quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Treinamento Para a Infelicidade (5/5): O Relacionamento Doentio com o "Outro"

 
Os adultos inculcam nas crianças desde muito cedo que elas devem se ajustar a um padrão médio e se comparar com outras que são apresentadas como exemplos a imitar. Isso não é ruim em si mesmo, ao contrário.
 
Um problema é que muitas vezes os adultos inculcam na criança uma compreensão errônea de quem ela é e dos papéis que desempenhará na vida. Pronunciam (com e sem palavras) “profecias” e “maldições” a respeito de seu futuro, que a criança assimila em sua autoimagem e sistema de crenças. Projetam na criança suas fantasias, medos, etc. Querem determinar o seu futuro e tomar suas decisões pessoais por ela.
 
A criança é punida se agir diferente do papel atribuído e recompensada quando age de acordo. Se o menino que “é ruim de escola” tirar notas boas, esse fato é alvo de fria indiferença, zombarias e críticas até que ele “volte ao normal”, quando é aceita de novo.
 
 
COMPETIÇÃO IMPRÓPRIA E IGUALDADE FORÇADA
 
Muitas pessoas transmitem um conceito distorcido de “igualdade”, que diz que todos nós somos idênticos em nossas capacidades e oportunidades e que assim quaisquer diferenças entre indivíduos seria resultado apenas das atitudes “positivas” ou “negativas”.
 
Durante qualquer processo de aprendizado é natural que haja alguma dificuldade de assimilação das novas informações e habilidades. Porém, esse “gargalo” é (explícita ou implicitamente) atribuído à incompetência ou à falta de atitudes “positivas” da criança, especialmente se a maioria das outras crianças apresenta menos dificuldades.
 
A criança recebe mensagens contraditórias. Ouve que todos são iguais, embora perceba que existem diferenças entre as pessoas em todos os sentidos. Ouve que devemos ser tolerantes, mas muitos defensores da tolerância querem impor-lhes o seu molde. Ouve que devemos ser iguais, mas vê as pessoas competindo (de forma sutil ou não) através de críticas e comparações e é estimulada a ser melhor do que os outros, ao mesmo tempo em que aprende que querer ser melhor do que os outros é errado.
 
Vale lembrar: competição não é ruim em si mesma. Quando é feita nos lugares certos, nos momentos certos, nas quantidades certas e das formas certas, pode produzir benefícios. O problema é quando é feitas no lugares, horas, quantidades e formas erradas.
 
 
DESPREZO PELO OUTRO
 
Consequentemente, somos treinados para ver o outro com desconfiança. Aprendemos que, para alguém ter “sucesso”, é necessário que outros percam; para alguém ser “feliz”, é necessário que outros sejam infelizes. Esse “outro” pode ser tanto outro membro do nosso grupo (seja qual for) quanto o membro do outro grupo.
 
Às vezes o outro não está competindo conosco, está buscando apenas o seu próprio bem-estar e desenvolvimento sem nenhuma intenção de diminuir ou impedir os nossos, mas ainda assim nos sentimos ameaçados com sua simples existência. Se formos honestos, admitiremos que às vezes enxergamos ataques contra nós em palavras e ações neutras do outro. E em alguns casos contra-atacamos ataques imaginários de alguém.
 
Para muitos, a competitividade é a principal ou mesmo a única motivação. Se o outro não quer competir, esse tipo de pessoa o provoca. Afinal, ela é supertreinada para disputar e para tanto precisa de competidores. Além disso, não sabe simplesmente buscar seus objetivos sem estar se comparando com terceiros e tentando vencê-los, muito menos cooperar. É a única forma de assegurar sua autoimagem, mesmo que magoe ou prejudique outros sem necessidade real.
 
Ninguém pode ser “vencedor” indefinidamente. Mas todos nós temos que esconder nossos pontos fracos e dores para que outros não as usem contra nós e para projetarmos uma imagem imbatível, como os demais fazem. É muito desagradável a sensação de que nossos competidores conseguiram aquilo que nós não conseguimos e não passam por reveses como nós.
 
A competitividade excessiva é fruto do narcisismo (admiração exagerada por si mesmo, egocentrismo, desejo de que outros nos admirem e nos imitem, ilusão de superioridade, autoestima demasiada e ao mesmo tempo frágil). Esse defeito alimenta a si mesmo, pois induz a não nos conectarmos com os outros e a repetir comportamentos que pioram nossa atitude. Quando o narcisismo é ameaçado, ele fica ainda mais competitivo, podendo ter acessos de raiva, cair em depressão e outros descontroles.
 
A saída do narcisista é reduzir o outro o derrotando, ou sabotando-o, ou apagando o seu brilho colocando em dúvida os seus atributos e motivações. O narcisista tenta convencer os demais da inferioridade do seu competidor, mas no fundo ele está tentando convencer a si mesmo disso.
 
 
O JOGO DA NÃO-ACEITAÇÃO
 
Mesmo que seja inconscientemente, você sabe que tudo isso é uma falsidade, mas sempre se recusou a se dar conta plenamente deste fato, mantendo-se no nevoeiro. Com medo do outro e sem autoconfiança genuína, nunca pôde confiar em nada nem em ninguém de forma plena. Vê a si mesmo como um impostor e ao outro, como uma ameaça constante. Não pode admitir aos demais nem a si mesmo os seus próprios sentimentos, nem pode conhecer a terceiros além do que as palavras e aparências revelam.
 
Assim, você sempre jogou o jogo da não-aceitação de si mesmo nem do outro, o que o conduziu à situação de no fundo se sentir inadequado e não poder perguntar a ninguém o que fazer, pois isso seria dar brecha a possíveis inimigos. Essa situação deteriora os relacionamentos, pois leva o outro a também não aceitar a si mesmo nem a você, em contrapartida. Ele também é um ser humano com limitações, imaturidades e dificuldades de autoaceitação e aceitação do outro (que no caso dele é você).
 
O resultado é que ambos passam a viver em um círculo vicioso de destruição de tudo o que uma interação entre pessoas pode trazer de bom. Os dois são defensivos, fazendo “testes” e provocações para um verificar a atitude do outro e vice-versa, o que gera comportamentos que parecem confirmar a suspeita de que se trata de um inimigo. Trata-se de mais um caso de “profecia autocumpridora” realizado inconscientemente.
 
 
O MEDO DE SE EXPOR
 
O resultado final é o medo de abrir-se com o outro (ou de pedir que o outro se abra com você). Significaria tornar-se vulnerável ao ataque inimigo. Também significaria reconhecer para si mesmo e para o outro os seus próprios pontos fracos e inadequações.
 
Para mitigar os sintomas, temos apenas relações superficiais com os outros em nossa família, trabalho, escola, grupo religioso, etc., embora as causas do problema continuem existindo e nos perturbando e a elas somemos os danos da superficialidade geral. Perdemos a oportunidade de descobrir que outros têm sentimentos similares, o que por si só reduziria o peso dele, além de aprender com pessoas que os solucionaram.
 
O medo de aceitar que o outro se abra conosco vem do receio de descobrir que temos o mesmo problema, do temor de que aceitar isso requer que também nos abramos com ele, da inabilidade de demonstrar empatia e de dar orientação e apoio, além de certa dose de orgulho e egoísmo. É mais fácil falar apenas de assuntos divertidos. Não recebemos treinamento para nos abrir (nem para receber a abertura do outro) e até mesmo fomos punidos quando o fizemos.
 
Não significa que temos que nos abrir indiscriminadamente com os outros, nem que não tenhamos que ser criteriosos quando outros se abrem conosco. Significa que temos que rever esses conceitos inconscientes e aprender a nos relacionar com nós mesmos e com os outros, sabendo adaptar nosso comportamento a cada ambiente, momento e pessoa.
 
 
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