A jornalista americana
conta o que descobriu ao se disfarçar de homem por quase dois anos para
investigar o sexo oposto: "Hoje tenho muito mais simpatia pelos homens e
sei interpretar atitudes que antes não compreendia, por confundi-las com
arrogância"
Em 2003, a americana
Norah Vincent pediu licença de seu posto de colunista do jornal Los Angeles
Times para devotar-se a um projeto inusitado. Por quase dois anos, ela trocou
sua identidade feminina pela de um homem. Com um disfarce meticulosamente elaborado,
da barba artificial ao tom de voz, Norah – que é filósofa por formação –
infiltrou-se em vários ambientes masculinos. Ela conviveu com homens da classe
operária numa liga de boliche, frequentou clubes de strip-tease, internou-se
num mosteiro, trabalhou numa empresa de vendas e integrou-se a machões em crise
num grupo de terapia. Seu objetivo era investigar o comportamento e a
psicologia dos homens pelo ponto de vista de um observador de fora desse
universo. O resultado é narrado no livro Feito Homem (tradução de Magda Lopes;
Planeta; 305 páginas; 34,90 reais), que fez sucesso nos Estados Unidos e agora
chega ao Brasil. Norah (nas fotos acima, como mulher e homem) trouxe à tona impressões
reveladoras sobre as diferenças entre os sexos, a crise da masculinidade e as
próprias mulheres. Nessa entrevista, ela conta suas aventuras como Ned, seu
alter ego masculino.
Os homens são mesmo ruins
como se fala?
Norah
– Ao ver de perto como os homens se comportam, desmontei a ideia muito propalada
entre as mulheres de que tudo na vida é mais fácil para eles. Essa descoberta,
confesso, foi um choque. A condição sexual sempre foi vista como um peso muito
maior para as mulheres do que para os homens. As feministas queimaram sutiãs
nos anos 60 para exorcizar isso. Mas os homens também têm de corresponder a
tudo que se espera deles, o que pode resultar numa ansiedade brutal. Está na
hora de eles tomarem consciência de quanto às expectativas sociais – inclusive
das mulheres em relação a eles – os limitam. As feministas podem torcer o nariz
para essa ideia, mas eu vi a situação de perto e acho que é preciso ser dito.
De fato, toda essa experiência mudou a minha visão sobre os homens. Hoje tenho
muito mais simpatia por eles e sei interpretar atitudes que antes não
compreendia, por confundi-las com arrogância ou insensibilidade.
O homem de hoje lida de forma
mais relaxada com os valores da masculinidade?
Norah – Fala-se muito nos metrossexuais, os homens que não têm medo de se
mostrar sensíveis. Mas as expectativas em relação aos homens são as mesmas
desde sempre: autocontrole emocional, convicções firmes, independência. Ou
seja: eles não devem demonstrar fraqueza ou carência em público. Um homem
também não é considerado pleno se não for bem-sucedido no trabalho – por mais
que se relevem suas falhas nesse campo, ele será menos que um homem se não for
assim. A verdade é que, para um homem vencer na vida, os valores tradicionais
ainda são o parâmetro.
Como a senhora percebeu isso
durante sua experiência como Ned?
Norah – Tome um velho atributo enaltecido pelos machões: a postura incisiva. Na
pele de Ned, descobri que os que exibem esse traço tendem a ser mais
respeitados e a obter mais o que querem. No ambiente de trabalho, espera-se que
os homens briguem de forma agressiva por seu espaço e nunca demonstrem falta de
confiança. Eles, obviamente, também sentem suas fraquezas e têm dúvidas
existenciais. Mas aprenderam que um dos itens mais valiosos para a
sobrevivência é a capacidade de exibir uma couraça de autoconfiança. Quanto
mais conseguem ser convincentes, mais as coisas ficam sob seu controle, pois as
pessoas passam a acreditar nisso e a lhes delegar mais responsabilidades. As mulheres
têm muito que aprender com isso. Depois de observá-los, eu mesma me dei conta
de quanto vivia pedindo desculpas e me diminuindo perante os outros.
A senhora diz que os homens,
nas últimas décadas, foram colocados numa posição defensiva e muitas vezes
cultuam os valores masculinos de forma envergonhada. Quais as consequências
disso?
Norah – O homem goza de péssima reputação nos dias de hoje. O mundo tende a ver
a masculinidade como um desvio politicamente incorreto, assim como vê os brancos
ocidentais como vilões por terem colonizado outros povos. Não faltam advogados
de defesa dos negros e das lésbicas, mas o macho branco ocidental – e
heterossexual, claro – é sempre demonizado. Espero que meu trabalho ajude a ver
que é uma bobagem enxergar o mundo por esse prisma estreito. Em minha opinião,
é preciso, sim, alargar os horizontes do que se convencionou chamar de valores
masculinos. Mas é um absurdo propor a simples extinção deles, como parecem
pregar algumas de minhas colegas feministas.
Como foi possível se passar
por homem por quase dois anos sem que seu disfarce fosse notado?
Norah – Tenho traços físicos que, provavelmente, tornaram esse disfarce mais
fácil para mim do que seria para a maioria das mulheres. Sou, por exemplo, uma
mulher alta. Mas nada disso teria sido suficiente se eu não tivesse feito um
esforço excruciante para acreditar na persona que estava encarnando. Se eu não
tivesse incorporado a psicologia de Ned, minha versão masculina, não adiantaria
ter o melhor dos disfarces: as pessoas perceberiam a farsa com um simples golpe
de olhos.
Quais foram os maiores
desafios para não trair sua identidade?
Norah – Do ponto de vista da caracterização, foi acertar o tom de voz, sem
dúvida. Sempre tive um timbre grave, mas uma professora da Juilliard School (escola
de música nova-iorquina) me ensinou formas de respiração e ritmo que fazem toda
a diferença entre os sexos. Os homens tendem a usar palavras mais curtas e
costumam esgotar todo o ar dos pulmões numa frase, enquanto as mulheres têm uma
respiração mais entrecortada, o que dá maior dramaticidade ao que falam. Mas a
parte mais dura de minha empreitada foi conviver com os homens. Comportar-me
como um rapaz num meio 100% masculino revelou-se incrivelmente difícil, pois tive
de aprender a sufocar minhas emoções.
Por quê?
Norah – O jeito emotivo que as mulheres têm de encarar o mundo e se relacionar
com as pessoas é algo que não encontra lugar entre os homens, assim como nossas
expectativas em relação aos outros são bem diferentes. Ao contrário das
mulheres, que não se cansam de exprimir o que sentem, os homens são criaturas
fechadas que se entendem entre si muitas vezes por meio de não mais que
resmungos – ou mesmo o silêncio, como comprovei ao participar de uma liga de
brutamontes que jogavam boliche. Sofri rejeição, porque os homens com quem
convivi volta e meia implicavam com meu jeito hesitante e tentavam me corrigir.
Eles às vezes achavam que havia algo de errado comigo, porque eu não estava
agindo do modo que consideravam normal num macho. Mas na maior parte do tempo
meu disfarce funcionou perfeitamente. Quando eu ia a bares ou estava numa roda
de amigos, eles falavam das mulheres na minha frente de um modo franco como
nunca falariam se soubessem meu verdadeiro sexo. Eu me senti como uma espiã
infiltrada no sindicato do crime.
Como Ned, a senhora viveu
várias experiências de paquera. É mais fácil ser homem ou mulher nessa hora?
Norah – De forma geral, é mais fácil ser mulher. Pela natureza da vida social,
as mulheres têm de fazer menos esforço para se arranjar – é só esperar até que
os caras se aproximem e façam a corte. Se eles tiverem a sorte de não levar um
fora, precisarão ainda gastar muita conversa – além de pagar a conta – antes de
chegar aos finalmentes. Como constatei ao buscar uma namorada, lidar com a
rejeição é um dado inescapável na vida dos homens. Deparei com sujeitos que
aprenderam com os pais um velho mandamento da masculinidade: um homem de
verdade não desiste nunca, não importa quantos foras tome.
Não é ilusório achar que as
mulheres estão menos sujeitas à rejeição?
Norah – Elas também têm dificuldades, mas esse é um dos campos em que os homens
se sentem menos poderosos que as mulheres. Ao ver de perto as agruras dos
rapazes, percebi que as mulheres poderiam tirar mais vantagem de sua posição.
Elas não imaginam o poder que suas opiniões têm sobre a autoestima masculina.
O que foi mais complicado: ir
a um clube de strip-tease ou achar uma namorada?
Norah – Passei poucas e boas em busca de uma namorada, mas nada se compara às
experiências nos clubes. Foi deprimente ir a lugares desse tipo. Trata-se de um
lado obscuro – e mal resolvido – da vida masculina. Não há novidade, é claro,
no fato de os homens pagarem prostitutas para satisfazer um impulso meramente
físico. Sei que é complicado para eles se abrir com suas mulheres ou namoradas
sobre suas fantasias sexuais – 99% delas não entenderiam. Foi chocante,
contudo, descobrir que esse ritual muitas vezes é só uma válvula de escape para
uma vida vazia e cheia de hipocrisia – ou mesmo uma forma de afirmação perante
os amigos. Um dos homens que conheci deixava a mulher com câncer terminal em
casa e ia a um clube. Eu me surpreendi ao ver como é comum que maridos
dedicados frequentem inferninhos pela vida inteira, sem que a esposa desconfie.
E qual a sua impressão sobre
arranjar uma namorada?
Norah – Um dos objetivos óbvios de meu estudo era obter uma visão feminina do
universo dos homens. Mas a experiência também serviu para que eu visse traços
nas mulheres que nunca havia percebido. Como Ned, cortejei uma trintona que era
o estereótipo da mulher mal-amada. Ela fazia tudo para repelir seus pretendentes,
como falar de casos que não deram certo e mostrar fotos de família logo no
primeiro encontro. Por meio de figuras como ela, pude detectar alguns defeitos
femininos capazes de cortar a excitação de qualquer um. Não há nada mais
desestimulante que uma mulher que exala certo ar de superioridade emocional e
insiste em esfregar na cara do pretendente como os homens a magoam.
A senhora conviveu com monges
num mosteiro. O homem confinado num ambiente de celibato é diferente dos
demais?
Norah – Muito pelo contrário. Se há alguma diferença, é que as dificuldades
desses homens em se comunicar com os outros e suas carências são ainda mais
exacerbadas. Eles não podem demonstrar quanto precisam de carinho e afeto, pois
essa é a regra nesses locais. É uma pena, porque para mim ficou patente que
precisam muito disso.
A senhora não temia ser
desmascarada?
Norah – Eu ficava em pânico com isso. Temia até por minha integridade física,
especialmente quando me infiltrei no grupo de terapia – um bando de marmanjos
que não escondiam sua raiva das mulheres que os oprimiam. Quanto mais eu
fingia, mais me envolvia com esses homens, e o fardo acabou se tornando pesado
demais. Ao final, já não aguentava me olhar no espelho e ver Ned na minha
frente a cada manhã. Tive um esgotamento nervoso e acabei num hospital.
Como foi a reação deles quando finalmente vieram a saber da farsa?
Norah – Primeiro, eles ficavam embaraçados e se recusavam a acreditar que eu
era mulher. Depois, começavam a ver as coisas em retrospecto e juntavam as
pistas das quais não tinham se dado conta. "Ah, então é por isso que Ned
sempre foi tão bom confidente", diziam. Ou então: "Está explicado por
que Ned tinha um jeitinho gay que me incomodava". O fascinante desse
processo é que, tão logo vinham a saber que eu era mulher, o modo como me
tratavam mudava totalmente. Muitos relaxavam e passavam a se abrir mais. Outros
assumiam uma postura mais defensiva. Eu tinha virado alguém de outra espécie,
afinal.
Em algum momento a senhora
ficou com vontade de ter nascido homem?
Norah – Sou homossexual, mas nunca tive o desejo de ser algo diferente do que
sou. Sou mulher, programada biologicamente para agir e pensar como qualquer
outra pessoa de meu sexo. Isso não mudou depois de minha experiência como Ned.
Descobri que a realidade oferece vantagens e armadilhas distintas para cada
lado. A vida dos homens pode ser muito dura, principalmente no aspecto
emocional. Eles são muito isolados em relação aos pais, irmãos, filhos e
amigos, pois não comungam sua intimidade com o mesmo desprendimento que as
mulheres têm umas com as outras. E, embora isso ajude a compor sua imagem de
macho, muitos homens se ressentem da falta de um canal para extravasar seus
problemas íntimos. Aqueles com quem convivi num grupo anônimo de terapia
masculina estavam ali por causa dessa carência – só em segredo podiam dividir
sua vulnerabilidade com os outros. Por outro lado, apesar dessa dificuldade em
comungar suas emoções, os homens têm certo espírito de companheirismo que o
feminismo tentou mas nunca conseguiu despertar nas mulheres.
Fonte:
Onde comprar o livro "Feito Homem":
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