma madura e salutar. Você nunca recebeu orientação e apoio de qualidade para saber processar os seus sentimentos, interagir bem com os outros, tomar decisões e resolver problemas.
 
Porém, é interessante observar que procurar ajuda terapêutica na verdade é sinal de lucidez, de coragem e de humildade, o que caracteriza esclarecimento. Pessoas com distúrbios mentais têm dificuldade de reconhecer o seu problema; quanto pior o distúrbio, menos consciência o indivíduo tem dele. O mesmo vale para a imaturidade: quanto mais imaturo for um adulto, menos ele reconhece esse fato. Assim, inversamente, apenas pessoas com um mínimo de lucidez e de maturidade reconhecem que possuem pontos cegos, “gargalos”, que estão em um círculo vicioso de autossabotagem e que terapia pode ajudá-las.
 
"Louco é quem nunca fez terapia".
 
 
Como Direi aos Outros?
 
Uma dificuldade para muitas pessoas aceitarem ajuda terapêutica é a vergonha de admitir publicamente que sentiram a necessidade de tal ajuda e ser taxado de “incapaz”, “intelectualmente limitado” ou “moralmente inferior”.
 
O fato é que você não precisa divulgar essa informação publicamente. Basta que informe algumas poucas pessoas próximas e peça que não divulguem. Se o incomoda admitir que está fazendo terapia, pode simplesmente não contar esse assunto particular para todo mundo. E quando contar, não precisa entrar em detalhes sobre o que exatamente conversa com o seu psicoterapeuta. Não se trata de covardia ou imaturidade de sua parte, mas sim de ação estratégica para lidar com possíveis preconceitos.
 
Se for necessário ou desejável contar para alguém, o faça claramente, sem constrangimento. É a atitude de quem poderia continuar tentando resolver determinados problemas sozinho, mas concluiu ser mais produtivo buscar ajuda profissional. Sua atitude sóbria provavelmente inspirará respeito e pode até dar forças para alguém fazer o mesmo.
 
Curiosamente, fazer terapia em alguns círculos pode ser um modismo, um símbolo de status. Então você deve refletir se quer fazer terapia para melhorar seu autoconhecimento e autogerenciamento ou se é para impressionar a terceiros.
 
 
Vale a Pena Gastar Tempo e Dinheiro com Terapia?
 
Somente você pode responder a esta pergunta, pois ela se refere à sua vida. A resposta depende do valor que dá aos objetivos terapêuticos e na sua confiança no profissional quanto a poder ajudá-lo. Se esses dois fatores forem positivos, a resposta é “sim”.
 
Claro que fazer psicoterapia não é como um curso profissionalizante, que você recebe um diploma que o habilita a fazer um trabalho e que consta no seu currículo para incrementá-lo aos olhos de possíveis empregadores ou clientes. Não vai lhe dar um retorno financeiro, embora o ajude a ser um melhor profissional.
 
O objetivo é desenvolver um equilíbrio e uma estabilidade interiores através do maior autoconhecimento e autogerenciamento, aprender a tomar melhores decisões, evitar repetir erros recorrentes, cultivar discernimento, melhorar suas interações com os outros, ter uma perspectiva sóbria de si mesmo e da vida. Isso é importante para você?
 
 
Mas Sempre me Disseram para Ser Independente!
 
Precisamos ter uma compreensão sensata do que é “independência”. Uma criança pequena é dependente em todos os sentidos (físico, emocional, intelectual e financeiro). Na medida em que cresce e se torna adulta, vai se tornando independente de modo geral, o que significa que passa a ser relativamente autossuficiente. Ou seja, pode suprir suas demandas sozinha, sem depender de nenhuma pessoa específica.
 
Porém, independência absoluta é impossível. Sempre precisamos de outros, embora não de pessoas específicas. Mesmo quando alguém pode fazer algo sozinho, em geral é mais prazeroso e produtivo fazer junto com outros. Isso se chama “interdependência”.
 
Entretanto, muitos confundem “interdependência” com “dependência”, imaturidade, lacuna. Têm medo de reconhecer suas limitações que não conseguem transpor sozinhos e de buscar ajuda. Porém, a interdependência é maior e melhor do que a independência. Nós tiramos proveito dos conhecimentos de inúmeros profissionais em vez de tentar resolver tudo sozinho; por que não fazer o mesmo com nosso cognitivo-comportamental?
 
Se você toca um instrumento musical e quer aumentar o seu nível de habilidade, pode treinar sozinho ou pode recorrer a um professor de música, o que no longo prazo poupará tempo e energia. Nesta relação instrutor/aprendiz, tem que reconhecer suas limitações atuais e se subordinar às orientações dele, renunciando temporariamente à uma parcela de sua autonomia. Mas o resultado final será um aumento de sua habilidade e autonomia. É o que ocorre na terapia.
 
 
Posso Me Expor?
 
Esse medo reflete um dos problemas que precisam ser tratados na terapia: o medo do outro e a inabilidade de averiguar até que ponto ele é confiável. No relacionamento terapêutico você vai expor os seus pontos fortes e fracos, acertos e erros. E receberá feedbacks valiosos. Essa experiência (além dos benefícios específicos dos feedbacks) vai ajudá-lo a assimilar a crença de que existem pessoas confiáveis e vai treinar sua intuição e intelecto para identificá-las e confiar nelas adequadamente.
 
De acordo com Stephen Covey, a confiabilidade possui dois fatores: o fator técnico (competência) e o fator humano (caráter). Um indivíduo é confiável na medida em que possui os dois fatores em quantidade suficiente para a atividade em questão. Aplicando este conceito na terapia, você perceberá como o terapeuta é enestes dois fatores e gradualmente confiará nele. Dê o benefício da dúvida e observe. Não espere perfeição e sim integridade.
 
 
O Terapeuta é Melhor do que Eu?
 
O que causa esse medo é o nosso narcisismo, com sua vaidade e frágil autoestima. Acreditamos que em toda interação tem que haver um ser superior e um inferior e tememos que neste caso o inferior sejamos nós. Esse receio (junto com o desejo de receber ajuda e com a apreciação pelo trabalho dele) pode provocar um misto de sentimentos inconscientes positivos e negativos em relação ao terapeuta, que nos fazem querer nos aproximar e ao mesmo tempo querer nos afastar de sua presença.
 
O terapeuta não é melhor do que você como ser humano. Ele também possui limitações humanas. Mas ele é um profissional qualificado para cumprir o papel de terapeuta e no contexto do consultório está exercendo um papel diferente do seu (paciente/cliente) e complementar a ele. Assim, não cabe ali fazer comparações ou competir de qualquer outra forma, mas sim cada um desempenhar o seu papel.
 
Ele se envolve sem ficar envolvido, como um médico que mantém a serenidade ao atender uma pessoa justamente para poder atendê-la o melhor possível. O objetivo é aplicar os conhecimentos de psicologia dele ao seu caso, que é único e ao mesmo tempo semelhante a muitos outros. Não vai condenar você nem tomar suas decisões em seu lugar. Vai aceitá-lo como é, estimulá-lo a se aprimorar e lhe dar orientação e apoio.
 
“Cada homem que encontro é superior a mim em algo
e neste aspecto aprendo com ele”

Ralph Waldo Emerson
 
 
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