quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Rigidez Mental (4/6): "Devia ter..."


No domingo e outros dias há programas “mesa redonda” em que jornalistas, profissionais do esporte e outros debatem os jogos que ocorreram nos dias anteriores discutem sobre o que jogadores, técnicos e juízes deveriam ter feito e o que teria acontecido se eles tivessem agido diferente ou se as circunstâncias tivessem sido diversas das que foram de fato.

O que é divertido no futebol pode ser prejudicial em nossa vida. Essa especulação chama-se “pensamento contrafactual”. Insistir em ruminar erros irreversíveis e/ou de falhas que outros cometeram contra nós pode paralisar e amargurar nossa vida. Podemos ser facilmente invadidos por sentimentos de culpa e ressentimento, além de mais vulneráveis a novos erros. Não dá para modificar o passado.

Por exemplo, alguns lamentam terem se casado cedo demais, ou com a pessoa errada. Se for o seu caso, pode ser que teria sido melhor se você tivesse continuado solteiro. Mas o fato é que você se casou quando se casou e com quem se casou e essa é a realidade com que tem de lidar agora.

O mesmo vale para erros que outros cometeram contra nós. Ficar obcecado com o que alguém deveria ter feito, como seria se ele ou ela tivesse agido como deveria e com o que você gostaria que ocorresse com essa pessoa não contribui em nada para melhorar sua vida.

Também podemos lamentar oportunidades desperdiçadas: o curso que não fizemos, o emprego que não aceitamos, a casa que não compramos e assim por diante. Pode ser que sua vida hoje seria bem melhor se você tivesse aproveitado certa oportunidade, mas simplesmente não há como saber como seria agora se o tivéssemos feito. Também poderia ser bem pior.

Se fosse possível voltar no tempo para alterar eventos passados em nossa vida, outros provavelmente também esse poder e a realidade seria alterada continuamente, seria um caos total. Dedicar toda a nossa energia cognitiva ao pensamento contrafactual, especulando o que poderia ou deveria ter acontecido, não o auxilia em nada a tornar-se o que ainda pode ser.


DEIXE O PASSADO PARA TRÁS

A única forma produtiva de se lidar com o pensamento contrafactual e com os sentimentos que ele provoca é (1) aprender com o passado, (2) enterrá-lo morto e (3) prosseguir sua vida com maior sabedoria. Como fazer isso?

Substituindo um conjunto de pensamentos e sentimentos por outro. Quando nossa cognição está ocupada com ruminar o passado, sobra pouco tempo e energia para pensamentos e sentimentos sobre prosseguir nossa vida. Mas a recíproca é verdadeira: se nos obrigarmos a focar o “daqui em diante”, sobrará menos “espaço” para ruminação e gradualmente desenvolveremos novos hábitos mentais.

O processo começa pela seleção de novos interesses capazes de melhorar nossa vida. Pode ser um novo trabalho, novos relacionamentos sociais, novas atividades para realizar nas horas livres, etc. Faça pesquisa para determinar o que seria bom para você, escute sugestões de amigos.

Quando nos pegamos cheios de raiva, culpa ou tristeza por algo que pensamos que deveria ser diferente, podemos sentir que nada mais há que possa nos fazer felizes. O que queremos dizer é que nada que possamos fazer pode nos fazer tão felizes quanto acreditamos que seríamos se aquele evento tivesse sido diferente.

Mesmo que seja verdade que não dá para ser feliz como seria se o passado tivesse transcorrido conforme deveria ter sido, ainda é possível ser feliz no futuro. Não será como poderia ter sido, mas pode ser melhor do que uma vida de raiva e desespero. Além disso, não podemos prever o futuro, não temos como saber o que ele nos reserva. O que sabemos é que temos as opções de continuar lamentando o passado ou de buscar melhorar nosso futuro. Podemos continuar nos sentindo mal com o que poderia ter sido ou concentrar nossa atenção em um projeto de vida.



COMO LIDAR COM A CULPA

Podemos escolhemos continuar nos torturando pelo passado porque acreditamos que devemos sofrer por ter cometido, não um mero lapso, mas um grande erro. Porém, limitar-se a sentir-se mal não modifica o passado nem contribui para melhorar o futuro (ao contrário, o sabota).
 
Há diversas formas mais produtivas de reparar delitos passados. Você pode pensar em modos de compensar pessoas que prejudicou. Pode fazer empenho para auxiliar pessoas a evitar cometer ou deixar de cometer os mesmos erros que você cometeu. O melhor modo de lidar com o passado é extrair lições e agir melhor daqui em diante.


* * *

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Envie-nos seu comentário inteligente e educado: