Os adultos inculcam nas crianças desde muito cedo que
elas devem se ajustar a um padrão médio e se comparar com outras que são
apresentadas como exemplos a imitar. Isso não é ruim em si mesmo, ao contrário.
Um problema é que muitas vezes os adultos inculcam na
criança uma compreensão errônea de quem ela é e dos papéis que desempenhará na vida. Pronunciam (com e sem palavras) “profecias” e “maldições”
a respeito de seu futuro, que a criança assimila em sua autoimagem e sistema de
crenças. Projetam na criança suas fantasias, medos, etc. Querem determinar o
seu futuro e tomar suas decisões pessoais por ela.
A criança é punida se agir diferente do papel atribuído e
recompensada quando age de acordo. Se o menino que “é ruim de escola” tirar
notas boas, esse fato é alvo de fria indiferença, zombarias e críticas até que
ele “volte ao normal”, quando é aceita de novo.
COMPETIÇÃO
IMPRÓPRIA E IGUALDADE FORÇADA
Muitas pessoas transmitem um conceito distorcido de
“igualdade”, que diz que todos nós somos idênticos em nossas capacidades e
oportunidades e que assim quaisquer diferenças entre indivíduos seria resultado
apenas das atitudes “positivas” ou “negativas”.
Durante qualquer processo de aprendizado é natural que
haja alguma dificuldade de assimilação das novas informações e habilidades.
Porém, esse “gargalo” é (explícita ou implicitamente) atribuído à incompetência
ou à falta de atitudes “positivas” da criança, especialmente se a maioria das
outras crianças apresenta menos dificuldades.
A criança recebe mensagens contraditórias. Ouve que todos
são iguais, embora perceba que existem diferenças entre as pessoas em todos os
sentidos. Ouve que devemos ser tolerantes, mas muitos defensores da tolerância
querem impor-lhes o seu molde. Ouve que devemos ser iguais, mas vê as pessoas
competindo (de forma sutil ou não) através de críticas e comparações e é
estimulada a ser melhor do que os outros, ao mesmo tempo em que aprende que
querer ser melhor do que os outros é errado.
Vale lembrar: competição não é ruim em si mesma. Quando é
feita nos lugares certos, nos momentos certos, nas quantidades certas e das
formas certas, pode produzir benefícios. O problema é quando é feitas no
lugares, horas, quantidades e formas erradas.
DESPREZO
PELO OUTRO
Consequentemente, somos treinados para ver o outro com
desconfiança. Aprendemos que, para alguém ter “sucesso”, é necessário que
outros percam; para alguém ser “feliz”, é necessário que outros sejam
infelizes. Esse “outro” pode ser tanto outro membro do nosso grupo (seja qual
for) quanto o membro do outro grupo.
Às vezes o outro não está competindo conosco, está
buscando apenas o seu próprio bem-estar e desenvolvimento sem nenhuma intenção
de diminuir ou impedir os nossos, mas ainda assim nos sentimos ameaçados com
sua simples existência. Se formos honestos, admitiremos que às vezes enxergamos
ataques contra nós em palavras e ações neutras do outro. E em alguns casos
contra-atacamos ataques imaginários de alguém.
Para muitos, a competitividade é a principal ou mesmo a
única motivação. Se o outro não quer competir, esse tipo de pessoa o provoca.
Afinal, ela é supertreinada para disputar e para tanto precisa de competidores.
Além disso, não sabe simplesmente buscar seus objetivos sem estar se comparando
com terceiros e tentando vencê-los, muito menos cooperar. É a única forma de
assegurar sua autoimagem, mesmo que magoe ou prejudique outros sem necessidade
real.
Ninguém pode ser “vencedor” indefinidamente. Mas todos nós
temos que esconder nossos pontos fracos e dores para que outros não as usem
contra nós e para projetarmos uma imagem imbatível, como os demais fazem. É
muito desagradável a sensação de que nossos competidores conseguiram aquilo que
nós não conseguimos e não passam por reveses como nós.
A competitividade excessiva é fruto do narcisismo
(admiração exagerada por si mesmo, egocentrismo, desejo de que outros nos
admirem e nos imitem, ilusão de superioridade, autoestima demasiada e ao mesmo
tempo frágil). Esse defeito alimenta a si mesmo, pois induz a não nos
conectarmos com os outros e a repetir comportamentos que pioram nossa atitude.
Quando o narcisismo é ameaçado, ele fica ainda mais competitivo, podendo
ter acessos de raiva, cair em depressão e outros descontroles.
A saída do narcisista é reduzir o outro o derrotando, ou
sabotando-o, ou apagando o seu brilho colocando em dúvida os seus atributos e
motivações. O narcisista tenta convencer os demais da inferioridade do seu
competidor, mas no fundo ele está tentando convencer a si mesmo disso.
O JOGO
DA NÃO-ACEITAÇÃO
Mesmo que seja inconscientemente, você sabe que tudo isso
é uma falsidade, mas sempre se recusou a se dar conta plenamente deste fato,
mantendo-se no nevoeiro. Com medo do outro e sem autoconfiança genuína, nunca
pôde confiar em nada nem em ninguém de forma plena. Vê a si mesmo como um
impostor e ao outro, como uma ameaça constante. Não pode admitir aos demais nem
a si mesmo os seus próprios sentimentos, nem pode conhecer a terceiros além do
que as palavras e aparências revelam.
Assim, você sempre jogou o jogo da não-aceitação de si
mesmo nem do outro, o que o conduziu à situação de no fundo se sentir
inadequado e não poder perguntar a ninguém o que fazer, pois isso seria dar
brecha a possíveis inimigos. Essa situação deteriora os relacionamentos, pois
leva o outro a também não aceitar a si mesmo nem a você, em contrapartida. Ele
também é um ser humano com limitações, imaturidades e dificuldades de
autoaceitação e aceitação do outro (que no caso dele é você).
O resultado é que ambos passam a viver em um círculo
vicioso de destruição de tudo o que uma interação entre pessoas pode trazer de
bom. Os dois são defensivos, fazendo “testes” e provocações para um verificar a
atitude do outro e vice-versa, o que gera comportamentos que parecem confirmar
a suspeita de que se trata de um inimigo. Trata-se de mais um caso de “profecia
autocumpridora” realizado inconscientemente.
O MEDO
DE SE EXPOR
O resultado final é o medo de abrir-se com o outro (ou de
pedir que o outro se abra com você). Significaria tornar-se vulnerável ao
ataque inimigo. Também significaria reconhecer para si mesmo e para o outro os
seus próprios pontos fracos e inadequações.
Para mitigar os sintomas, temos apenas relações
superficiais com os outros em nossa família, trabalho, escola, grupo religioso,
etc., embora as causas do problema continuem existindo e nos perturbando e a
elas somemos os danos da superficialidade geral. Perdemos a oportunidade de
descobrir que outros têm sentimentos similares, o que por si só reduziria o
peso dele, além de aprender com pessoas que os solucionaram.
O medo de aceitar que o outro se abra conosco vem do
receio de descobrir que temos o mesmo problema, do temor de que aceitar isso
requer que também nos abramos com ele, da inabilidade de demonstrar empatia e
de dar orientação e apoio, além de certa dose de orgulho e egoísmo. É mais
fácil falar apenas de assuntos divertidos. Não recebemos treinamento para nos
abrir (nem para receber a abertura do outro) e até mesmo fomos punidos quando o
fizemos.
Não significa que temos que nos abrir indiscriminadamente
com os outros, nem que não tenhamos que ser criteriosos quando outros se abrem
conosco. Significa que temos que rever esses conceitos inconscientes e aprender
a nos relacionar com nós mesmos e com os outros, sabendo adaptar nosso
comportamento a cada ambiente, momento e pessoa.
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