Diante de
acontecimentos irritantes e frustradores do cotidiano, muitas vezes reagimos de
forma bem emocional e pouco esclarecida. A irritação e a frustração são muito
presentes em nossa vida. Mas se os romanos de hoje podem ser irritadiços, mas
no tempo de Sêneca no século 1DC eram ainda mais. Ele se
preocupava com isso e queria acalmar as pessoas.
Sêneca era membro do senado e escreveu
mais de vinte livros de conselhos práticos. Também possuía suas frustrações.
Era melancólico, tuberculoso e tinha crises de depressão que quase o levaram ao
suicídio. Vivia em tempos perigosos, em que execuções aconteciam fácil e frequentemente,
nunca se sabia se estaria vivo no dia seguinte.
Em 49DC teve que
aceitar ser tutor do menino de doze anos que seria o futuro imperador Nero.
Sêneca percebeu o perigo e tentava se demitir, mas Nero não permitia e jurava
que nunca o machucaria. Mas Sêneca não acreditava. Percebia que Nero era um psicopata
com poder absoluto.
As consequências
da ira eram tão aterradoras que Sêneca era desesperado para amenizá-las. Um
imperador irado era algo catastrófico! Dedicou um livro inteiro ao assunto: “A
Emoção mais Hedionda e Furiosa”. Mas Sêneca se recusava a encarar a ira
como um acesso irracional e incontrolável. Em vez disso, acreditava que era uma
questão de modo de pensar e de crenças que podia ser tratada racionalmente.
A ira surge de
certas ideias sobre a vida e o mundo. O problema básico é que alimentamos
expectativas altas demais. Esperamos que tudo saia como cremos que deveria ser
e então ficamos irritados diante de nossas decepções. E o pior é que não
aprendemos com a experiência: passam-se anos e continuamos alimentando expectativas
excessivas e nos surpreendendo com algo que se repete frequentemente como se
fosse a primeira vez. Se alimentássemos expectativas mais razoáveis, nos
irritaríamos menos vezes e com menos intensidade. Não seria boa ideia reduzir
nossas expectativas a um patamar razoável?
Quem alimenta
expectativas excessivas espera algo errado da vida. Precisamos ter mais
equilíbrio e bom senso no que esperamos e assim ajustar nossa visão do mundo
para nos surpreendermos menos com os fatos desagradáveis. Além disso, se
aceitarmos que não há como nos livrarmos completamente das frustrações,
manteremos a serenidade ao nos depararmos com elas. Sentimos tanta raiva porque
acreditamos que tudo deveria ser como queremos, mas não é assim que a vida
funciona. Temos que aceitar muitos fatos que nem sempre podemos mudar.
Podemos comparar
com um cão amarrado a uma carruagem em movimento. A coleira lhe dá alguma liberdade,
mas não lhe permite ir aonde quer. O cão logo percebe que, para maximizar suas
chances de ser feliz, ele deve seguir a carruagem. Portanto, é melhor cooperar
seguindo em uma direção que não quer ir, mas é obrigado, do que lutar contra
algo que você não pode mudar. Neste caso, o cão seria arrastado de qualquer
forma e também seria estrangulado, o que seria pior ainda.
Entretanto, nós
temos uma vantagem sobre os animais: nós raciocinamos e podemos perceber o que
podemos e o que não podemos mudar. E quando não podemos mudar algo, podemos
modificar nossa atitude em relação a ele. Essa capacidade perceptiva nos dá uma
forma especial de liberdade.
Sêneca era rico,
e talvez você imagine que ele e outros romanos de classe alta levavam uma vida
de muita tranquilidade. Mas em seus relacionamentos e observações ele percebeu
que, quanto mais rico era um indivíduo, mais irritadiço ele era.
Paradoxalmente, a riqueza deixava as pessoas mais iradas e mau-humoradas, em
vez de mais calmas.
Observamos o
mesmo fenômeno hoje em dia. Por exemplo, nos aeroportos os passageiros de primeira
classe são muito mais impacientes do que os de classe econômica. Sêneca afirmou
que isto acontece porque, quanto mais rico é alguém, mais altas e numerosas são
as suas expectativas e menor sua tolerância à frustração. Assim, qualquer
contrariedade é razão para explosões de ira. Os ricos também acreditam que o
dinheiro os poupará de frustrações, o que é uma expectativa absurda.
Essa forma de
pensar também nos ajuda a manter a serenidade diante das vicissitudes da vida.
O pensamento de Sêneca é útil para todos nós, não só para os mais irritadiços, pois
todos nós reagimos mal às frustrações. Ajustar nossas expectativas faz bem para
todo mundo!
Apoiar as
pessoas lhes garantindo que tudo vai dar certo pode ser um mau presente, pois
simplesmente não podemos dar essa garantia absoluta. É melhor desejar que tudo
dê certo, acreditar que pode mesmo, mas nos prepararmos para caso não der. Não
é para nos lamentarmos antecipadamente, mas para nos preparamos para as
possíveis alternativas de modo a alimentarmos expectativas razoáveis e diferenciarmos
o que podemos modificar e o que não podemos mudar.
Tendemos a
superestimar nossa capacidade de modificar a situação. Os habitantes de Pompéia
acreditavam serem senhores de seu destino. O acaso pode tanto nos trazer algo
bom quanto algo ruim. Neste segundo caso, temos que aceitar com serenidade os
fatos desagradáveis além do nosso controle e seguir em frente. Mesmo quando
tudo parece seguro, nossa única proteção é o preparo psicológico.
Em 65DC Sêneca
foi acusado falsamente de participar de uma conspiração contra Nero, que enviou
um centurião na casa do filósofo para ordenar que se suicidasse imediatamente.
Os amigos e familiares de Sêneca caíram em prantos, mas ele aceitou calmamente
e cortou suas veias com uma faca.
Sêneca viveu e
morreu como nos ensinou a viver. Um dia Sêneca disse a uma amiga que perdeu o
filho: “Por que chorar por partes da vida se é o todo que pede lágrimas?” Se
tivermos sorte, nada tão terrível nos atingirá, mas fatos ruins podem acontecer
e a melhor forma de encará-los é estar psicologicamente preparados. Raiva e
frustração são reações irracionais a reveses, a única estratégia racional é
aceitar que eles acontecem. Assim, estaremos sendo, no verdadeiro sentido da
palavra, pensadores.
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